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Silicon Valley veio a Coimbra aconselhar jovens empreendedores

Seis jovens empresários de sucesso, moderados pela jornalista Ana Pimentel (ao centro), partilharam com centenas de pessoas as dificuldades e vantagens de começar em Silicon Valley. FOTO: D.R.
Seis jovens empresários de sucesso, moderados pela jornalista Ana Pimentel (ao centro), partilharam com centenas de pessoas as dificuldades e vantagens de começar em Silicon Valley. FOTO: D.R.

Seis empresas, seis produtos de sucesso, que beneficiaram da "aceleração" de Silicon Valley: os seus responsáveis foram mentores por um dia em Coimbra

São portuguesas, são tecnológicas e desenvolveram produtos inovadores de sucesso. Desde um dispositivo de tracking de animais de estimação, a um avançadíssimo software “caça-fraudes” financeiras, passando por outro que gere com alguns cliques a manutenção de enormes edifícios ou outros ainda que ajudam a criar documentos perfeitos ou a deixar mais felizes os clientes empresariais, tudo isto são criações de empresas de Portugal, mas globais, que passaram por Silicon Valley. Os seus responsáveis não hesitam em partilhar o que sabem e foram a Coimbra falar das regras do jogo da meca tecnológica dos EUA, suas vantagens e desafios.

Intitulado Silicon Valley Comes to Coimbra, o evento “foi um excelente momento de partilha de experiências entre seis empreendedores portugueses de sucesso e os mais de 200 participantes interessados em perceber como desenvolver negócios nos EUA”, afirmou, num balanço resumido, Miguel Dias Gonçalves, coordenador do Programa Explorer. O evento teve lugar no passado dia 30 de maio e realizou-se no Auditório dos Edifícios Centrais da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

A iniciativa partiu do programa Explorer, que é coordenado pelo Centro Internacional de Empreendedorismo do Santander e apoiado pelo Santander Universidades, e “correu muito bem”, garantiu Miguel Dias Gonçalves. “Todos os participantes tiveram oportunidade de perceber melhor como se desenvolvem negócios em Silicon Valley e quais os passos a seguir”, explicou o responsável. No fundo, concluiu, tratou-se de dar a “conhecer melhor aquilo que são os mitos e os factos sobre essa comunidade” e os participantes “ficaram mais capacitados para o desenvolvimento de negócios” no vale tecnológico dos EUA.

Pedro Santos Vieira partilhou o que aprendeu com a sua organização West to West.

Pedro Santos Vieira partilhou o que aprendeu com a sua organização West to West.

Um dos muitos conselhos que, por exemplo, o perito Pedro Santos Vieira deixou na Cidade dos Estudantes foi que, “quem decidir ir para Silicon Valley, tem de fazer um trabalho muito bom de preparação, para ver por quem é que tem de optar, por que razões e qual é a mensagem a transmitir”. O responsável é presidente da West to West, uma organização que criou com o específico intuito de ajudar empreendedores portugueses a desenvolverem atividades no vale tecnológico de São Francisco. Por isso, a missão da organização de Santos Vieira, tal como a definiu no seu site, é dar “uma melhor compreensão da cultura de trabalho e do ambiente de negócios” que se vive em Silicon Valley e dar apoios de logística básica, até, a eventuais problemas de imigração.

Outra das regras a ter em mente é que “há dois prismas importantes no que respeita à relação das startups portuguesas com Silicon Valley”. Pelo menos, foi esse o aviso que deixou Filipe Ávila da Costa, cofundador e CEO da Infraspeak. Sendo que o primeiro prisma é “qualificar e o segundo é desmistificar”. No que respeita à qualificação, Ávila da Costa reconhece que Silicon Valley é um talent magnet, ou seja, “há uma atração muito forte de talento humano, há muita atividade de ponta a acontecer e, ao mesmo tempo, isso faz com que a canalização de capital também seja muito forte”. É por isso que, diz o responsável, “quem está na área tecnológica e quer ter das melhores empresas do mundo, é importante ter uma relação com Silicon Valley.

