The Walking Dead. Zombies? Apenas melancia e esparguete

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Ao terceiro dia de estágio na Paramount Studios, em Los Angeles, Rui Miranda serviu um café a Steven Spielberg. E para o realizador de Indiana Jones tinha de ser um café especial. Lá descobriu um café colombiano numa produção ao lado de Transformers 1, onde estagiava como sound utility.

“Fui lá a tremer com uma bandeja, a pensar que ia desmaiar a servir o café a Steven Spielberg. Mas ele gostou”, conta Rui Miranda. Dois minutos de conversa. O suficiente para revelar a Spielberg, produtor executivo do filme baseado nas personagens da Hasbro, o sonho de seguir uma carreira como sound designer em grande produções em Hollywood. Uma semana depois o telefone toca. Era dos estúdios da Original Productions, da série Ice Road Truckers. O dono da produtora de Los Angeles era amigo de Spielberg, que tinha sugerido o seu nome.

Cerca de dez anos depois, Rui Miranda é sound designer de The Walking Dead: o homem responsável pelos sons dos zombies que atacam as estrelas da série que, a 12 de outubro, estreia em Portugal na Fox, a sexta temporada. Milhões em todo o mundo ouvem os sons dos zombies criados por si. Uma realidade muito distante da que viveu em Portugal, em que trabalhava como técnico de instalações da Portugal Telecom e tocava bateria nas horas vagas.

Chegou ao The Walking Dead também por causa de um café. Melhor, de um amigo, que conheceu na Original Productions, que o convidou, enquanto tomavam um café em Atlanta, para ser seu assistente durante as filmagens em Senoia, Geórgia. Chegou na segunda temporada, como sound utility. “Quando decidi aceitar o convite fui logo ver qual era o estúdio que estava a fazer a pós-produção do som: o Crawford Media Services em Atlanta”, lembra. “Ofereci-me para fazer um estágio durante umas semanas sem receber, pois sabia que estavam a precisar de um sound designer”, lembra. A estratégia resultou. A partir da terceira temporada tudo o que era som que saía da boca dos zombies ou sons de ossos a estalar é da autoria de Rui Miranda e de outros dois sound designers dos estúdios Crawford.

Fazer medo com melancia e cenouras

E quando se diz todos os sons, é mesmo todos os sons. “Em The Walking Dead o som é todo feito em estúdio, exceto o diálogo. Os sons de ambiente dos espaços, dos zombies… Tudo isso vou ter de criar em estúdio”, explica Rui Miranda. “Das duas uma: ou tiramos um tempo em que a produção da série não está a usar os cenários e gravamos nós o som ou procuramos locais onde podemos fazer isso.”

Sons tão simples como portas a abrir ou janelas a fechar têm de ser gravados para mais tarde serem introduzidos em estúdio. Mas também o dos zombies. E aqui a imaginação não tem limites. Tudo serve, até esparguete e melancias. “Se abrir uma melancia com as mãos, parece que é o corpo que se está a estilhaçar. Um dia coloquei um aluno a comer esparguete e melancia ao mesmo tempo para replicar um determinado som”, revela o sound designer. Ossos a partir? “Umas vezes usamos cenouras outras cenouras com iogurte para dar um som “mais líquido”, descreve Rui Miranda.

Conhecimento que, certamente, partilha com os seus alunos na Full Sail University, na Florida. O sound designer começou a testar as ferramentas para a criação de sons anos antes, quando entrou na indústria de trailers. Estreou-se nos estúdios da Warner Bros, com o trailer para 2012. O filme catástrofe, que chegou às salas de cinema em 2009, colocou desafios especiais à equipa. O realizador Roland Emmerich queria que o som do trailer tivesse a sua própria identidade. “Éramos para ter levado uma semana a fazer o trailer; levámos quase cinco meses. O realizador não queria nenhum dos sons do filme”, diz. Houve cenas particularmente difíceis. Uma das imagens que marcaram 2012 é a de uma onda gigantesca que se abate sobre Washington D.C. arrastando um porta-aviões. “Fomos para o Pacífico gravar sons de ondas e de mar, mas o Roland Emmerich não gostava de nada”, lembra. “Acabámos por fazer o som com garrafas de soda. Comprámos uma palete e dez pessoas abriram as garrafas em simultâneo. Gravámos e combinámos com efeitos, foi assim que foi feito o som do mar.”

Nunca mais apanhou um caso assim. Depois de 2012, o trailer do filme Homem de Ferro 3 foi quase um passeio no parque. Acabou recentemente o trailer para a segunda parte de Os Jogos da Fome – Mockingjay. “Estou na indústria de trailer porque trabalho diretamente com a produção do filme. Não apareço nos créditos, mas não faço sound design para estar nos créditos, mas porque é uma arte. Adoro estar na mesa a discutir sons.”

Uma técnica transformada em arte por mestres como Walter Murch (Apocalipse Now) ou Ben Burtt que criou, por exemplo, o icónico som do sabre de luz de Guerra das Estrelas. “Para seres um sound designer tens de experimentar. Há muita tecnologia, tens de saber qual a que melhor se adequa”, diz. “Muitas vezes à noite estou no estúdio a experimentar e a gravar sons”, adianta. Quando em Orlando, onde vive com a mulher e os dois filhos, há trovoada ninguém estranha que tenha na rua equipamento de gravação e de captação de som.

É habitual ter consigo um pequeno gravador. Enquanto esteve em Lisboa, que visitou para dar uma masterclass de Som para Imagem na escola Restart, do qual vai ser diretor de Inovação, gravou o mais que pôde. Desde o som estridente das carruagens de metro a chegar às estações, ao do vento em Cabo Ruivo ou em Sagres.

“Desde que cá estou já tenho 10 terabytes de sons gravados”, confidencia. O início de uma livraria que está a criar, Sounds of Portugal. Será que ainda vamos ouvir o som do vento de Sagres em alguma produção ou num dos videojogos para os quais Rui Miranda está a criar o som, tal com fez em Battlefield 4, jogo da Electronic Arts e da Digital Illusion em que foi responsável pelos sons de todas as armas? “É possível, não vai é aparecer nos créditos”, diz humorado.

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