Congresso

“As universidades são as grandes forças motrizes da mudança”

O Palácio de Congressos de Castela 
e Leão vai receber o IV Encontro  
de Reitores Universia 2018, já próxima segunda e terça-feira. FOTO: palaciosalamanca.es
O Palácio de Congressos de Castela e Leão vai receber o IV Encontro de Reitores Universia 2018, já próxima segunda e terça-feira. FOTO: palaciosalamanca.es

600 reitores discutem universidade do século XXI no Encontro de Reitores, em Salamanca, onde vão estar o Presidente da República e o rei de Espanha

Longe de estarem a ficar ultrapassadas pelas novas tecnologias e pela facilidade global de transmissão do conhecimento, as universidades são, ou terão de ser, “as grandes forças motrizes da mudança”. A garantia parte de Sebastião Feyo de Azevedo, reitor da Universidade do Porto e membro do Comité Académico do IV Encontro de Reitores Universia 2018, que vai decorrer nos dias 21 e 22, em Salamanca. O megaencontro de altos quadros da academia ibero-americana, que decorrerá no Palácio de Congressos e Exposições de Castela e Leão, aproveita a comemoração do 8.º Centenário da Universidade de Salamanca para fazer desta a capital do ensino superior e discutir a Universidade do século XXI.

São dois dias de debate – que podem ser seguidos via streaming, através das redes sociais do Encontro e da sua página oficial na internet –, onde seis centenas de reitores e representantes máximos académicos vão trocar experiências, procurar novas metodologias e descortinar o caminho para melhor adaptarem a universidade dos nosso dias às exigências do futuro.

Pelo menos, são estas as expectativas do reitor da Universidade do Porto, que, enquanto membro do Comité Académico do Encontro, ajudou a decidir o tema do evento e os eixos em discussão. Tendo em atenção a transformação digital global, este órgão decidiu assim que IV Encontro de Reitores Universia iria discutir a trilogia “universidade, sociedade e futuro”.

“Hoje em dia há um impacto imenso das metodologias associadas à existência de meios digitais muito poderosos, em todas as áreas de atividade”, nomeadamente no ensino académico, reconheceu o reitor da Universidade do Porto. “Consequentemente, é isso que eu espero: que o congresso dê um impulso grande e reafirme a importância de as universidades entrarem neste caminho do futuro.”

Sebastião Feyo de Azevedo, reitor da Universidade do Porto, enquanto membro do Comité Académico do IV Encontro de Reitores, vai ajudar a definir as conclusões da Carta de Salamanca. FOTO: jpn.up.pt

Sebastião Feyo de Azevedo, reitor da Universidade do Porto, enquanto membro do Comité Académico do IV Encontro de Reitores, vai ajudar a definir as conclusões da Carta de Salamanca. FOTO: jpn.up.pt

Explicando um pouco melhor, Sebastião Feyo de Azevedo, disse esperar deste congresso que haja uma clara afirmação da transformação digital em curso no mundo como um investimento da universidade. Esta revolução digital deve, ao olhos deste responsável, tornar-se “um instrumento para uma melhoria significativa da missão das universidades no mundo”. Uma missão que “tem três grandes eixos: a educação, a investigação e aquilo que hoje em dia se designa como a terceira missão das universidades – a valorização do conhecimento”.

O que leva à questão de saber se, com todo o conhecimento disponível na internet, o responsável teme o desaparecimento da universidade, tal como a conhecemos. “Não, de maneira nenhuma”, respondeu perentório. “Os professores vão continuar a ser centrais no desenvolvimento do conhecimento. A forma de transferir o conhecimento é que muda radicalmente. O conhecimento fundamental está na internet, porque os professores aí o colocam.” Concluindo, Sebastião Feyo de Azevedo não apenas não receia o esvaziamento do papel das universidades, como vai mais longe: “Pelo contrário, as universidades são as grandes forças motrizes da mudança, terão de o ser”.

Opinião com que concorda João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra e um dos que terá um papel de destaque no Encontro de Salamanca, enquanto coordenador de um dos painéis de debate do congresso. “A universidade, em si, como instituição que desenvolve e transmite conhecimento complexo, não só não está em crise, no meu entendimento, como não é uma espécie em vias de extinção”, afirmou o responsável.

Para o reitor da Universidade de Coimbra, a transformação digital da sociedade traduz-se num “acesso incrível à informação [que] também traz consigo uma complexificação da sociedade muito clara”. “Ora, para que os cidadãos, para que as pessoas que vivem neste mundo, consigam responder a uma sociedade que é cada vez mais complexa, cada vez mais exigente, pois precisam de formação superior, ainda mais do que precisavam no passado”, garantiu João Gabriel Silva.

Apostar na inovação pedagógica

Apesar do longo caminho ainda a percorrer para criar a academia do futuro, nem tudo está por fazer. Segundo o reitor da Universidade do Porto já houve avanços, sobretudo, “na área da investigação, da terceira missão e até nos modelos internos da administração das universidades, onde estão a ser dados passos muito grandes de utilização de meios digitais”. É na área académica, da formação, que há mais a fazer.

“É preciso que a universidade consiga investir meios suficientes para permitir que os professores façam o seu trabalho em novos moldes”, garantiu Sebastião Feyo de Azevedo. Referindo o exemplo da Universidade do Porto, que dirige, o responsável afirmou estar esta instituição “a trabalhar muitíssimo na área da inovação pedagógica” e a promover “novos métodos” que estão a ter grande adesão, como seja a colaboração no seio do Consórcio UNorte.pt, que envolve a Universidade do Minho e a de Trás-os-Montes e Alto Douto (UTAD). “Temos promovido prémios de excelência pedagógica e seminários, continuadamente, sobre novas metodologias de trabalho e, enfim, estamos a avançar”.

