IV Encontro de Reitores

Declaração de Salamanca define o caminho para a universidade do século XXI

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Encontro de Reitores no Palácio de Congresso de Castela e Leão ditou guias-mestras para as universidades se manterem na vanguarda do conhecimento

Potenciar o capital humano das universidades, fomentar alianças e o trabalho em rede entre diversas entidades e, por fim, abraçar a transformação digital e bem gerir o seu impacto na sociedade. São estas as três grandes linhas de orientação que ficaram cimentadas na Declaração de Salamanca, o documento final que reuniu as conclusões de dois dias de discussão e reflexão por parte de mais de 700 reitores acerca da universidade ibero-americana do século XXI. O IV Encontro de Reitores Universia 2018 terminou esta terça-feira no Palácio de Congressos de Castela e Leão e, depois da inauguração de Marcelo Rebelo de Sousa e do rei de Espanha, foi encerrada pelo presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy.

Foi precisamente com uma referência àquele que foi o primeiro tema em debate no congresso – “Formação e aprendizagem num mundo digital” – que o chefe do Executivo espanhol encerrou o IV encontro de Reitores. Depois de rasgados elogios à excelência da Universidade de Salamanca, que comemora este ano o seu 800.º aniversário, e ao ensino superior espanhol, Mariano Rajoy afirmou: “As novas tecnologias e a digitalização já não são o futuro, são o presente”.

Por isso, uma das linhas de atuação firmadas na Declaração de Salamanca, que devem guiar a conduta das universidades do mundo latino aquém e além Atlântico para os próximos anos – pelo menos até 2025, altura em que ocorrerá o próximo Universia –, é estas contribuírem para levar mais longe a revolução digital e bem gerirem o seu impacto na sociedade.

A transformação social, disse na sessão de encerramento Ana Botín, presidente da plataforma Universia e do Banco Santander – entidades organizadoras do megaencontro que, desde 2005, vai já na sua quarta edição –, tem “um impacto que não é só económico, alcança também âmbitos sociais mais vastos”. Declarando-se “grande defensora da inovação e do progresso tecnológico”, a responsável defendeu ser preciso equilibrar os efeitos positivos que deles resultam para a humanidade com as suas consequências negativas, numa ótica de crescimento sustentável e inclusivo.

Fomentar alianças

Outra das linhas de atuação definidas na Declaração de Salamanca é a necessidade de fomentar alianças e o trabalho em rede entre vários tipos de instituições de ensino, empresas e outros agentes. Curiosamente, quer o coletivo dos reitores reunidos, quer Mariano Rajoy ou Ana Botín, concluíram e avançaram nas suas considerações finais ideias que haviam sido defendidas pelo Presidente português no discurso de inauguração do evento.

“A universidade tem de estar aberta aos problemas económicos, sociais e culturais. Assim como há uma economia 4.0, deve haver uma universidade 4.0” – disse o Presidente da República na segunda-feira, referindo-se à chamada “quarta revolução Industrial”, que envolve tecnologias como a automação de tudo (ou quase tudo), a internet das coisas, a inteligência artificial e a troca de dados utilizando sistemas de computação em nuvem.

Aliás, revelando profunda noção do estado de coisas no mundo académico e universitário, o Presidente português pareceu já saber na altura da inauguração do Encontro de Salamanca, as conclusões a que chegariam os seus cerca de 700 colegas catedráticos… e isto, ainda antes de terem tido início as discussões dos reitores.

O auditório do Palácio de Congressos de Castela e Leão, em Salamanca, foi pequeno para os académicos e outros interessados nos debates do IV Encontro de Reitores Universia. FOTO: Universia

O auditório do Palácio de Congressos de Castela e Leão, em Salamanca, foi pequeno para os académicos e outros interessados nos debates do IV Encontro de Reitores Universia. FOTO: Universia

“Estamos a formar [pessoas] para um novo tempo e para um novo espaço, para um mundo em que a constante é o câmbio, a mudança e a antecipação”, garantiu Marcelo Rebelo de Sousa, que de seguida concretizou melhor a sua ideia. “Antecipação com novas redes, novos métodos, com capacidade de ver e planear a médio e longo prazo, com políticas públicas de consenso de regime, que não mudem com cada governo, com cada legislatura, com cada orçamento – [antecipação] com horizonte de futuro.” E concluiu: “Porque educar não é tarefa de um governo, de um político, de um partido, de um sindicato, de uma confederação patronal, nem sequer de país só. Educar é um desafio universal, hoje.”

Já como exemplo de uma aliança entre os meios académicos e outras entidades que lhe são externas, Ana Botín referiu a que existe entre o Banco Santander e as universidades. “Esta aliança é hoje mais forte do que nunca e, como prova disso, nos próximos três anos mais de 200 mil estudantes receberão uma bolsa Santander, conseguirão um estágio numa PME e participarão em programas de empreendedorismo liderados pelas vossas universidades e apoiados pelo Santander”, disse dirigindo-se aos mais de 700 reitores presentes.

Um facto com que concordou o reitor da Universidade de Salamanca, Ricardo Rivero. No seu discurso de encerramento do evento de que foi anfitrião, o responsável disse que “o Santander é hoje a empresa que mais investe na educação no mundo inteiro”.

Depois, mais uma vez fazendo eco das palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, a presidente da Universia afirmou que a educação faz cair preconceitos e abre as mentalidades. “(…) Os extremismos e populismos combatem-se com mais e melhor educação e não com menos”.

Potenciar o capital humano

A terceira guia que as universidades ibero-americanas devem seguir daqui para a frente prende-se com o desenvolvimento de estratégias e métodos que permitam tirar maior partido das aptidões de cada um. E isso passa pela alteração dos métodos de ensino, de modo a permitir que os estudantes ganhem competências diversas e sólidas com formações superiores que não os obrigam necessariamente a ficar “amarrados” a uma frequência de cinco ou seis anos numa faculdade.

Assim, além da necessidade de flexibilizar e aplicar métodos educativos inovadores, as universidades terão de oferecer formas híbridas de formação – que não apenas a habitual e longa licenciatura –, mais adaptada às necessidades do estudante e ao longo de toda a sua vida, e criar modelos novos e alternativos de certificação académica que possam ser aceites no mercado de trabalho.

A par da sua missão de formação, concluíram os académicos na Carta de Salamanca, as universidades devem prosseguir com a nobre função da investigação, que “tem sido e deve continuar a ser um dos seus pilares estratégicos”.

“A investigação e muito importante, porque é preciso sermos capazes de gerar conhecimento”, pelo que “as universidades devem encontrar o equilíbrio entre a investigação e o ensino”, foi concluído. E a par desta preocupação, é preciso que as instituições de ensino superior percebam que “há outros organismos, tanto públicos como privados, que são hoje em dia agentes ativos da investigação”, com os quais devem interagir e colaborar.

O IV Encontro de Reitores, cuja celebração coincidiu com o VIII Centenário da Universidade de Salamanca e que teve por lema “Universidade, Sociedade e Futuro”, reuniu mais de 700 responsáveis máximos de instituições do ensino superior de 26 países, representando perto de 10 milhões de estudantes.

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