Rui Vieira. Um emigrante criativo lá fora

Rui Vieira, futuro AKQA Amsterdam
Rui Vieira, futuro AKQA Amsterdam

Rui Vieira vai ser o diretor criativo da agência digital AKQA Amsterdam.

Um mês de férias antes de começar e vários clientes à espera. Electronic Arts, Tommy Hilfiger e Heineken são alguns dos novos desafios para Rui Vieira. Depois da Fullsix Portugal e da Fullsix internacional, a AKQA Amsterdam. Pelo meio garante que o dinheiro não é tudo: “A crise nunca é desculpa para os criativos.”

Recebeu o convite para ser diretor criativo da AKQA Amsterdam e a primeira reação foi…

Finalmente posso tirar umas férias prolongadas (um mês) para descansar antes de começar um novo projeto. A segunda foi ficar feliz por fazer parte de uma agência de topo, que trabalha clientes de topo numa cidade fantástica.

Ir trabalhar para uma das agências digitais mais criativas a nível mundial deve ser um pouco como sentir-se o Mourinho da criatividade digital, ou não?

Isso é muito exagerado. Porque nem vou receber o salário que ele recebe. [risos]. Trabalhar para a AKQA [agência digital de 2011] é um grande desafio. Esse tipo de comparação é muito portuguesa, mas, se tivesse de o fazer, diria que, se Mourinho é uma pessoa ambiciosa, que não se acomoda, que quer sempre fazer o melhor, ser o melhor no que faz… somos parecidos.

Imagino que a oportunidade de trabalhar com Nick
Bailey, diretor criativo executivo da agência e considerado uma das dez mentes mais criativas do digital pela revista Creativy,
tenha pesado na decisão.

Claro que sim. O Nick é uma referência e, pela primeira
vez, vou fazer dupla com alguém. Nunca trabalhei em dupla sabes. Em Portugal no
digital não temos esse tipo de organização. Noutros países já se trabalha em
tripla…

Com Nick Bailey foi júri do Eurobest, em Lisboa. Foi aí que surgiu o convite?

Fizemos parte do júri, mas estavam lá outros
também. Este tipo de convites não acontecem nestes momentos. Por isso posso
dizer que não aconteceu no Eurobest. Sem revelar muito como foi o processo,
posso dizer que o que aconteceu foi uma conjugação de factores em que se
chegou à conclusão que as nossas ideias e objetivos cruzavam-se. Foi um processo
muito calmo e bastante consciente.

Desde dezembro era o diretor criativo internacional
da Fullsix. Antes já tinha assegurado a direção criativa da Fullsix Nova
Iorque. De que modo vai levar esta experiência para a nova agência?

Não sei. São situações diferentes. Até porque são
duas agências com processos e objetivos diferente. Nunca penso muito nestas
coisas, o que sei é que vou partilhar o que sei e defendo e ao mesmo tempo
aprender e evoluir.

A AKQA é conhecida pelo seu trabalho inovador para marcas como a Nike ou a Heineken. Imagino que o peso nos ombros seja enorme.

É o mesmo como se fosse para uma marca portuguesa. Não vejo as coisas dessa maneira, vejo uma oportunidade de trabalhar marcas globais, de pensar global e não local. É motivador e bastante leve até [risos].

Há uma forma criativa portuguesa de abordar o digital?

Não acredito que haja, mas, se existe, está errada. Em Portugal, fazemos coisas bonitas no digital, mas muito poucas são boas ideias ou inovadoras. Normalmente, as boas ideias são aquelas em que o cliente tinha pouco dinheiro e deu “liberdade” à agência para fazer o que queria, pois o risco era menor. O digital é muito pouco premiado internacionalmente e os que são premiados, a grande maioria, são quase pro bono. Nem conseguimos colocar júris no digital em Cannes.

O mercado português ainda é interessante ou a crise está a acabar com a inspiração?

É interessante para a sua dimensão. Trabalho no digital há 12 anos e sempre houve crise neste sector. Nunca tivemos cem mil euros para fazer o que for, enquanto a publicidade usa esse orçamento (ou mais) para um único filme de 30 segundos… Não tem lógica. A crise é um argumento para as marcas, mas não pode ser desculpa para os criativos.

Fala-se no desemprego jovem e na emigração como uma possibilidade de futuro. É algo que recomenda? Ou em Portugal o digital ainda tem espaço e capacidade financeira para absorver jovens criativos?

Teria que ver caso a caso, mas Portugal tem capacidade financeira para absorver jovens talentos, até porque nunca os pagou bem. Muitos estagiam de borla, por isso acho que não é por aí.

As marcas estão mesmo a acordar para o digital, em Portugal, ou quando se fala de digital ainda se pensa em criar um website?

Portugal está a acordar para essa realidade, mas já o devia ter feito há muito. O mercado português é muito fechado, característica comum dos mercados locais, olham pouco para fora. Muitas marcas portuguesas fazem campanhas para elas próprias e não para o consumidor. Hoje já não se pensa em criar um website, mas ter uma página no Facebook… Claro que existem marcas que pensam diferente e estão no bom caminho.

Criou o festival OFFF, realizou curtas para a LG.
Estes projetos – ou outros paralelos – ao ‘trabalho oficial’ vão ficar em
standby ou pensa criar um OFF versão Amesterdão?

Eu não criei o OFFF, co-organizei e produzi as
edições de 2008 e 2009 em Portugal. Só realizei uma curta para a LG. Estes exercícios paralelos têm a ver com a minha forma de estar e
pela paixão que tenho pela imagem, quer estática quer em movimento. Por isso,
também faço fotografia e tenho um projeto de colaboração chamado Kind and Naked
onde temos feito uns filmes e editoriais mais experimentais. Estas disciplinas completam-me e são importantes para o
meu dia-a-dia. Por isso nunca irei parar de fotografar ou filmar. Produzir um
evento como o OFFF requer outra disponibilidade.Na altura trouxe para Portugal
porque não temos nada do género cá e como ninguém o fazia, fiz eu (com a ajuda
da Cristina Reis). Foi da maiores recompensas que tive na vida, assistir a uma
sala lotada com quase 4 mil pessoas (maior parte estudante) a assistir a uma conferência do Stefan
Sagmeister em Portugal.

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