Na Universidade de Coimbra, diz João Gabriel Silva, que há uma consciência muito clara de que os seus interlocutores são os estudantes do mundo inteiro e não os que moram em Coimbra, ou na região centro de Portugal, ou em Portugal. “Esse é o primeiro passo e tem imensas consequências, porque a forma como organizamos os cursos, como atraímos alunos, como o ensino é ministrado é muito alterada pelo facto de estarmos a dirigir-nos ao mundo inteiro”, explicou o reitor.

João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra, garante que a era do conhecimento digital não ameaça as universidades. FOTO: Fernando Fontes / Global Imagens

João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra, garante que a era do conhecimento digital não ameaça as universidades. FOTO: Fernando Fontes / Global Imagens

A segunda grande alteração metodológica do ensino em Coimbra, disse João Gabriel Silva, tem que ver com a forma como é feita a transmissão do conhecimento, com esta secular universidade a apoiar-se crescentemente no ensino baseado na rede e à distância, agora chamado “ensino digitalmente mediado”. A título de exemplo, refere: “A Universidade de Coimbra até estabeleceu um consórcio com a Universidade Aberta, precisamente para juntar o conhecimento desse ensino mediado, que esta já tem, ao conhecimento lato, científico, pedagógico, enfim, nas muitas áreas em que Coimbra é forte”.

Daí a importância, afirmam ambos os responsáveis, da troca de experiências e metodologias, que o IV Encontro de Reitores permite, entre as cerca de 26 instituições participantes. “Espero que seja, de facto, uma oportunidade para a troca de experiências e de ideias”, disse João Gabriel Silva. Porque as várias universidades, garante, estão a experimentar “novos métodos de ensino, de relacionamento entre os professores e os alunos, de organização dos cursos, de certificação de competências, de ensino ao longo da vida, de perceber quais são as necessidades que a sociedade tem”, pelo que “temos todos muito a aprender nesta troca de experiências”, rematou.

Quanto ao que resultará deste congresso, Sebastião Feyo de Azevedo diz não poder adivinhar o que virá a constar na Carta de Salamanca, o documento que recolherá as principais conclusões e propostas para contribuir para a construção da Universidade do futuro. Mas sabe o que gostaria e ver na academia do futuro: “Uma reorganização que leve a que haja muito maior multidisciplinaridade e uma mudança que permita aos estudantes novas formas de estudo. O anfiteatro é uma coisa do passado”, concluiu.

Portugueses no cerne da discussão

Presentes no encontro e assumindo a coordenação de sessões de debate diferentes estará, além de João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra, o seu congénere João Sáàgua, da Universidade Nova de Lisboa. Enquanto este vai moderar uma discussão em torno do tema “IDI [Investigação, Desenvolvimento e Inovação] no horizonte 2030: talento, responsabilidade ética e tecnologias disruptivas”, ao primeiro coube gerir o debate de “A inovação e a internacionalização na formação universitária”. Sobre este assunto, o que há a dizer?

“No ensino superior ainda não absorvemos bem, ou só absorvemos em pequena escala, o impacto de duas transformações muito grandes: as tecnologias da comunicação e o mundo digital do conhecimento”, disse João Gabriel Silva. Para o responsável da Universidade de Coimbra, esse impacto terá de se refletir em vários aspetos, nomeadamente “na maneira como as aulas são lecionadas, como os conteúdos são selecionados, como os estudantes aprendem, na relação entre o professor e os estudantes, na própria existência das aulas”, enumerou, acrescentando: “Isto é uma transformação profunda que está só no início”.

O que significa, no seu entender, que as universidades de hoje ainda não apanharam o ritmo vertiginoso dos tempos. “O acesso à informação mudou de forma tão dramática nas últimas poucas dezenas de anos, nos últimos 20 anos em particular, que só pode ter enormes consequências no ensino superior – em todos os níveis de ensino, mas no ensino superior em particular – e nós, coletivamente, ainda não retirámos daí verdadeiramente as consequências”, afirma João Gabriel Silva.

É para este e outros desafios colocados pela modernidade à academia que os reitores esperam encontrar respostas na segunda e terça-feira, em Salamanca. João Sáàgua, da Universidade Nova de Lisboa, confessou ao Dinheiro Vivo esperar que o evento “seja diversificado e rico”. “Espero aprender várias coisas. Aprende-se sempre, quando se está em contacto com colegas com preocupações e valores semelhantes e oriundos de realidades diferentes da nossa”, disse. (Veja a entrevista integral aqui).

O mundo académico ibero-americano aguarda, pois, com expectativa as conclusões a que se chegará na Carta de Salamanca. A relevância do evento – e da data paralelamente assinalada, os 800 anos da universidade desta cidade espanhola – é suficientemente importante para atrair mais do que os reitores nela participantes. Presidindo à inauguração deste IV Encontro, logo no dia 21 de maio, estarão os chefes de Estado da Península Ibérica, o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, e o rei de Espanha, D. Felipe. A seu lado estarão outras personalidades, como o Secretário-Geral da OCDE, Ángel Gurría.

O IV Encontro Internacional de Reitores é realizado ao abrigo do programa Universia – concebido para agilizar e facilitar o processo de transformação digital das universidades –, do Banco Santander, e dá continuidade aos encontros do Rio de Janeiro (Brasil, 2014), Guadalajara (México, 2010) e Sevilha (Espanha, 2005).

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