Séries e filmes há muitos, genéricos é com o Filipe

Filipe Carvalho
Filipe Carvalho

Um e-mail mudou a vida de Filipe Carvalho. O motion designer fartou--se de sonhar com os genéricos de filmes e séries feitos por outros. "Decidi arriscar e enviar um e-mail para um estúdio, a Digital Kitchen. Eles responderam", conta Filipe Carvalho.

O “sim” do estúdio responsável pelo genérico da série Dexter foi a chama que deu combustível à carreira internacional de Filipe Carvalho. Desde 2009 nunca mais parou. Thor: O Mundo das Trevas, O Fantástico Homem-Aranha 2 ou as séries Guerra dos Tronos e The Killing são algumas das obras cujos genéricos assina.

Tudo a partir de Lisboa. E com muita ginástica à mistura para conciliar o trabalho durante o dia na produtora Até ao Fim do Mundo com a direção de arte e conceitos visuais que desenvolve para produtoras como Blur (Thor e O Incrível Homem-Aranha), Sarofsky (The Killing, Letfovers ou The Divide) ou Big Star (Bates Motel). Não precisa de estar em Los Angeles ou Nova Iorque, cidades que acolhem a maioria das produtoras, para, por exemplo, fazer o rebrand da Fox ou do canal TNT. Com o e-mail e o Skype, “a presença é basicamente a mesma como estar num escritório em equipa”, garante. Exige é horários de vampiro. “Trabalho sempre à noite, por vezes, até às cinco da manhã. Todos os dias, todas as semanas”, conta. “Isso cria muita tensão e cansaço acumulado. Para além de sobrar muito pouco tempo para o resto.”

Saiba mais sobre o trabalho de Filipe Carvalho aqui

Sacrifícios necessários para quem quer trabalhar “na primeira Liga” do motion graphics: os Estados Unidos. “Portugal está muito longe da quantidade e qualidade de trabalho que se faz por lá, por razões algumas mais óbvias do que outras”, diz. A começar pela dimensão do país. “A audiência cá é muito pequena, somos só 10 milhões, o que não permite muito investimento. Não temos indústria de cinema. Temos pouca experiência, também por isso”, diz. Ou seja, “pouca audiência, pouco apoio e orçamentos baixos são uma combinação letal para o desenvolvimento da qualidade em televisão e cinema. Fazemos coisas muito boas sem dúvida, mas não em quantidade suficiente que permita a indústria crescer”.

É um autodidata. Começou aos 18 anos, mal terminou o 12.oºano, a fazer web design. A passagem para o motion design e para o mundo do cinema e séries de televisão começou ainda estava na Imagefactory. “Em 2006 sugeri começarmos a fazer vídeos corporativos para os clientes que já tínhamos”, lembra. “Aproveitei esse espaço para explorar e aprender o máximo sobre motion design e cinema”, conta. Quatro anos depois decidiu tentar o mercado norte-americano como freelancer. Enviou o tal e-mail à Digital Kitchen e, na volta do correio, veio um convite para integrar a equipa que estava a desenvolver um trabalho para a Microsoft.

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Séries e filmes há muitos, genéricos é com o Filipe

Colaborar com a produtora que criou os genéricos de True Blood, Sete Palmos de Terra ou Big Love “validou” o trabalho de Filipe Carvalho e, a partir daí, tem colaborado regularmente com outras produtoras internacionais. “Muito mais em TV do que no cinema. As séries americanas neste momento estão numa nova era dourada e existe muito trabalho.” No cinema “é muito filmes de super-heróis, o que não é muito o meu estilo”. Apesar de já ter trabalhado em genéricos de filmes da Marvel, Filipe Carvalho admite que o chamam mais pelo seu “look específico”, um estilo que mistura “fotografia, tipografia e cinema”. É muito minimalista: “Less is more”, defende.

Motion designers como Patrick Clair (True Detective), Kyle Cooper (The Walking Dead), Danny Yount (Homem de Ferro) ou Neil Kellerhouse (Em Parte Incerta) são referência, mas não a única fonte de inspiração. “Hoje em dia já não olho tanto para o motion design para inspiração, mas mais para o cinema, obras de arte, instalações artísticas, fotografia ou arquitetura.”

Há que “refrescar” o olhar para “ter ideias e desenvolve-las visualmente em frames”. Muitas vezes em poucos dias. Tudo começa com um briefing (mais aberto ou fechado). Depois tem acesso ao filme ou aos primeiros episódios de uma série, bem como ao guião. A partir dai começa a pressão, com apenas alguns dias para ter ideias e transformá-las num conceito visual. “Três a quatro dias é o tempo normal para a maioria dos projetos”, explica. Mas, para o genérico de Thor, teve uma semana para desenvolver dois conceitos diferentes. “Guerra dos Tronos foi um projeto muito simples: apenas três dias.” O mais complexo até ao momento foi o rebrand do Travel Channel. Entusiasmou-se e apresentou três conceitos diferentes ao estúdio Imaginary Forces. Gostaram dos três. “Foi ótimo, mas depois tive de desenvolver paralelamente todas as propostas, com alterações e mudanças de direção por parte do cliente”, recorda.

Sonha realizar o seu próprio filme. Já criou um genérico para uma longa-metragem fictícia. E como imaginação ainda não paga salários, convocou para o The Architect atores como Javier Bardem e Kevin Spacey, para a produção George Clooney e Steven Soderbergh, Gus van Sant para argumentista e David Fincher para a realização. Enviou para a Elastic, produtora que já editou filmes como A Rede Social e Os Homens que Odeiam as Mulheres, de David Fincher. Angus Wall, o produtor, gostou mas deixou um aviso humorado: dificilmente Filipe Carvalho ia conseguir reunir tanta gente num único filme. “O The Architect nasceu para me posicionar como title designer e entrar no mercado de Hollywood. E funcionou”, diz Filipe Carvalho. “Não quer dizer que não possa ser desenvolvido para filme, mas há outros passos ainda a tomar.”

Para já, está com uma curta-metragem em mãos. “O pouco tempo que me resta é muitas vezes dedicado a avançar no filme”, confessa. “Estou à procura de apoios financeiros, tanto em Portugal como nos EUA. Existem muitos contactos, muito interesse.” E quem sabe não consegue convencer o realizador de Sete Pecados Mortais a envolver-se no projeto. “Trabalho bastante com a equipa de David Fincher, mas nunca trabalhei para um filme dele. Talvez em breve!”

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