Intervenção social

Projeto solidário premiado ensina crianças dentro e “fora de portas”

Uma visita à Praça do Natal, em Gaia, que incluiu descidas por pistas de gelo artificial, ajuda as crianças a conhecerem coisas novas, a alargarem horizontes e a descobrirem O Seu Lugar no Mundo. FOTO: DR/OMeuLugarNoMundo
Uma visita à Praça do Natal, em Gaia, que incluiu descidas por pistas de gelo artificial, ajuda as crianças a conhecerem coisas novas, a alargarem horizontes e a descobrirem O Seu Lugar no Mundo. FOTO: DR/OMeuLugarNoMundo

Atividades natalícias, visitas a meios ligados às ciências e à natureza, tudo serve a'O Meu Lugar no Mundo para abrir horizontes aos miúdos do Bonfim

Chama-se O Meu Lugar no Mundo, existe há 5 anos e tem por missão arrancar as crianças dos meios mais vulneráveis do Bairro do Bonfim, no Porto, ao ciclo vicioso do insucesso escolar, futuro debilitado e exclusão social. Nas suas fileiras alinham várias dezenas de voluntários, todos estudantes universitários, que empregam o seu tempo e saber para ensinar alunos do 1º ao 3º ciclo e que, pelo meio, ainda vão concebendo atividades extracurriculares que ensinam e divertem. Na quadra natalícia, estas últimas multiplicam-se, juntando-se a outras que ocorrem ao longo do ano, sempre com o objetivo de abrir horizontes. O Meu Lugar no Mundo foi este ano distinguido com o Prémio de Voluntariado Universitário, iniciativa lançada há 3 anos pelo programa Santander Universidades.

“Normalmente, nas férias há sempre a preocupação de proporcionar um momento fora das nossas instalações, um momento que permita às crianças experienciarem novos contextos, novas coisas que ainda não tenham experimentado”, disse Cátia Oliveira, coordenadora do projeto O Meu Lugar no Mundo. “Por isso mesmo, aproveitamos aquilo que a nossa cidade nos tem dado e fomos até ao Porto Christmas Village e estivemos em Gaia, na Praça do Natal”, acrescentou.

Mas não é só lá fora que o Natal chega até estas crianças. Dentro das salas de O Meu Lugar no Mundo a quadra chega cedo, com os miúdos a criarem presentes com materiais recicláveis, nas atividades de Educação Ambiental, a verem filmes de Natal e a discutirem os sentimos e valores visados pelo mesmo, na Educação Emocional, e a cozinharem cupcakes (ou queques, na versão portuguesa) natalícios, na Educação Alimentar. Depois estes últimos, hão de compor a mesa da Festa de Natal, onde às crianças se juntam os pais e muitos dos colaboradores de O Meu Lugar no Mundo.

Mas afinal o que é O Meu Lugar no Mundo? “É um projeto de intervenção social que trabalha com crianças e jovens que vêm de contextos socioeconómicos vulneráveis”, explicou a sua coordenadora, Cátia Oliveira. “Atuamos na área do sucesso escolar, através da promoção de ferramentas e estratégias para o estudo, e no desenvolvimento de competências transversais.”

Quer isto dizer que a ação de O Meu Lugar no Mundo não se limita a ajudar as crianças nos seus estudos, nem se contém dentro das salas onde se desenvolve. Do programa normal do projeto faz parte “a educação emocional, a educação para os direitos humanos, a ambiental, a financeira e temos também algumas parcerias já estipuladas: por exemplo, temos uma parceria com a MEDesTu que vem às nossas instalações desenvolver atividades com eles e, da mesma forma, com o projeto TISP [Teacher In-Service Project] pertencente ao IEEE [Institute of Electrical and Electronical Engineers], numa parceria com a Faculdade de Engenharia”, informou Cátia Oliveira.

Inês Valdrez (à dta), uma das voluntárias do projeto numa das atividades que ocupam as pausas letivas. Como os responsáveis do projeto dizem, o objetivo é alargar os horizontes dos miúdos, "peça fundamental na missão de ajudar as crianças a sonharem com mundos maiores". FOTO: DR/O Meu Lugar no Mundo

Inês Valdrez (à dta), uma das voluntárias do projeto numa das atividades que ocupam as pausas letivas. Como os responsáveis do projeto dizem, o objetivo é alargar os horizontes dos miúdos, “peça fundamental na missão de ajudar as crianças a sonharem com mundos maiores”. FOTO: DR/O Meu Lugar no Mundo

As crianças chegam às salas de O Meu Lugar no Mundo através das parcerias constituídas com a Escola Fernão de Magalhães do ensino básico e com o Gabinete de Ação Social da junta de Freguesia do Bonfim. “No fundo, são as professoras ou as técnicas do Gabinete de Ação Social que fazem o reencaminhamento das crianças que apresentam dificuldades na aprendizagem e cujas famílias não têm capacidade financeira para pagar outro tipo de serviços”, explicou Cátia Oliveira.

A coordenadora contou que quando os miúdos chegam ao Meu Lugar no Mundo muitas vezes é preciso começar pelas bases que não tiveram na pré-infância. Por isso, parte do trabalho dos voluntários é ensinar às crianças como “a utilizar as ferramentas que estão disponíveis”, isto é, como usar um dicionário, como recorrer à internet ou de que forma é que se encontram as respostas num livro, disse.

Na apresentação que Cátia Oliveira e os seus colaboradores fizeram durante a sua candidatura aos Prémios de Voluntariado Universitário 2018, foi referido que O Meu Lugar no Mundo consegue uma taxa de redução de reprovações dos seus miúdos na escola da ordem dos 93%.