“Por outro lado, há também que desmistificar um bocado”, a firmou. Referindo que o vale tecnológico de São Francisco “é uma região muito cara” e que “é uma comunidade que, sendo bastante aberta em termos de querer conversar e conhecer, acaba por ser muito fechada em termos de acesso”, Ávila da Costa sublinhou que “há grandes empresas a surgirem em todos os lados do mundo” e “há outras regiões na América, como Chicago ou Miami, como Austin ou Nova Iorque, que têm ecossistemas de empreendedorismo bastante fortes, cujo rácio de custo-benefício muitas vezes é vantajoso face a Silicon Valley”. Por isso, o principal conselho que o CEO da Infraspeak deixou no evento de Coimbra foi: “Analisar se o mercado americano faz sentido em termos de negócio e se faz sentido estar em Silicon Valley”.

A Infraspeak, que Filipe Ávila da Costa dirige, tem hoje 114 clientes, teve em 2017 uma faturação de 320 mil euros, espera atingir este ano a meta de um milhão e tem crescido sempre na casa dos 200%. Tudo porque criou um software que facilita todo o processo de manutenção e qualidade de grandes infraestruturas e empresas – hotéis, shoppings, hospitais, etc. Isto é, organiza de forma lógica, coordenada e escalonada todo tipo de operações, desde as comuns limpezas à manutenção diária de centenas de equipamentos, como ares-condicionados, televisores, extintores, elevadores, fornos, caldeiras, etc.

Ir a Silicon Valley e voltar

Também André Carvalheira, cofundador e responsável de Operações (COO) da Findster, concorda com Ávila da Costa. “Antes de dizer que é Silicon Valley o caminho há que descobrir se é esse o caminho”, disse. O COO da Findster admite que “realmente as estatísticas mostram-nos que há mais investimento, há mais empresas lá, mas cada vez há mais exemplos de outras empresas, também dentro dos EUA, e de outras cidades interessantes”, como Nova Iorque adiantou.

 

André Carvalheira (à esq.), cofundador da Findster, e Felipe Ávila da Costa, CEO da Infraspeak, marcaram presença no Silicon Valley Comes to Coimbra.

André Carvalheira (à esq.), cofundador da Findster, e Felipe Ávila da Costa, CEO da Infraspeak, marcaram presença no Silicon Valley Comes to Coimbra.

A Findster retirou vantagens dos dois meses passados na aceleradora Hax, em Silicon Valley: afinou o seu produto, está presente em mais de 60 países e entre abril e novembro do ano passado cresceu mais de 20 vezes, garante André Carvalheira. A empresa é baseada no seu produto principal, o Findster Duo+, um inovador dispositivo de localização de animais de estimação, com um alcance de quase 5 km (3 milhas), mas que monitoriza também a sua atividade e permite definir fronteiras que, uma vez ultrapassadas, fazem disparar um alarme. Agora a Findster já está a desenvolver novos produtos – desta vez de intervenção remota, em que os donos seguem o seu animal, por exemplo, a partir do emprego – e tem por objetivo tornar-se “a maior pet-tech company do mundo”.

“Para nós, neste momento, depois de estarmos lá dois meses na aceleradora, percebemos que nesta primeira fase não fazia tanto sentido ter uma presença física nos EUA”, esclareceu. “Havia uma oportunidade ainda muito grande online e estamos agora no Porto – somos 15 pessoas baseadas na Baixa do Porto, ao pé da Trindade – e, para nós, isso funciona muito bem”, concluiu André Carvalheira. Mas, logo de seguida, admitiu: “Obviamente que, quando quisermos começar a entrar no retalho físico, teremos de ter uma presença física nos EUA”, mas não tem necessariamente de ser em Silicon Valley.

Ir e ficar em Silicon Valley

Ligeiramente diferente é a opinião de Paulo Marques, cofundador e responsável pela tecnologia (CTO) da Feedzai. A sua empresa, que combate a fraude nos pagamentos e o branqueamento de capitais com recurso a soluções de Inteligência Artificial e de machine learning, não só “acelerou” em Silicon Valley, como lá ficou – tem escritórios em San Mateo, desde 2013 – e ainda migrou com dependências para outras cidades dos EUA, como Atlanta e Nova Iorque.

