Comércio

Tordesilhas faz 525 anos. “Tratado de maior impacto mundial, favoreceu Portugal”

tratado tordesilhas portugal

O Tratado de Tordesilhas cumpre hoje 525 anos. Historiador José Manuel Garcia explica como deu a Portugal a liderança no comércio durante um século.

Foi a 7 de junho de 1494, na povoação castelhana de Tordesilhas, que foi assinado o Tratado com esse mesmo nome entre as Coroas ibéricas. Nele dividiam, entre si, o mundo conhecido e aquele que estava ainda por descobrir. Foi um momento chave da diplomacia ultramarina na Europa que aconteceu pouco tempo depois de Cristóvão Colombo descobrir oficialmente o continente americano – há historiadores que defendem que o navegador poderia ser um espião ao serviço de D. João II e da coroa portuguesa, precisamente para convencer os reis Católicos a assinaram o tratado.

O Tratado de Tordesilhas, como nos explica o historiador e autor de vários livros sobre a época dos Descobrimentos, José Manuel Garcia, “foi o momento mais importante a nível de comércio para Portugal e para o mundo”.

“Como consequência da assinatura desse tratado, Portugal não só conseguiu o acesso ao Brasil – que só viria a ser oficialmente descoberto uns anos mais tarde (1500) – como também reservou para si a área do globo com mais riquezas para trocar, do Brasil até à China (na verdade vai até às Molucas, que Fernão de Magalhães tanto buscava)”. O historiador que é autor de livros com personalidades do tempo dos Descobrimentos como protagonistas, de Afonso de Albuquerque, passando por D. João II, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, admite que, na altura, os espanhóis ficaram com a pior parte do globo a nível de comércio.

“O Tratado de Tordesilhas foi aquele que teve maior impacto mundial, inclusive até ao dia de hoje, nunca houve nada assim tão global e permitiu a Portugal ter o exclusivo da zona mais desejada, das especiarias, durante 100 anos”. Essa conquista está relacionada com o “avançado conhecimento dos mares e do Atlântico por parte dos portugueses, bem superior aquele que os castelhanos tinham”.

Os originais de ambos os tratados estão conservados no Arquivo General de Índias na Espanha e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Portugal,

Os originais de ambos os tratados estão conservados no Arquivo General de Índias na Espanha e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Portugal,

A sua assinatura foi feita após a contestação portuguesa às pretensões castelhanas que surgiram com a viagem de Cristóvão Colombo um ano e meio antes ao chamado Novo Mundo. O tratado definia, assim, como linha de demarcação o meridiano 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão no arquipélago de Cabo Verde, o que permitia já incluir a área do Brasil (ainda não oficialmente descoberta nessa altura). Os territórios a leste deste meridiano pertenceriam a Portugal e os territórios a oeste, à Espanha. A ratificação do tratado só foi feita por Espanha a 2 de julho de 1494 e por Portugal uns meses depois, a 5 de setembro. Vasco da Gama chegou à desejada Índia (onde estavam as especiarias que viriam a mudar o comércio e a gastronomia na Europa de forma mais profunda) contornando África quatro anos depois.

Só mais tarde, em pleno século XVI, é que os espanhóis começaram a perceber que a sua parte da América “era mais do que as Antilhas” e “quando entram no México e no Peru começam a ter alguns ganhos relacionados com a descoberta do ouro e a prata”. No entanto, “para o que se conhecia do mundo na altura, ficaram a perder e muito com o tratado”.

Um século depois da assinatura do famoso tratado, José Manuel Garcia explica-nos que o poderio português começou a cair, também relacionado com a perda de independência em 1580 para os castelhanos “e com a entrada em força dos holandeses e dos ingleses na zona portuguesa”.

Sobre o mesmo tema, João Paulo Oliveira e Costa, catedrático de História na Universidade Nova de Lisboa e diretor do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar, explicou o tratado em alguns tópicos ao DN que reproduzimos de seguida:

Qual a importância do tratado de Tordesilhas?

Tem a maior importância, porque representa a evolução do processo de expansão europeia levada a cabo por Portugal e Castela. É a primeira vez na história que duas potências partilham o mundo às cegas. Para Portugal, representa a capacidade de definir uma área de influência em paz com Castela e dentro do que eram os objetivos estratégicos do rei D. João II.

Porque é que Portugal quis colocar a linha divisória do tratado o mais possível a ocidente?

De certeza absoluta que o rei e os seus conselheiros já conheciam o sistema de ventos do hemisfério sul e que tinham de navegar para sudoeste para ter ventos favoráveis. Se sabiam da existência de terras não é relevante, mas de certeza que não saberiam de um continente com a dimensão das Américas.

Só com Fernão de Magalhães é que a Espanha ficou a conhecer todos os seus territórios. Porquê?

Castela vai explorando passo a passo toda essa área que lhe cabia. De facto, só com a viagem de Magalhães é que conseguem completar essa descoberta, que começou com Colombo… foi Magalhães que lhes deu a conhecer a linha exata da costa americana do Atlântico.

Portugal negoceia então numa posição de vantagem, face ao conhecimento que já tinha…

Claro. Os portugueses negoceiam conhecendo bem o Atlântico e os castelhanos só com a informação recolhida por Colombo na primeira viagem. Os portugueses tinham 60 anos de experiência e Castela dois quando assinam o tratado.

Quando é que Portugal e Espanha perderam a capacidade de obrigar outras potências a respeitarem o tratado?

Na verdade, nunca conseguiram totalmente. Na América do Norte, os castelhanos nunca controlaram os franceses no Quebec e os ingleses mais a sul. E depois da derrota da Invencível Armada em 1588, que tinha navios espanhóis e portugueses, desvanece-se a capacidade de bloquear o Atlântico e ir à caça dos corsários inimigos.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
(Gustavo Bom / Global Imagens )

Englobamento agrava IRS para rendimentos ‘protegidos’ pelo mínimo de existência

(Gustavo Bom / Global Imagens )

Englobamento agrava IRS para rendimentos ‘protegidos’ pelo mínimo de existência

Salvador de Mello
( Álvaro Isidoro / Global Imagens )

Saúde não pode andar “ao sabor de ventos políticos”

Outros conteúdos GMG
Tordesilhas faz 525 anos. “Tratado de maior impacto mundial, favoreceu Portugal”