Isto significa que há casos mais complicados, como a própria coordenadora admite, em que o trabalho de O Meu Lugar no Mundo parece não estar a resultar. Quando tal acontece, o projeto faz o reencaminhamento das crianças para outras entidades, nomeadamente para a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, se for caso disso, disse.


“O objetivo é dar a estas crianças, que estão completamente fechadas no contexto de bairro e que, em termos de vivências, são pouco ricas, a oportunidade de aumentarem, alargarem os seus horizontes”

Para realizar a sua missão, O Meu Lugar no Mundo conta com a ajuda de “mais de seis dezenas de estudantes do ensino superior” – à exceção da própria Cátia Oliveira, que é já uma assistente social diplomada – que voluntariamente cedem parte do seu tempo para ensinar e ajudar crianças do 1.º ao 3.º ciclo do ensino básico. E são universitários que não se restringem a uma só faculdade ou área do conhecimento, sublinha Cátia Oliveira. “Trabalhamos com voluntários da Faculdade de Engenharia (FEUP) e da Faculdade de Economia (FEP) da Universidade do Porto, da Católica, da Universidade de Psicologia do Porto, da Portucalense, e temos alunos também de Direito, entre outros – são imensos, de facto.”

Os horários funcionam ao estilo dos de um centro ATL (Atividades de Tempos Livres), isto é, com base nos horários da escola. “Quando as crianças têm tardes livres, vêm para as nossas instalações, onde dinamizamos o apoio ao estudo, o apoio psicopedagógico”, disse Cátia Oliveira. Aí, há um programa de estudo e atividades contínuo durante o ano letivo, a que se juntam-se outras quando as aulas cessam. “Desenvolvemos atividades, dependendo da altura e das necessidades que vão surgindo, com as parcerias que vamos constituindo. É no período de férias que desenvolvemos maior número de atividades, de forma a trabalhar as competências transversais” das crianças.

“Para além da continuidade do nosso programa de ação, temos previstas uma série de saídas, porque é precisamente nas saídas fora de portas, como nós vulgarmente lhes chamamos, que encontramos a maior riqueza”, garantiu a coordenadora. “O objetivo é dar a estas crianças, que estão completamente fechadas no contexto de bairro e que, em termos de vivências, são pouco ricas, a oportunidade de aumentarem, alargarem os seus horizontes”, explicou Cátia Oliveira.

Foi neste âmbito que o Prémio de Voluntariado Universitário (PVU) do Santander Universidades – que é acompanhado por um valor monetário de 3.000 euros – veio mesmo a propósito, como a coordenadora já tinha reconhecido logo no dia em que foram anunciados os vencedores e que agora reiterou. Com ele vai ser possível realizar visitas fora do Porto que há muito estavam pensadas e nunca puderam ser concretizadas.

“Temos previsto uma visita a Aveiro, um peddypaper em Guimarães, e (há muito tempo que ansiávamos isto) uma visita ao Oceanário a Lisboa. Em Aveiro, queremos ir ver as salinas e a Fábrica da Ciência, precisamente porque isto vai responder a uma das nossas ações durante as férias que é, precisamente, a Ciência com os Miúdos, em que eles desenvolvem atividades ligadas à ciência – experiências laboratoriais e afins.”

OMeuLugarÉ por isto que Cátia Oliveira afirma que gostaria que houvesse mais prémios no horizonte para O Meu Lugar no Mundo em 2019 e garante que não vai parar de se candidatar. Quem sabe não acontece outra surpresa, como a conquista do PVU? “O prémio foi uma grande surpresa para nós, não porque não tenhamos tentado anteriormente – porque efetivamente temos vindo a tentar uma série de candidaturas –, mas porque foi a primeira vez que, no fundo, reconheceram o mérito àquilo que nós fazemos”, voltou a referir Cátia Oliveira. “E foi uma lufada de ar fresco por termos noção que vamos conseguir concretizar estas ideias que tínhamos em mente, estas visitas, que podemos levá-los para fora do Porto, para eles viverem novas experiências”, disse. “Principalmente para os mais velhos, que começam a terminar o seu percurso aqui e, portanto, fechamos com chave de ouro o percurso deles”, concluiu.

Para 2019, a perspetiva é a continuação da ação habitual de O Meu Lugar no Mundo e da criação de outras atividades extracurriculares. E até já há planos. “No final do próximo ano, há também uma vontade da parte dos miúdos – porque isto é tudo pensado com eles: nós vamos suscitando a curiosidade e eles depois vão sugerindo os sítios que querem ir ver – e há a perspetiva de podermos ir também à Serra da Estrela para ver a neve, que a maioria dos miúdos nunca viu”, contou a responsável.

Por tudo quanto O Meu Lugar no Mundo consegue realizar junto das crianças de meios vulneráveis e das suas famílias, diz Cátia Oliveira que são muitos os agregados familiares a solicitar acesso para os seus filhos. Mas “ficam em lista de espera, porque não conseguimos dar-lhes resposta, por uma questão de espaço, logística, de falta de recursos humanos remunerados – porque é tudo trabalho de voluntariado e é preciso alguém a coordenar”, explicou. A expansão é, por isso, uma questão que há muito está a ser considerada, disse a responsável. “Há também uma vontade da Junta de Freguesia poder fazer com que nós estejamos presentes em outras escolas e que demos resposta às necessidades de crianças de outras zonas do Bonfim”, revelou. Em termos imediatos, no entanto, O Meu Lugar no Mundo vai continuar a agir como até aqui.

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