Produção cinematográfica

Seraph Films. Como os estúdios indie driblam Hollywood

A equipa da Seraph Films no set de "To Kristen with love"
A equipa da Seraph Films no set de "To Kristen with love"

Gene Blalock, diretor da Seraph Films, explica como a experiência dos estúdios independentes é diferente dos grandes de Hollywood – e da indústria da música

Em 2016, os estúdios de cinema norte-americanos registaram um recorde de receitas, 11,3 mil milhões de dólares segundo as últimas projeções da comScore. Mas há pouca gente a celebrar. Olhando para os números líquidos, os lucros caíram 15%. E olhando para a distribuição dos lucros, a Disney engoliu mais de metade. É um recorde, sim, mas com apenas um vencedor – o estúdio que apostou nos remakes, sequelas e grandes produções com super-heróis. O resto de Hollywood anda, literalmente, aos papéis.
Não é apenas porque os bilhetes de cinema estão mais caros nem porque a pirataria de filmes continua de vento em popa na internet. Os modelos de distribuição e consumo estão a mudar, com a disponibilização dos títulos cada vez mais cedo nas plataformas de streaming. A internet mudou tudo para os grandes estúdios e estes ainda não perceberam o que fazer com isso. O curioso é que sucedeu exatamente o oposto para os estúdios independentes.
“A maioria dos nossos fãs encontra-nos via YouTube ou crowdfunding, porque fizemos algumas campanhas no KickStarter”, explica ao Dinheiro Vivo Gene Blalock, fundador e diretor do estúdio indie Seraph Films, em Los Angeles. Fundado há sete anos, o estúdio tem-se notabilizado no género de terror, com quase duas dezenas de curtas realizadas. Tem também documentários, séries web e vídeos musicais. Este ano, irá filmar a primeira longa-metragem. Nada disto seria possível sem internet e sem a popularização de câmaras digitais e smartphones, que levou a uma incrível redução dos preços dos equipamentos.
“Não fazemos as coisas como no mainstream de Hollywood. A Seraph começou como uma comunidade de pessoas que se voluntariavam porque gostavam do projeto”, explica o diretor. Blalock estudou realização em Chicago, mas a sua carreira estava na música, com a banda alternativa The Faded. O problema, diz, é que se tornou impossível ganhar a vida como músico. Quando o contrato com a editora acabou, decidiu criar a Seraph Films. E descobriu que os males de uma indústria podem ser os benefícios de outra.
“Fazemos o filme e pomos de imediato no YouTube”, estabelece. Raramente andam com curtas no circuito dos festivais, porque obrigam a um grande investimento de tempo e dinheiro, embora por vezes seja necessário. “Um dos nossos filmes tem quase meio milhão de visualizações. Qual era a probabilidade de tanta gente o ver na rota dos festivais? Nenhuma. É bom ganhar prémios, mas prefiro muito mais receber feedback imediato. É muito útil para um realizador.”
O modelo de negócio baseia-se em publicidade. A Seraph integra a rede Fullscreen e monetiza a popularidade no YouTube com a colocação de anúncios, aqueles que aparecem antes do início do filme. Também recebem pagamentos do próprio YouTube, conforme o número de visualizações.
A longa-metragem, que será filmada no final deste mês, tem um travo a David Lynch e terá um modelo de distribuição independente. Aqui sim, o estúdio planeia andar nos festivais para tentar ganhar notoriedade, encaixar alguns prémios e talvez um distribuidor. Se tal não suceder, a empresa irá virar-se para as plataformas de streaming, como Hulu, Amazon e iTunes. “Estas plataformas permitem aos realizadores independentes fazerem isto, algo que antes não existia. É preciso que aceitem o filme e cobram uma percentagem, mas põe-no em todas estas grandes redes.”
O orçamento será bem maior que o costume – a primeira curta da Seraph custou 250 dólares – mas Blalock espera fechar as rondas com investidores privados em breve. Ainda assim, o seu objetivo não é tornar-se num grande estúdio. “Não gosto dessa indústria em que tudo se resume aos números. É por isso que há tantos remakes, eles veem que funciona e fazem uma e outra vez”, nota. “Quero que se mantenha um estúdio independente que consegue distribuição alargada, à semelhança do que George Lucas fez com a Lucasfilm.”
Em 2017, a Seraph tem três curtas prontas a sair, além de “Indictment”, que aborda as tensões raciais vividas na América no último ano e meio num filme que é meio terror, meio mensagem. “Queremos continuar a fazer os filmes que desejamos sem ter um grande estúdio a dizer que é preciso mudar isto ou não se pode fazer aquilo”, indica Blalock.
A comunidade indie em Los Angeles também é bastante diferente do resto: apoiam-se uns aos outros. A Seraph colabora regularmente com a We Are Indie Horror e tem uma parceria com a Nvisionate Studios. “Muitas das equipas estão interligadas. É uma comunidade que dá muito apoio mútuo.”
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