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Qual o futuro dos livros? Quatro livreiros respondem

Livraria  Lello passou a cobrar entradas em junho de 2015.
Foto: Leonel de Castro/Global Imagens
Livraria Lello passou a cobrar entradas em junho de 2015. Foto: Leonel de Castro/Global Imagens

No ano passado, o mercado editorial português cresceu 3,9%, passando a valer 345 milhões de euros

“É o fim do livro”. Não é preciso chegar à era das redes sociais para encontrar a profecia que anuncia a morte dos livros. Era ainda o início do século XX, na década de 20, quando o sociólogo Walter Benjamin previu que o livro, na sua forma tradicional, estava a caminhar para o seu fim, ofuscado pela “literatura” dos anúncios publicitários luminosos que tomaram conta das ruas.

Chegados a 2016, os e-books não tiveram o impacto destrutor que se antevia (alguns relatórios mostram, aliás, que as vendas têm caído), a infinidade de conteúdos online não foi suficiente para acabar de vez com o interesse pelo papel e, mais uma vez, os livros sobreviveram. Com que cicatrizes?

Em conversa com o jornal espanhol El País, quatro grandes editoras europeias tentam responder a essa questão. Petra Hardt, diretora internacional de direitos da alemã Suhrkamp, Anne-Solange Noble, diretora internacional de direitos da francesa Gallimard, Giuseppe Laterza, presidente da italiana Latzer, e Valeria Ciompi, diretora editorial da espanhola Alianza, analisam o futuro do setor, desde a reinvenção do editor à necessidade de recurso a vários meios para chegar ao leitor – quer o digital, quer o analógico.

Vendas de e-books têm vindo a cair. Fotografia: Scott Eells/Bloomberg

Vendas de e-books têm vindo a cair. Fotografia: Scott Eells/Bloomberg

A conclusão mais imediata é simples: “não houve uma irrupção do digital, [este] só representa 4% das vendas”, diz Laterza. “Os gurus fracassaram na previsão de que o livro ia morrer”, acrescenta. Hardt vai mais longe: “o e-book é só outra forma de livro impresso”.

Em Espanha, o cenário é diferente e sentiu-se mesmo o impacto do digital, reconhece Ciompi. E o resultado está à vista: as vendas de livros caíram 33%, um valor bem superior ao dos restantes mercados europeus (que, ainda assim, registaram quebras).

Mercado editorial português vale 345 milhões de euros

Por cá, a tendência é outra. Os dados da consultora Informa D&B mostram que, no ano passado, o mercado editorial cresceu 3,9% face a 2014. Foi o segundo ano consecutivo em que o setor registou um crescimento, “após um período de quedas entre 2008 e 2013, fruto da redução de rendimento das famílias e, por outro lado, da grande disponibilidade de conteúdos na internet”, refere a consultora.

Contas feitas, no final do ano passado, o mercado editorial português valia 345 milhões de euros e contava com 410 empresas, que empregam mais de 2200 trabalhadores. “Nos últimos anos, o número de editoras tem vindo a diminuir, embora no exercício de 2014 tenha havido uma ligeira retoma”, aponta ainda a Informa D&B.

Redes sociais são “oportunidade interessante”

Questionados pelo El País sobre se as redes sociais contribuem para encontrar novos autores, as respostas das editoras divergem. Para Laterza, as redes sociais são “uma oportunidade muito interessante”, mas é preciso explorá-las do ponto de vista editorial. “Se publico um texto na minha página de streaming, a primeira coisa que vou fazer é incentivar uma discussão com a comunidade de leitores”.

A escadaria da Livraria Lello, no Porto, é ponto preferencial para as fotografias dos turistas e dos clientes. ( Pedro Granadeiro / Global Imagens )

A escadaria da Livraria Lello, no Porto, é ponto preferencial para as fotografias dos turistas e dos clientes.
( Pedro Granadeiro / Global Imagens )

Hardt vê a web de outra forma. “Não funcionamos dessa forma. Os europeus são diferentes dos norte-americanos. Encontramos os autores através de recomendações de outros escritores, de prémios, concursos, leitura dos manuscritos que chegam às editoras A web serve mais para encontrar autores comerciais, não para a literatura que fazemos”, diz ao jornal espanhol.

Garantir vendas: apoio institucional e festivais literários

Como resistir, então, à quebra de vendas? O apoio institucional é essencial e “devia ser generalizado”, defende Noble. Este apoio, diz, deveria vir dos “impostos de todos”.

Outra solução, praticada pela Laterza, é participar em festivais literários ou colaborar com teatros ou outras entidades para que os livros possam chegar ao grande público. “Temos de inventar uma nova forma de ser editores”, acredita.

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