“O conselho mais importante é que Silicon Valley é uma porta de entrada para o mercado global”, afirmou Paulo Marques, acrescentando: “Nós só poderemos ter empresas realmente bem-sucedidas se tivermos a ambição de, por um lado, sermos os melhores do mundo numa certa área e, por outro lado, estarmos num mercado alargado, global. E Silicon Valley é uma excelente forma de ter essa ambição e de a começar a executar”.

Cristina Fonseca, da Talkdesk, passando a palavra a Paulo Marques, Feedzai, no evento de Coimbra.

Cristina Fonseca, da Talkdesk, passando a palavra a Paulo Marques, Feedzai, no evento de Coimbra.

No caso da Feedzai, a ida para o vale tecnológico de São Francisco permitiu-lhe desenvolver o negócio no mercado norte-americano – que tem cerca de 300 milhões de pessoas – e é onde estão alguns dos principais bancos a nível mundial, explicou o responsável. “E também nos trouxe a ligação aos investidores – de topo a nível mundial – e trouxe-nos também acesso a talento em áreas que tradicionalmente não são tão fortes em Portugal”, avançou.

Hoje a Feedzai tem 300 funcionários, um volume de negócios que rondou, em 2017, os 30 milhões de euros e conta com “algumas das maiores instituições financeiras do mundo” entre os seus clientes. Sobretudo bancos e grandes comerciantes, explicou Paulo Marques. “A título de exemplo, a Nike, a nível mundial, é um dos nossos clientes”, disse.

Também presente no Silicon Valley Comes to Coimbra esteve Cristina Fonseca, representante da TalkDesk, mas apesar das diversas tentativas, não foi possível estabelecer contacto. A TalkDesk desenvolveu soluções de software para centros de contacto que permitem às empresas melhorar a sua interação com os clientes, aumentando a sua satisfação.

Há mais caminhos

Em contraste com os restantes participantes, esteve a doDoc, empresa de que é cofundador Carlos Boto. A startup passou pela aceleradora de Boston Techstars – foi a primeira empresa portuguesa a consegui-lo – e o seu responsável foi ao evento de Coimbra descrever a sua experiência nos EUA e falar da forma como se compara ou diverge da realidade em Silicon Valley, explicou.

Especializada em gestão documental e representando para aqueles a quem presta serviço uma imensa poupança de tempo, a doDOC tem hoje escritórios em Boston e “trabalha com vária empresas farmacêuticas de média e grande dimensão, contando já com empresas do Top 10 mundial como clientes”. Em causa está a preparação e formatação de documentos muito técnicos e específicos – como, por exemplo, autoridades regulatórias do setor farmacêutico -, em que um documento mal concebido, que não foi limpo da “palha” desnecessária pode deitar tudo a perder. E bem formatar e redigir tais documentos consome muito tempo, daí a mais-valia da doDOC para os seus clientes.

Carlos Boto, cofundador da doDOC, ouvindo com atenção as intervenções no Silicon Valley Comes to Coimbra

Carlos Boto, cofundador da doDOC, ouvindo com atenção as intervenções no Silicon Valley Comes to Coimbra

“A empresa tem vindo a alargar o leque de indústrias com as quais trabalha, contando já com clientes que usam a doDOC para a preparação de artigos científicos, documentos regulatórios, relatórios e documentos no âmbito de gestão de qualidade, propostas e contratos, entre outros”, avançou Carlos Boto.

Quanto ao que partilhou com as quase 300 pessoas na audiência do Silicon Valley Comes to Coimbra, começou por ser “que nunca, como hoje, existiram condições para criar empresas a partir de Portugal para o mundo”. Depois, Carlos Boto avisou que “é necessário ter múltiplos fatores em consideração antes de se pensar dar o salto para os Estados Unidos”. E o responsável enumerou entre eles o “racional económico” e a “necessidade absoluta de possuir ou construir uma vasta e relevante rede de contactos para o estabelecimento da empresa com sucesso nos USA, tendo partilhado a experiência de integrar um acelerador de topo a nível mundial”.

Como conselho, Carlos Boto procurou fazer passar a ideia de que “a responsabilidade e iniciativa individual se sobrepõe a qualquer ​’obrigação’ ou ‘dever de apoio’ por parte de entidades académicas ou governamentais no percurso para a criação de uma empresa com pegada e sucesso global”.

 

 

 

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