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UTAD pronta a declarar guerra ao insucesso escolar dos bolseiros

Na génese do abandono e insucesso escolar não estão só problemas financeiros. A UTAD vai descobrir as razões e combatê-las com um programa de integração inovador. FOTO: ADELINO MEIRELES / GI
Na génese do abandono e insucesso escolar não estão só problemas financeiros. A UTAD vai descobrir as razões e combatê-las com um programa de integração inovador. FOTO: ADELINO MEIRELES / GI

Universidade nortenha tem projeto-piloto inédito para reduzir o abandono e insucesso dos seus alunos com bolsas 5% por ano, já a partir de 2018/19

São jovens, juntam às dificuldades económicas outras pessoais ou familiares e, muitas vezes, até o choque da deslocalização, pelo que o curso começa a correr mal logo no 1.º ano. Este é um padrão que o Observatório do Abandono Escolar da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) já conseguiu detetar. É para combater este quadro que esta instituição nortenha vai pôr a funcionar, já a partir do próximo ano letivo, um projeto inédito de integração e acompanhamento do aluno bolseiro. A UTAD serve, assim, de “tubo de ensaio” para um programa de inovação social que, se for bem-sucedido, poderá tornar-se uma política de educação a nível nacional, creem os responsáveis.

“Este projeto denomina-se Programa Integrado de Desenvolvimento das Competências do Aluno e pretende promover o sucesso educativo dos estudantes bolseiros da ação social na UTAD”, explicou Elsa Justino, docente da universidade e administradora dos respetivos Serviços de Ação Social. Segundo a responsável, o objetivo é combater o “chumbo” ou a desistência dos estudantes economicamente carenciados que conseguiram obter bolsas de estudo.

Explicando um pouco melhor, Elsa Justino acrescenta que a UTAD vai “testar uma metodologia de trabalho que, se for bem-sucedida, poderá ter impacto na política pública”. Isto é, se as metas definidas forem atingidas, a Secretaria-Geral da Educação e Ciência poderá mesmo “criar outros programas de política pública direcionados para esta população específica”, acredita a responsável.

E quais são essas metas? “Temos como objetivo combater em 5% por ano o insucesso e o abandono escolar nesta população, relativamente ao ano de referência que é o ano passado”, elucidou Elsa Justino. Para as cumprir, a docente considera que é imperativo fazer um diagnóstico precoce, de forma a descobrir as situações de risco de abandono ou insucesso, e depois fazer um acompanhamento mais proativo do aluno.

É aqui que entra a vertente inovadora do programa, afirma. Referindo o Observatório do Abandono Escolar que existe na UTAD há 3 anos, a responsável pelos serviços sociais desta universidade conta que até agora o que se fazia era recolher dados, organizá-los estatisticamente e proceder a inquéritos telefónicos ao aluno para tentar perceber as razões do risco de abandono ou dos maus resultados.

Com o novo programa, a UTAD propõe-se a fazer, juntamente com os seus parceiros – neste caso a Cáritas de Vila Real – um acompanhamento do aluno no terreno. “Nós já temos um diagnóstico bastante fino de todas essas situações e, portanto, o que nos propomos a fazer – e que não fazíamos, porque só recorríamos a entrevistas telefónicas – é uma visita à família e produzir um diagnóstico social”, explicou Elsa Justino. E a seguir, acrescentou, “a UTAD vai ter, internamente, um programa de apoio tutorial, um programa de soft skills (portanto, de aprendizagem de competências pessoais) que permitirá ao aluno ter ferramentas para combater o abandono escolar ou o insucesso”.

Este é também o ponto do programa mais elogiado pelo reitor da UTAD. “Trata-se de um projeto que marca a diferença pelo caráter inovador”, afirmou António Fontainhas Fernandes. É que, além de “detetar precocemente o aluno em risco de abandono ou insucesso, depois, conjuntamente com a Cáritas, vai ver qual é o contexto familiar ou tentar perceber as razões por trás disso, que não sejam somente a parte económica. Depois vai tomar medidas, seja através de um programa de orientação tutorial, com professores, seja através da componente financeira”, explicou o reitor, concluindo: “Acho que seria o único a nível nacional – eu não conheço nenhum outro projeto do género”.

50 mil euros em bolsas, por ano

Para já, a UTAD vai recorrer ao Banco Santander para financiar o projeto, mas esta terça-feira, 17 de abril, avançou com uma candidatura ao Fundo de Inovação Social do programa Portugal 20/20. “É uma candidatura ao programa Portugal Inovação Social, feita por três entidades: pelo Santander, que é a entidade financiadora; pela Cáritas de Vila Real, em pareceria com a UTAD e os seus Serviços de Ação Social; e pela Secretaria-Geral da Ciência e da Educação do Ministério da Educação”, avançou Elsa Justino.

Segundo a responsável, o projeto “não é muito caro, porque usa muitos recursos internos”, mas o montante que o Banco Santander vai financiar, em bolsas de estudo, são 50 mil euros/ano, disse. Um valor que “será pago pelo Portugal Inovação Social ao Santander caso a UTAD e a Cáritas tenham sucesso na implementação do programa”, esclareceu.

“Há aqui, no fundo, um investidor social – que é o Banco Santander –, que está a arriscar no nosso programa para que nós possamos provar, arriscando todos, se é possível ou não ter medidas de política pública que alterem ou combatam este problema”, afirmou Elsa Justino.

Para a administradora dos Serviços de Ação Social da UTAD, um aluno que perde uma bolsa de estudo “é um desperdício”, em termos de política pública. E isso pode ser minimizado, garante. No caso da UTAD, “nós sabemos que, se um aluno do 1.º ano, no final do 1.º semestre, não tiver feito nenhuma unidade curricular não é elegível no ano letivo a seguir para a bolsa de estudo, porque o regulamento diz que ele, no mínimo, tem de fazer 60% das unidades curriculares”. Ou seja, reitera Elsa Justino, “nós já sabemos, com quase um ano de antecedência, quem já não é elegível no ano a seguir”.

O que leva à conclusão de que, muitas vezes, não bastam mais bolsas ou apoios sociais, garante o reitor Fontainhas Fernandes. Para o responsável máximo da UTAD, é preciso perceber que há situações que a bolsa não resolve, como problemas familiares graves ou algo tão simples como a deslocalização. Algo que, no caso da UTAD, é importante, diz, “porque o número de estudantes deslocados andará entre os 60% e os 70%”.

Daí que seja necessário, afirmou, “outro tipo de intervenção”, que é o que a UTAD se propõe fazer já a partir do ano letivo que se inicia em setembro de 2018. “Aqui nós temos de ter, enquanto instituição pública, uma outra missão que é tentar evitar o abandono”, afirmou o reitor Fontainhas Fernandes.

 

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