“Uma tatuagem é um bocado dos artistas que fica na pessoa para sempre”

Carlos Amorim, tatuador e organizador da InkVibrations
Bad Bones Tattoo e de Carlos Amorim, tatuador, proprietário do estúdio Família Amorim e um dos organizadores (outro é Theo Pedrada, da Pedrada Tattoo) da InkVibrations, que decorre desta sexta-feira a domingo, na Sala Tejo do Meo Arena, em Lisboa. Ler mais aqui."> Carlos Amorim, tatuador e organizador da InkVibrations

Há cada vez mais portugueses a aderir às tatuagens. Esta é a convicção de Natacha, relações públicas da Bad Bones Tattoo e de Carlos Amorim, tatuador, proprietário do estúdio Família Amorim e um dos organizadores (outro é Theo Pedrada, da Pedrada Tattoo) da InkVibrations, que decorre desta sexta-feira a domingo, na Sala Tejo do Meo Arena, em Lisboa. Ler mais aqui.

Há cerca de 20 anos no Bairro Alto, em Lisboa, Natacha confirma que os “portugueses estão mais virados para as tatuagens porque viajam mais, assimilam mais informação e novos costumes, sobretudo vindos dos EUA – é o american dream, que a mim não me seduz.”

Crua na análise do meio, a relações pública do estúdio onde é estrela o marido e tatuador Fontinha, fala também do contributo dos “programas de televisão sobre o tema, que vieram influenciar muita gente.” É o caso de “Miami Ink, que abriu a mente dos portugueses, no sentido deles perceberem que os tatuadores são pessoas normais, têm filhos, casas, também choram, também têm problemas de saúde e não são fora da lei.”

No entanto, Natacha alerta que houve uma grande exploração comercial do tema, e explifica: “uma rosa que podia custar 100 euros, passa a custar 300”. Para Natacha, o importante era ter sido comunicada informação sobre higiene, cuidados, forma de atendimento.

“Aquele palerma [Ami James], que esteve cá no Rock In Rio [em 2014] não fez nada”, critica, apontando: “as pessoas ficaram muito loucas com ele, mas isso não é arte, nem tatuagem, é só business”, reforça, apesar de admitir que se inspirou no horário de funcionamento dos estúdios norte-americanos. Abre um pouco mais tarde para fechar às 10 da noite.

Situada no n.º 85, da rua do Norte, no Bairro Alto, o estúdio vai resistindo ao encerramento de lojas tradicionais vizinhas que davam colorido ao bairro. Natacha queixa-se desta descaraterização da zona e das rendas altas, que afastaram quem podia querer voltar. “Para pagar uma renda aqui, é preciso trabalhar muito, além dos materiais que são muito caros”, diz.

Em relação à concorrência, Natacha afirma que não tem. “Sair para fora, como nós fomos, ajuda as pessoas a ter a cabeça mais aberta e trabalhar com grandes artistas faz-nos sentir que não somos pequeninos, ainda que ache que pequenino depende da mentalidade de quem quer ser pequenino.”

Quanto à nova geração de tatuadores, na casa dos 20 e poucos anos, Natacha não tem papas na língua: “São péssimos”. E justifica: “Como não sabem fazer mais nada, vão para tatuadores, não sabem desenhar.” É preciso vocação, sim, mas aprender também.”Acham que sabem tudo, não querem explicações, perguntar é uma vergonha para eles. E depois, daí a um ano vão cortar cabelos. Nesta profissão, pensar que já sabemos tudo é estarmos acabados. É preciso ir testando novas técnicas e viajar ajuda”, insiste.

Em relação aos preços que praticam, Natacha não tem dúvidas: “é uma geração que pensa que tatuar é uma forma de fazer dinheiro fácil. E não é”, frisa prontamente, apontando os custos: tintas, agulhas, lixo, IVA, telefone, Internet, tudo… “Há meses que são melhores, meses que são piores. É ir gerindo, a altura do Natal é péssima”, diz, confessando ainda hoje desconhecer a razão.

“Depois há pessoas que acham cara uma tatuagem de 50 euros”, critica indignada. “Um perfume custa 80 euros e gasta-se, uma tatuagem não só dura a vida inteira, como é um bocado de nós, artistas, que fica na pessoa para sempre”, defende Natacha.

Por isso, orgulha-se de escolher o seu cliente, sem descriminar ninguém. “Escolho o meu cliente pelo meu trabalho, pela forma de atender, pelo que ofereço. E o cliente que me procura, sabe porque o faz. Nós aqui não vamos ao catálogo buscar as coisas, a pessoa diz-nos o que quer e o artista vai fazer na hora”.

E quando recebem alguém, que “muitas vezes chega às escuras, temos de ajudar, pois vêm preocupadas, com medo de perguntar pelas regras de higiene, pelos direitos que têm”, diz.

E no estúdio Bad Bones Tatoo é tudo explicado. Já perguntar é que é mais complicado. Como por exemplo, se a pessoa tem doenças. “A lei não permite que se pergunte se a pessoa é portadora de HIV, se é hepilética, tem esclerose múltipla ou hepatite. As pessoas é que nos dizem voluntariamente”, refere Natacha.

Mas o estúdio vive também dos clientes que o acompanham há muitos anos. “E durante esse tempo percebemos que o português deixou de ter dinheiro, até mesmo os estangeiros, já discutem preços”, diz Natacha. Segundo ela há pessoas que vêm passar o fim-de-semana a Lisboa e aproveitam para se tatuar.

Numa época de maior austeridade até a participação nas convenções tem de ser ponderada. “Antes íamos a duas ou três por mês – Londres, Estolcomo, Itália, Dinamarca ou EUA”, lembra. Agora vai às mais importantes, pois é um investimento que tem de compensar.

2

Uma dessa convenções acontece este fim-de-semana no Meo Arena, a InkVibrations. Um dos seu organizadores, o tatuador Carlos Amorim confirma a razão dos portugueses estarem a pintar o corpo. “É algo que sempre existiu em Portugal, só que agora é mais divulgado e já não é visto como algo marginal”, explica.

Defendendo que este é um negócio como outro qualquer, o tatuador aponta preços indicativos: mínimo é 60 euros, a parte mais complexa depende de tatuador para tatuador. E das sessões necessárias. Uma tatuagem mais complexa pode ira aos mil euros.

E quem faz tatuagens? “Todos os tipos de pessoas e extractos sociais, das mais variadas profissões”, responde o tatuador, acrescentando que “hoje em dia os clientes já são mais exigentes, já procuram os tatuadores pelo seu tipo especifico de estilo de tatuagens e características.”

Ver também: Sabe como atuam as agulhas da tatuagem na sua pele?

E se a moda passa, nascerá um novo negócio – por exemplo, de clínicas de remoção de tatuagens? “Pensamos que não”, pois “se nos apercebermos que a pessoa que está a fazer a tatuagem apresenta indecisão, aconselhamos a não fazer”, diz Amorim, convicto de que “quem faz uma tatuagem não pensa em removê-la.”

Ver também: Como é ter tatuagens quando for velho? Muito fixe

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje

Página inicial

Página inicial

REUTERS/Stephen Lam/File Photo

Moedas como Libra do Facebook podem diminuir poder dos bancos centrais

Outros conteúdos GMG
“Uma tatuagem é um bocado dos artistas que fica na pessoa para sempre”