Preservação do oceano

Curso de Verão Ocean Alive alia desporto, cultura e ciência

Raquel Gaspar e três alunos estudam um mapa do Estuário do Sado durante um dos cursos de verão do Ocean Alive. FOTO: D.R./Ocean ALive
Raquel Gaspar e três alunos estudam um mapa do Estuário do Sado durante um dos cursos de verão do Ocean Alive. FOTO: D.R./Ocean ALive

Inscrições terminam já a 20 de maio e, pela primeira vez, o curso dirige-se a universitários. 15 vagas têm direito a Bolsa Santander

E se houvesse uma forma de estudar o mar, as espécies marinhas e a conservação do oceano e, ao mesmo tempo, fazer atividades físicas, como nadar, andar de barco, fazer snorkeling e observar golfinhos? É tudo isto, e mais ainda, que oferece o curso de verão de ciência marinha da Ocean Alive – ou mais precisamente, o Ocean Alive Summer Course –, uma iniciativa organizada em parceria com o Instituto Politécnico de Setúbal (IPS) e o programa Santander Universidades, que este ano, pela primeira vez, é direcionado aos estudantes universitários nacionais e estrangeiros. As inscrições terminam no próximo dia 20 de maio e esta 4.ª edição do curso vai decorrer entre 8 e 19 de julho.

“O programa do curso tem um conjunto diversificado de ambientes de aprendizagem, sejam eles em aula, sejam de laboratório ou em visitas de estudo – ao estuário do Sado, nomeadamente”, diz Raquel Gaspar, bióloga marinha e cofundadora do Ocean Alive, uma “cooperativa de educação marinha” que lançou em 2015 juntamente com três outras cientistas. “O que é inovador é que nós cruzamos atividades culturais e desportivas como uma forma de conseguir dinâmicas que favorecem a aprendizagem”, explicou. [Ver vídeo mais abaixo].

Ao longo de 10 dias, num total de 80 horas, os estudantes inscritos vão fazer, por exemplo, recolhas de fitoplâncton marinho, com redes próprias, andando de kayak, visitas às pradarias marinhas do Estuário do Sado fazendo snorkeling e atividades na praia como forma de observarem a biodiversidade. Depois vem a análise em laboratório das recolhas feitas, visando exercícios como as estimativas do carbono azul capturado nas pradarias, por exemplo.

O curso de verão da Ocean Alive está previsto para 20 participantes, 15 dos quais terão direito a bolsas Santander Universidades – 12 pelo valor integral, três com uma comparticipação de 1.000 euros.

Fund Ocean Alive RGO que é inovador é que nós cruzamos atividades culturais e desportivas com a ciência para conseguir dinâmicas que favorecem a aprendizagem”, diz Raquel Gaspar, bióloga marinha e cofundadora da Ocean Alive

Raquel Gaspar diz ter consciência de que este curso tem um custo elevado para os estudantes portugueses – 1.500 euros –, mas a Ocean Alive, além dos conhecimentos científicos transmitidos por especialistas (que, no final, garantem 3 créditos ECTS de formação a cada participante), assegura o transporte a partir do aeroporto para quem vem de fora, as refeições, o alojamento e os equipamentos necessários, como os fatos de mergulho e as máscaras de snorkeling. “A única coisa que têm de ter é mesmo um computador deles, mas isso todos os estudantes têm”, diz. Por isso, salienta, é que é tão importante a parceria com o Santander Universidades, diz: é que ao garantir um mínimo de participantes, viabiliza a realização do curso.

A inscrição é simples: basta aceder à página dedicada, preencher o formulário próprio e anexar os documentos pedidos.

“O que torna este curso único é propor aos estudantes uma experiência que complementa e enriquece os seus conhecimentos académicos com a vivência de um projeto de conservação em que há o envolvimento da comunidade local”, sublinha Raquel Gaspar. Isto é, além da componente educativa e lúdica do curso que criou, existe também uma vertente cultural: os estudantes vão conviver, por exemplo com a comunidade piscatória e com aquelas a quem a Ocean Alive batizou de “Guardiãs do Mar”: mulheres-pescadoras que colaboram nos programas educativos, de sensibilização e de monitorização das pradarias marinhas.

Aliás, a responsável do Ocean Alive salienta que além da formação educativa ou científica, outro dos objetivos do seu curso marinho de verão é fornecer aos estudantes, tal como a sua organização o tem feito com os pescadores e com as Guardiãs do Mar, ferramentas para, enquanto cidadãos, poderem fazer a recolha de dados e ajudar a ciência.

Chama-se a isto, frisa Raquel Gaspar, citizen science, ou, em português, ciência cidadã. “Basicamente, é a participação dos cidadãos na recolha de dados; é tirar partido de oportunidades que têm pessoas que andam à beira mar ou, por exemplo, que estão a andar no seu barco que, se encontrarem um golfinho, têm consigo uma boa máquina fotográfica e podem tirar uma fotografia e essa imagem, imaginemos, de uma barbatana, uma vez identificada por pessoas que a conhecem, pode dar indicações sobre a localização do animal, sobre a sua existência, sobre a sua presença/ausência num determinado dia”, explica a bióloga marinha.

