Programa Explorer

“Explorers” de Coimbra de malas prontas para a final em Espanha

Amílcar Falcão, vice-reitor da Universidade de Coimbra (à esq.), a par de Daniela Costa e Rita Santos, com o diretor-coordenador do Santander Universidades, Marcos Soares Ribeiro, no momento da entrega do bilhete simbólico para a ida a Silicon Valley, ainda antes da final de Espanha. FOTO: Santander Universidades
Amílcar Falcão, vice-reitor da Universidade de Coimbra (à esq.), a par de Daniela Costa e Rita Santos, com o diretor-coordenador do Santander Universidades, Marcos Soares Ribeiro, no momento da entrega do bilhete simbólico para a ida a Silicon Valley, ainda antes da final de Espanha. FOTO: Santander Universidades

Os novos talentos descobertos pelo Programa Explorer podem receber prémios até 30 mil euros e vão passar por Silicon Valley

Têm entre 23 e 29 anos, são estudantes-investigadores em Coimbra e autores de invenções inéditas – uma bebida nutritiva, a partir do soro do leite, e uma tecnologia de espetroscopia que revoluciona a deteção precoce de cancro da mama. A proeza valeu-lhes a vitória na edição inaugural do Programa Explorer em Portugal. Agora os “Explorers” de Coimbra dizem-se preparados para enfrentar, daqui a uns meses, a grande final da iniciativa que terá lugar em Espanha. Antes disso, para uma delas, ainda há tempo para uma passagem pelo “paraíso” tecnológico de Silicon Valley – às custas deste mesmo prémio – para afinar munições que usarão na defesa do seu projeto frente aos restantes 52 “Explorers” vencedores dos programas argentinos e espanhóis.

Toal Ecobebidas é o nome do projeto eleito, no passado dia 22 de junho, como a melhor ideia do Explorer Space da Universidade de Coimbra, naquela que foi a 1.ª edição do Programa Explorer – impulsionado pelo Santander Universidades, com a coordenação do Centro Internacional Santander Empreendimento (CISE) – naquela instituição de ensino superior e em Portugal.

Na categoria Disruptive Technology Explorer Award, eleito finalista foi o projeto HuBRIIS – System ID, desenvolvido por Calil Ibrahim Makhoul e que, usando uma tecnologia de espetroscopia vibracional, apresenta uma forma inovadora de identificar indivíduos queimados ou de fazer a deteção precoce de cancro da mama, do promotor Calil Ibrahim Makhoul.

“A Toal Ecobebidas tenta aproveitar-se de dois subprodutos da indústria alimentar – o soro, que é o sobrante da manufatura do queijo, e os morangos considerados fruta feia, ou seja, que não têm o calibre para irem para o mercado, por causa da legislação, ou porque estão um bocadinho tocados”, explica Daniela Costa.

Pegando nesses produtos que, em condições normais iriam para o lixo, as duas licenciadas em Ciências Bioanalíticas, e mestrandas em Segurança Alimentar da Faculdade de Farmácia da U.Coimbra, criaram duas bebidas, sendo que “uma é simplesmente proteína e a outra é rica em açúcares naturais”.

Depois de muitas experiências e afinações – nomeadamente com provas feitas junto do público no âmbito do Programa Explorer – as duas estudantes-investigadoras obtiveram bebidas que são simultaneamente saborosas, fazem bem à saúde e contribuem para a sustentabilidade, evitando o desperdício. “As ecobebidas podem ser consumidas por qualquer pessoa, mas o nosso público-alvo são os vegetarianos ou os flexitarianos – que não são totalmente vegetarianos já que, de vez em quando, consomem proteína de origem animal, como é o nosso caso –, os celíacos (sensíveis ao glúten) e os intolerantes à lactose”, esclarece a investigadora.

Aproveitar o desperdício

A ideia ocorreu a Rita Santos e Daniela Costa no 1.º ano do mestrado em Segurança Alimentar, conta. “Fomos confrontadas com este problema por um docente da nossa faculdade, o prof. Fernando Ramos – o soro e outros subprodutos da indústria alimentar que são desperdiçados, mas que têm um grande potencial económico para a indústria e nutricional para nós.”

As ecobebidas Toal estão praticamente prontas a sair para o mercado. FOTO: U.Coimbra / Daniela Costa

As ecobebidas Toal estão praticamente prontas a sair para o mercado. FOTO: U.Coimbra / Daniela Costa

Para o nome, as duas estudantes foram buscar inspiração, em parte, às raízes da região e ao fenómeno da internacionalização. “Toal é uma junção”, diz Daniela Costa, acrescentando: “Nós somos as duas do centro – a Rita é de Coimbra e eu de Ourém – e a minha avó fazia queijo, sendo que aí o soro é conhecido por almerce. Nós queríamos aproveitar a parte do ‘al’ e, como tínhamos duas bebidas, acrescentámos o ‘to’, por ser uma expressão homófona do ‘two’, dois em inglês, o que acabou por lhe dar também aquela sonoridade inglesa do ‘to all’, para todos”.

Então e quando é que podemos começar a beber Toal? “Neste momento já temos uma formulação final e estamos em contacto com vários parceiros da indústria queijeira. Futuramente queremos finalizar um contrato para que sejam então vendidas no mercado”, avança a responsável.

Com estas vitórias, a promotora do projeto Toal Ecobebidas, Rita Santos, ganhou uma viagem a Silicon Valley, para onde irá a 15 de novembro, com os outros 52 melhores jovens empreendedores da IX Edição do Programa Explorer. Daniela Costa não se deixou ficar para trás. “Eu estou a tentar ir também, pelos meus meios, uma vez que o prémio só contempla um representante de cada projeto”, diz.

