Christiane Amanpour

“Questiono-me se estou viva por ter um filho”

Christiane Amanpour
Christiane Amanpour

Christiane Amanpour ganhou fama a nível global na década de
noventa como correspondente de guerra da CNN e aproveitou isso para
trabalhar ao mesmo tempo no programa 60 Minutes da CBS. Este ano,
apenas 16 meses após ter conseguido um cobiçado lugar de pivot no
programa This Week da ABC, regressou às reportagens no estrangeiro
(para a ABC e a CNN) porque “simplesmente não há pessoas
suficientes para o fazer”.

Como começou no jornalismo?

Numa estação de televisão em Providence. Eles tiveram um ato de
fé e contrataram-me, acho que por terem visto uma jovem que levava
muito a sério o seu percurso profissional. Eu sabia exatamente o que
queria fazer – ser correspondente no estrangeiro – o que atualmente é
incomum; muitos licenciados adiam uma decisão e continuam a estudar.
Por isso, foi a ambição que mostrei, o sentido de missão e a
vontade de fazer qualquer coisa, de ir a qualquer lado. Nenhuma
tarefa era demasiado insignificante e quando as coisas se revelavam
acima do meu nível de experiência, não me esquivava. Fazia o
melhor que podia. Tem mesmo de se fazer todo o tipo de trabalho
porque, no final, a nossa credibilidade baseia-se na nossa
experiência.

Ser mulher foi uma vantagem ou desvantagem na sua carreira?

Foi sempre uma vantagem. Permitiu-me entrar em sítios onde os
homens não foram capazes. Diria, contudo, que há uma falta de
liderança feminina neste sector. Estou muito satisfeita com a minha
posição, com a forma como avancei na carreira, mas continuo a fazer
lobby em nome de todas as mulheres que trabalham ao meu lado e que
estão a chegar depois de mim. Elas precisam de ser tratadas de forma
igual, de receber o mesmo salário que os homens.

Entrevistou dezenas de líderes mundiais. Como define uma boa
liderança?

Um bom líder tem de ter a coragem de seguir as suas convicções.
Mas a liderança também significa cedências, não ir para as
negociações com o ego em jogo. O que fez de Nelson Mandela um
grande líder após ter estado quase 28 anos na prisão? Ele não
acreditava num jogo desequilibrado. Não acreditava que o outro lado
tivesse de ser esmagado para ganhar. Para negociar com o então
presidente sul-africano F.W. de Klerk, ele tinha de compreender os
brancos, tinha de ter aquela empatia, para eles não pensarem que ia
passar por cima deles. Conversei com líderes em Israel e na
Palestina que dizem que, para se fazer a paz, tem de se saber a
história do outro – o que não é o mesmo que dizer que se aceita
tudo sobre o outro, mas que se percebe que o outro também tem uma
história. A minha mãe é católica, o meu pai é muçulmano e o meu
marido é judeu. Vivi num ambiente completamente multicultural,
multiétnico e multirreligioso, em alguns dos locais mais difíceis
do mundo. Vi em primeira mão que se pode superar as diferenças. O
truque é minimizar os extremos em qualquer tipo de relação e
mantermo-nos no centro sensível.

É casada e mãe. Como é que equilibra isso com o seu trabalho?

Antes de o meu filho nascer, disse imensas coisas: que o ia levar
comigo nas viagens e vesti-lo com fraldas de tecido kevlar com um
minicolete à prova de bala – respostas superficiais, quando as
pessoas perguntavam como iria continuar a minha carreira. Pensei que
fosse mais fácil ser mãe e correspondente de guerra do que é. A
minha boa amiga Marie Colvin, do London Sunday Times, foi morta
recentemente com um colega, na Síria, e isso tem sido fonte de
grande tristeza e introspeção para mim. Questiono-me se estou viva
por ter um filho – porque, apesar de ainda considerar que estou no
pico da carreira, quando vou a esses sítios meço o que faço e o
tempo que fico com mais cuidado do que antes de ser mãe.

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