entrevista

“A inovação social, mesmo disruptiva, deve ser preocupação das universidades”

João Sàágua é reitor da Universidade Nova de Lisboa e vai ser moderador  de um dos debates do IV Encontro de Reitores de Salamanca. FOTO: Reinaldo Rodrigues / Global Imagens
João Sàágua é reitor da Universidade Nova de Lisboa e vai ser moderador de um dos debates do IV Encontro de Reitores de Salamanca. FOTO: Reinaldo Rodrigues / Global Imagens

Vai a Salamanca, a 21 e 22 de maio, a um encontro que o juntará a outros 599 reitores, onde espera aprender e contribuir para a universidade do futuro

Afirma que a Universidade Nova de Lisboa, de que é reitor, tem uma estratégia de Investigação, Desenvolvimento e Inovação (IDI) para os próximos 4 anos que a vai deixar na vanguarda da Academia portuguesa. João Sáàgua foi convidado a moderar o debate do IV Encontro de Reitores de Salamanca, nos próximos dias 21 e 22 de maio, que versa precisamente sobre a IDI e o que está no horizonte das universidades para 2030. Em entrevista, o reitor desta instituição lisboeta de ensino superior fala do papel das universidades neste campo, em inovação social disruptiva e na responsabilidade ética da investigação académica.

Tendo em atenção o tema da sessão que vai coordenar – “IDI [Investigação, Desenvolvimento e Inovação] no horizonte 2030: talento, responsabilidade ética e tecnologias disruptivas” –, quais são os desafios que põem às universidades neste campo?
Atualmente, os maiores fatores de disrupção são a biotecnologia (pense-se, por exemplo, em tratamento personalizado de alguns cancros) e a inteligência artificial (pense-se, por exemplo, em veículos seguros sem condutor). Dado que várias das consequências, boas e más, de uma inovação disruptiva não podem ser completamente calculadas (isso é parte do ‘risco’ disruptivo), é quase sempre bem mais difícil fazer uma análise custo / benefício das primeiras do que das segundas.

Como podem as universidades contribuir, no seu entender, para a verdadeira descoberta/produção de talentos e conhecimento neste horizonte?
As universidades, sendo lugares de produção de conhecimento que não visam de imediato o lucro, terão certamente equipas altamente qualificadas, ligadas a redes internacionais de conhecimento e com alguma disponibilidade para ‘arriscar’ mais do que os Departamentos de Inovação e Desenvolvimento das empresas. Por outro lado, as melhores empresas possuem tecnologia e infraestruturas que são o verdadeiro ‘estado da arte’ no seu ‘core business’. Deste modo, a melhor solução está, as mais das vezes, em fazer parcerias universidade / empresa, criando agendas colaborativas nas quais os ‘problemas’ da agenda são colocados pelas empresas e o desenvolvimento de soluções é levado a cabo por equipas mistas (da universidade e da empresa), podendo por vezes originar também uma forma específica e interessante de start-ups.

Se a inovação é disruptiva, deverá ser prosseguida pelas universidades?
A inovação social, mesmo disruptiva, também deve ser uma preocupação das universidades; neste caso, as parcerias a fazer serão das universidades com sectores sociais (ONGs, autarquias, instituições com finalidades sociais diversas). O modo de funcionamento destas parcerias será análogo ao que descrevi para as empresas, com as devidas adaptações. A integração bem-sucedida de refugiados, por exemplo, é um problema que carece possivelmente de uma solução que seja uma inovação social disruptiva (a ‘versão incremental’ não tem funcionado a nível da UE). Ponto importante para as universidades e para a sociedade: nunca esquecer a importância da investigação fundamental (sem aplicação imediata), sem investigação fundamental de hoje, não terá a inovação disruptiva daqui a 10 ou 20 anos.

Onde é que entra a responsabilidade ética, neste quadro?
A parte ética entra, por exemplo, na escolha da agenda que é proposta às universidades (estou certo que não se aceitaria um projeto para desenvolver novas armas de destruição maciça), ou nas metodologias para o desenvolvimento de soluções (estou certo que não se fariam experiências de grande risco em seres humanos). O problema ético aumentado e muito pela sua complexidade: como é que sabe ou garante, por exemplo, que uma certa inovação usada para um fim bom, não vai ser também usada também para as piores coisas?

Que planos tem a Universidade Nova de Lisboa para este campo da IDI futura?
A Universidade Nova de Lisboa assumiu, precisamente, como principal eixo estratégico para os próximos 4 anos atingir nesta área um desenvolvimento muito superior ao da situação atual a nível nacional. Este é o nosso compromisso com a sociedade portuguesa. É um duplo compromisso: contribuir para o desenvolvimento da economia e da atividade exportadora das empresas e contribuir para uma maior harmonia social e para o minorar de desigualdades de todo o tipo. A nossa recente participação em várias candidaturas a Laboratórios Colaborativos (os CoLab) é disso um primeiro exemplo. Muitos mais se seguirão, e em várias outras áreas. Este compromisso envolve: a abordagem de vários desafios que são intrinsecamente interdisciplinares, o que leva a aumentar o diálogo entre as várias Escolas da Nova; a intensificação da nossa já muito grande participação em redes internacionais como demonstram os recentes resultados do ranking de Leiden em que somos a instituição nacional com o maior número de publicações com colaboração internacional; e o diálogo com as empresas e os diversos sectores sociais. Estamos a atuar nesses três campos. Como disse: a criação de valor económico e social através da inovação é onde nos queremos focar.

O que espera do Encontro de Reitores de Salamanca, que vai reunir mais de 600 responsáveis máximos de instituições do Ensino superior do espaço ibero-americano?
Espero que seja diversificado e rico. Espero aprender várias coisas. Aprende-se sempre, quando se está em contacto com colegas com preocupações e valores semelhantes e oriundos de realidades diferentes da nossa. Espero também que a minha própria experiência seja útil para alguém.

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