IV Encontro de Reitores

“Temos alunos do século XXI e professores do século XX”

António Vieira Monteiro (à direita), presidente do Banco Santander Portugal, e António Fontainhas Fernandes, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, comentaram as conclusões e a razão de ser do Encontro de Reitores. FOTO: Diana Quintela / Global Imagens
António Vieira Monteiro (à direita), presidente do Banco Santander Portugal, e António Fontainhas Fernandes, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, comentaram as conclusões e a razão de ser do Encontro de Reitores. FOTO: Diana Quintela / Global Imagens

A revolução digital e os seus desafios para as universidades, alunos e professores esteve em destaque no Encontro de Reitores

O lema foi “Universidade, Sociedade e Futuro”, por isso os mais de 700 reitores reunidos em Salamanca nos dias 21 e 22 de maio, no IV Encontro de Reitores Universia, discutiram como ajudar estas instituições a serem agentes de fomento da igualdade e coesão social e a sobreviverem ao impacto da revolução digital. Este último ponto foi também o tema que deu azo a um dos momentos mais originais do evento, com o reitor da Universidade do Porto a relatar “um dia na vida de um estudante de 2030”. A relevância do evento e o imperativo da inovação e internacionalização das universidades, foram outros tópicos comentados por responsáveis do Banco Santander, entidade criadora da plataforma Universia, de quem partiu a iniciativa.

Nestas reuniões “pensa-se o futuro, pensa-se aquilo que é a universidade, qual é o papel da universidade em termos do futuro, quais são as principais tarefas que a universidade vai ter e qual é a sua ligação à sociedade civil”, explicou António Vieira Monteiro, presidente do Banco Santander Portugal, à margem do IV Encontro de Reitores Universia 2018.

A ideia foi concretizada pela primeira vez em 2005, quando a plataforma Universia – da iniciativa do Banco Santander – primeiro organizou este evento em Sevilha. De lá para cá, já houve mais três megaencontros de responsáveis máximos das instituições de ensino superior ibero-americanas: em Guadalajara, em 2010, no Rio de Janeiro, em 2014, e este ano em Salamanca.

Mas afinal o que é a Universia, entidade que concebeu este evento? “É um portal universitário onde todas as áreas da universidade podem pôr as suas ideias, pôr aquilo que pensam, os seus trabalhos, os seus desenvolvimentos”, explicou Vieira Monteiro. “E é, para além disso, um elemento fundamental de aproximação das várias universidades. Hoje, a Universia é, se calhar, o maior portal universitário que existe no mundo e, mais importante que isso, é um portal de língua espanhola e de língua portuguesa”, concluiu.

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Relevância e metas da reunião de reitores

De todos os Encontros de Reitores Universia saíram conclusões e resoluções que têm ajudado a lançar as universidades, o seu ensino e a sua investigação, para o futuro. O evento deste ano não foi exceção, pelo menos na opinião do presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP).

“O Encontro de Reitores Universia, de Salamanca, sublinhou assuntos fundamentais da agenda do ensino superior e da ciência, designadamente em termos de aceleração da inovação e da globalização, da centralidade do conhecimento na melhoria da qualidade de vida e da preparação dos jovens para um mundo em permanente mudança”, afirmou António Fontainhas Fernandes, comentando a Carta ou Declaração de Salamanca, que reuniu as conclusões dos dois dias de debate entre reitores e especialistas.

António Fontainhas Fernandes, presidente do CRUP, analisou as conclusões do IV Encontro de Reitores Universia 2018. FOTO: Diana Quintela / Global Imagens

António Fontainhas Fernandes, presidente do CRUP, analisou as conclusões do IV Encontro de Reitores Universia 2018. FOTO: Diana Quintela / Global Imagens

O académico, que além de presidente do CRUP é também reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), destacou “duas notas” em particular: “a importância das tendências tecnológicas e sociais no modelo educativo e de funcionamento das Universidades” e a contribuição que estas instituições podem dar para sanar as desigualdades sociais.

Relativamente a este segundo ponto, o presidente do CRUP afirma que “os objetivos do desenvolvimento sustentável devem ser um dos focos centrais da política universitária, incluindo dinâmicas de cooperação social, de acesso e equidade, de internacionalização e de inovação, contribuindo de forma clara para o desenvolvimento social e territorial”.