No regresso, os 53 jovens – um por cada Explorer Space que o programa possui em Espanha, Argentina e Portugal – irão até Boadilla del Monte, sede do Grupo Santander, onde um júri integrado por representantes do Banco Santander, CISE e entidades colaboradoras, selecionarão os vencedores internacionais do programa. Os três melhores empreendedores receberão uma dotação financeira –no valor de 30.000, 20.000 e 10.000 euros, respetivamente – para que possam acelerar os seus projetos.

Além deste prémio, as promotoras também foram eleitas finalistas para o prémio Woman Explorer Award, que distinguirá o melhor projeto desenvolvido por mulheres. Se vencerem, receberão mais 20.000 euros para aplicar no seu projeto.

O Programa Explorer que, de acordo com o CISE, “tem como objetivo potenciar o talento jovem, o espírito empreendedor e o desenvolvimento de projetos inovadores num ambiente digital, aberto e colaborativo”, obrigou as duas estudantes e investigadoras a sair do laboratório e a olhar para o mundo empresarial, admite Daniela Costa.

“É um programa muito bom: foram cinco meses intensos de aprendizagem em áreas que nem eu nem a Rita tínhamos conhecimento – marketing, a área financeira, a parte da comunicação, que é muito importante – e isto é uma mais-valia para quem tem uma simples ideia e a quer desenvolver”, confessa.

Outro vencedor, muito “disruptivo”

Calil Makhoul, no momento em que recebia o prémio, com Miguel Gonçalves, coordenador do Programa Explorer da Universidade de Coimbra. FOTO: Santander Universidades

Calil Makhoul, no momento em que recebia o prémio, com Miguel Gonçalves, coordenador do Programa Explorer da Universidade de Coimbra. FOTO: Santander Universidades

O segundo grande finalista da 1.ª edição do Programa Explorer de Coimbra foi Calil Makhoul, de 29 anos, estudante brasileiro de ascendência libanesa, que está em Coimbra a fazer um doutoramento em Antropologia, na área de especialização de Antropologia Forense. Ao programa Explorer, candidatou-se com o seu projeto de espetroscopia vibracional.

“Atualmente, o HuBRIIS – System ID possui duas vertentes: individualização e diagnóstico”, explica Calil Makhoul. Na aplicação forense, o seu sistema vai permitir “a individualização de restos ou vestígios de ossos humanos queimados em contextos com multivítimas”; no foro clínico, este método inova no “diagnóstico e eficácia do tratamento do cancro de mama”.

Calil Makhoul conta que “a ideia surgiu com o programa de doutoramento da área da Saúde do Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT), promovido pela Universidade de Coimbra, no ano passado”. Nessa altura, o investigador desenvolveu o projeto apenas com a vertente forense e ganhou um prémio. Daí, e com os conhecimentos possibilitados pelo Programa Explorer na área do empreendedorismo, “decidi transformar a ideia em negócio”, devido ao valor de mercado potencial do HuBRIIS, diz.

O que Calil Makhoul propõe é tão revolucionário que conquistou o pódio do Explorer para a tecnologia mais disruptiva proposta. Como assim, disruptiva? “Esta tecnologia altera significativamente a maneira como as empresas operam atualmente. O HuBRIIS – System ID traz avanços e soluções que transformarão a vida, a saúde e a economia global devido ao seu impacto clínico e forense”, afirma.

O interesse despertado no mercado já está, aliás, a dar frutos. Calil Makhoul admite que já tem vários parceiros e clientes interessados, mas diz não poder revelar quem.

Enquanto finalista da categoria de Tecnologia Disruptiva do Programa Explorer, o HuBRIIS de Calil Makhoul irá a espnaha, onde poderá ganhar um prémio pecuniário de 3.000 euros e, em colaboração com a consultora espanhola Indra, terá direito a “assessoria gratuita de profissionais da Indraventures, para apoiar a escalabilidade do projeto e contribuir para o seu sucesso”, diz o investigador.

“Experiência fantástica”

O vice-reitor Amílcar Falcão elogia o Programa Explorer e os talentos descobertos. FOTO: Santander Universidades

O vice-reitor Amílcar Falcão elogia o Programa Explorer e os talentos descobertos. FOTO: Santander Universidades

Não foram só os participantes e vencedores que saíram satisfeitos da 1.ª edição do Programa Explorer. “Foi uma experiência fantástica”, afirmou Amílcar Falcão, vice-reitor da Universidade de Coimbra. “Conseguimos números de adesão muito bons e, como projeto-piloto, creio que dificilmente poderia ser melhor”, acrescentou.

“O Programa Explorer tem a grande vantagem de nos permitir criar mais uma valência dentro daquilo que é o nosso ecossistema de empreendedorismo e de inovação e que nos permite, neste caso, um acompanhamento de projetos ao longo de bastante tempo, o que cria sempre mais motivação nos empreendedores – nos nossos estudantes – e aumenta a qualidade desses projetos”, continuou o responsável.

No passado dia 22, a apresentação final dos projetos encerrou a edição de 2018 do Programa do Explorer Space da Universidade de Coimbra, onde 15 empreendedores tiveram acesso a formação, tutoria e atividades de networking durante os últimos cinco meses. E, no que respeita à qualidade dos projetos, não houve espaço para dúvidas.

“A escolha do júri não foi fácil, porque havia muitos projetos muito interessantes, mas eu acho que os projetos vencedores foram aqueles que, efetivamente, mais se salientaram e creio que têm à frente um caminho muito, muito promissor”, salientou o vice-reitor Amílcar Falcão. “Creio que foi uma boa decisão do júri e creio que vamos ouvir falar deles”, concluiu.

 

 

 

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