Investigação Colaborativa

Prémio foi para estudo dos efeitos do stress na tomada de decisões

Equipa multidisciplinar de investigação da Universidade Nova está a estudar o impacto do stress em três vertentes e o seu trabalho foi agora premiado. FOTO: Susan Jones / Creative Commons
Equipa multidisciplinar de investigação da Universidade Nova está a estudar o impacto do stress em três vertentes e o seu trabalho foi agora premiado. FOTO: Susan Jones / Creative Commons

Três equipas de cientistas juntaram-se para estudar os efeitos do stress no organismo e nos comportamentos sociais e ganharam prémio Santander-Nova

O Prémio de Investigação Colaborativa Santander-Nova 2018 foi atribuído a um projeto que visa descobrir como é que o stress – a que todos estamos sujeitos no nosso dia a dia – modifica a tomada de decisões. O anúncio foi feito esta segunda-feira, 10 de setembro, numa cerimónia que teve lugar no Campus de Campolide da universidade e que foi apenas um dos eventos realizados naquele que foi o 1º Dia da Ciência da Nova. Envolvidas na investigação premiada estão três faculdades da Universidade Nova de Lisboa, como explicou RaffaellaGozzelino, investigadora principal do projeto.

O estudo que mereceu o Prémio de Investigação Colaborativa deste ano visa determinar os efeitos do stress numa tripla vertente: no organismo, nos comportamentos sociais e no desempenho profissional e de outras atividades. Razão porque Raffaella Gozzelino, investigadora de Ciências Médicas da Universidade Nova – cujo laboratório que dirige está centrado em patologias do cérebro e no metabolismo do ferro pelo organismo –, juntou a sua equipa às de Ana Ferreira, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, e de Pedro Neves, da Faculdade de Economia ou Nova SBE (School of Business and Economics), como é oficialmente designada.

“O nosso projeto consiste em estudar os mecanismos moleculares que são a base dos processos de tomada de decisões”, explicou Raffaella Gozzelino. “Tudo isso ainda é muito pouco conhecido e, portanto, nessa linha de investigação – que foi premiada pelo Santander – o que nós pretendemos é investigar como situações eventualmente muito stressantes para o organismo podem alterar mecanismos a nível do cérebro que podem depois influenciar a tomada de decisões e o estado comportamental, o que também se reflete numa possível alteração do desempenho dos indivíduos”, disse.

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Com a sua investigação, Raffaella Gozzelino já conseguiu determinar que, em casos de doenças do cérebro ou de grande exposição a stress, ocorre uma grande acumulação de ferro no córtex pré-frontal, zona do cérebro responsável pela tomada de decisões.

Já a equipa de Ciências Sociais liderada por Ana Ferreira procurou “verificar como o contexto social onde um indivíduo está inserido pode fazer com que apreenda o stress de diferentes maneiras”. Em consequência disso, esse indivíduo poderá “tomar decisões que podem ser diferentes devido ao ambiente em que cresceu, às interações sociais com outros indivíduos e ao próprio caráter que desenvolveu, capaz de avaliar e enfrentar melhor determinadas situações de stress”, explicou Raffaella Gozzelino.

Raffaella Gozzelino detetou uma acumulação de ferro no cérebro em situações de stress.

Raffaella Gozzelino detetou uma acumulação de ferro no cérebro em situações de stress.

Por sua vez, a equipa do investigador Pedro Neves, da Nova SBE, está a “verificar como o stress pode modificar certas decisões e levar os indivíduos a tomar decisões mais arriscadas e como isso pode influenciar no desempenho do próprio indivíduo”, continua a investigadora. Na prática, esta parte da investigação responde a perguntas como “De que modo trabalham os indivíduos em situações de stress? Como é que atingem os seus objetivos?”

Simplificando, a ideia do projeto é a de perceber e identificar mecanismos e alvos a nível molecular no organismo que são acionados pelo stress (quer seja induzido por contextos sociais, fisiológicos ou outros) e que têm depois impacto no comportamento. Identificados esses mecanismos, diz a cientista que a investigação poderá ser extrapolada para determinar se os indivíduos que estão continuamente expostos a altos níveis de stress poderão ou não sofrer essas alterações a nível molecular ou cerebral de modo a que, a longo prazo, criem estados patológicos.

No final, a investigação premiada poderá ajudar a encontrar soluções para comportamentos associais e certas doenças neurológicas, nomeadamente através da criação de novos medicamentos mais eficazes.

Prémio marca nova etapa mais alargada do estudo

“Este prémio tem muitíssima importância, porque, como toda a gente sabe, não se consegue fazer ciência sem ter um financiamento associado”, diz Raffaella Gozzelino, referindo-se aos 25 mil euros que o Prémio de Investigação Colaborativa Santander-Nova representa para o seu projeto.

No entanto, “as investigações são sempre muito caras”, garante a investigadora, pelo que este montante vai servir apenas de rampa de lançamento para a continuação do projeto. “Graças a este prémio podemos ter os resultados preliminares suficientes para depois permitir a nossa candidatura a outros financiamentos maiores que depois irão elucidar todos os mecanismos que nós queiramos sucessivamente estudar, seja em modelos animais, seja extrapolando os resultados para os humanos”, avançou.

Assim, e segundo Raffaella Gozzelino, os passos seguintes para as três equipas de investigação são agora a candidatura a outros prémios, tornar mais abrangente o escopo do estudo, verificar a razão de haver uma acumulação de ferro no córtex pré-frontal do cérebro e o motivo por que o stress favorece isso.

“E se se pensar também que todas as decisões que tomamos na vida são tomadas num contexto que é stressante para nós, esta investigação poderá realmente explicar melhor determinados tipos de comportamento ou decisões que os indivíduos tomam”, concluiu a investigadora.

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