Quanto ao primeiro ponto, Fontainhas Fernandes enumerou as “ações relevantes” que são sugeridas no documento final do encontro “no domínio da flexibilização e aplicação de métodos inovadores dos processos organizativos e administrativos” e “das ofertas de formação e de capacitação ao longo da vida na área das ciências computacionais, da inteligência artificial e das ciências dos dados”.

Da mesma opinião partilha Marcos Soares Ribeiro, diretor-coordenador do Santander Universidades. “O que acaba de ser aqui discutido entre os reitores mostra bem a relevância da inovação e da internacionalização, que vão ser aspetos-chave que as universidades vão ter de endereçar”, sublinhou o responsável. “Todo o desafio que a sociedade está a impor sobre as universidades é enorme nestas duas matérias e urge que as universidades se adaptem a estes desafios”, concluiu.

Defendendo a flexibilização dos modelos de formação e da certificação dos estudantes (ver vídeo acima), Marcos Soares Ribeiro chamou a atenção para “um aspeto fundamental” e que, afirmou, “tem sido reiteradamente referido por todos os apresentadores e pensadores que aqui trazemos, a este encontro”: referia-se à “componente humana e de valores, que deve ser desenvolvida e completada no âmbito universitário”.

Alunos do futuro com professores do passado

Já Sebastião Feyo de Azevedo, reitor da Universidade do Porto, que foi membro do Comité Académico do IV Encontro de Reitores e que, por isso, ajudou a definir os eixos de discussão do evento, coloca a sílaba tónica no impacto da transformação digital na universidade. “Temos alunos do século XXI e ainda temos alguns professores do século XX”, disse Feyo de Azevedo. Razão porque está satisfeito por ver estatuído na Carta de Salamanca a questão da maior capacitação (ou upgrade) dos professores e da adaptação da universidade. “Os meios da universidade já não são os meios do anfiteatro do passado”, afirmou.

O responsável máximo da Universidade do Porto, que participou no debate com o tema “Formação e aprendizagem face ao impacto digital”, teve das intervenções mais originais do IV Encontro de Reitores. O professor imaginou como seria “um dia na vida de um estudante em 2030”.

Nesta realidade futura, cinco pessoas, de ambos os sexos e com idades, gostos, tendências, aspirações e necessidades diferentes, vão-se entrecruzando não apenas devido aos seus interesses e objetivos comuns, como pela atuação do seu assistente digital. Este organiza o dia de cada um, sugere passos necessários a dar para bem cumprir os compromissos profissionais e pessoais agendados e prevê as necessidades a que é preciso prover – como, tendo em conta o programa diário de cada um, certificar-se de onde é possível almoçar ali por perto, informar do menu disponível e fazer a respetiva reserva.

O reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo de Azevedo, teve das intervenções mais originais do IV Encontro de Reitores de Salamanca. FOTO: Diana Quintela / Global Imagens

O reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo de Azevedo, teve das intervenções mais originais do IV Encontro de Reitores de Salamanca. FOTO: Diana Quintela / Global Imagens

Depois, como a incorporação de funções de comunicação por voz na maioria dos equipamentos tornara obsoletos os telemóveis e os tradicionais óculos haviam sido substituídos por lentes de realidade aumentada, os assistentes digitais mantinham-se atualizados e a par de toda a informação recebida pelos seus utilizadores – fosse através de estudo, leitura, conversas, aulas, reuniões ou a simples vivência do dia a dia –, pelo que a preparação de relatórios e documentos ou a sugestão de onde obter dados e informação adicionais também recaía sobre o eficiente assistente digital. E quanto às reuniões, aulas, conferências ou até conversas românticas podiam ser mantidas em salas virtuais, com cada um dos seus intervenientes confortavelmente instalados nos locais mais díspares.

Este grau de conetividade – que permite a participação em tempo real em diálogos à distância – e o ambiente descrito estão “longe de ser uma utopia”, garantiu o professor e reitor Feyo de Azevedo. Os chamados ambientes virtuais e imersivos só não são possíveis devido “à falta de integração entre as soluções já existentes”, assegurou, “e à inércia com que a comunidade universitária (incluindo os estudantes) se opõe a esta mudança já anunciada”. “Uma coisa, porém, é certa: ela irá acontecer e as instituições de ensino superior precisam de se preparar rapidamente”, concluiu.

Por isso, o académico defende que o modelo académico deve refletir uma realidade dual – com “oferta integrada de formação on-campus e online” –, que “a capacitação dos professores exige uma interação contínua, mas também meios materiais e incentivos” e que “o desenho dos espaços, a arquitetura dos campi, deve refletir a nova realidade”.

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