Raquel Gaspar e as Guardiãs do Mar, velando pela limpeza das praias e do oceano. Foto: Gustavo Figueiredo / Fundação Yves Rocher

Raquel Gaspar e as Guardiãs do Mar, velando pela limpeza das praias e do oceano. Foto: Gustavo Figueiredo / Fundação Yves Rocher

A foto-identificação é apenas uma das técnicas de ciência cidadã ensinada no Curso de Verão da Ocean Alive. E os vários dados recolhidos no terreno, não só durante os cursos, mas ao longo de todo o ano, “alimentam” o programa que a Oceans Alive tem em colaboração com o CCMAR – o Centro de Ciências do Mar, da Universidade do Algarve.

“O programa científico da Summer School é com o Instituto Politécnico de Setúbal; o do terreno, de acompanhamento das pradarias marinhas é com U.Algarve. E nós estamos a fazê-lo graças a um projeto que temos, da National Geographic”, explica Raquel Gaspar que ganhou uma bolsa desta organização e é agora exploradora da National Geographic.

“O grande fator de diferenciação do nosso curso relativamente a outros é dar uma experiência viva aos estudantes, permitindo-lhes entrarem num projeto de conservação do oceano que tem símbolos icónicos como o cavalo-marinho e golfinhos, mas mostrando que estes animais – que são tão emblemáticos e queridos das pessoas – dependem de um determinado habitat e que é possível proteger esse habitat com a comunidade”.

A Ocean Alive é um sonho meu – eu vivo para impactar os jovens na proteção do oceano. O meu trabalho é este, é a minha missão, o meu grande cunho”

A preservação do oceano e, em particular, a das pradarias marinhas do Estuário do Sado, é a principal missão da Ocean Alive. Daí o assestar da mira do curso para o segmento dos estudantes universitários. “Pela urgência da questão das alterações climáticas e, sobretudo, pela urgência de procurarmos soluções inovadoras para o paradigma que é termos de alterar o nosso dia a dia para irmos mais ao encontro da sustentabilidade, decidimos dar este passo”, explicou Raquel Gaspar. “Porque estes jovens estarão dentro de muito pouco tempo no mercado de trabalho, muitos até com ideias pioneiras em startups e nós procuramos jovens que ambicionem uma carreira futura na criação de ideias que resolvam conflitos que estão a afetar a sustentabilidade do oceano”, concluiu.

Por isso, confessa a cientista, “era muito interessante termos jovens de várias áreas, porque, basicamente, o que nós queremos é que eles sintam o conflito entre as necessidades do oceano, para se manter saudável, e as necessidades das pessoas e que se sintam impelidos a criar carreiras para procurar soluções que compatibilizem estas duas necessidades, que façam o equilíbrio”.

O que Raquel Gaspar e a Ocean Alive pretendem com os seus cursos de verão é “inspirar os estudantes”. E a julgar pelas reações dos participantes nas três primeiras edições – apesar de até agora terem sido sempre estudantes do secundário –, não será difícil atingir tal meta. “No final, sinto que as pessoas ficam fascinadas, o oceano não é mais indiferente para elas e que algumas delas tomarão esse caminho nas suas vidas”, diz a bióloga e conta alguns casos: “Uma das miúdas que fez o Summer Camp não sabia nadar, porque era de uma zona interior dos EUA, e hoje faz filmes em que relata o quão marcante foi esta experiência para ela. Temos umas miúdas que criaram uma ONG – porque a questão do lixo marinho é aquilo que mais nos marca – como resultado final, com um site e tudo, e até lançaram a ideia de que em cada país houvesse um feriado para que as pessoas pudessem apanhar o lixo da praia”.

A carregar player...

Para inspirar os participantes no curso de verão de ciência marinha, Raquel Gaspar conta com a paixão pelo mar que têm os membros da Ocean Alive, nomeadamente ela própria. “A Ocean Alive é um sonho meu – eu vivo para impactar os jovens na proteção do oceano. O meu trabalho é este, é a minha missão, o meu grande cunho”, confessa.

A bióloga, que cresceu numa a aldeia perto de Leiria – “onde o único jornal que havia era o Além-Mar” – e andou num colégio de freiras, apaixonou-se pelo mar a ver aos domingos o programa do oceanógrafo francês Jacques Cousteau. Depois da licenciatura foi para os Açores oferecer-se como voluntária ao Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW, na sigla inglesa), “que estava lá com um veleiro a investigar os cetáceos”. O doutoramento veio fazê-lo sobre golfinhos, no Estuário do Sado, trabalhou na Reserva Natural que aqui existe durante vários anos e anda há mais de 20 a monitorizar esta população que conta agora 27 animais.

“Através do doutoramento, quando estudei os golfinhos do Estuário do Sado, percebi que a forma de ajudar a população destes animais a sair do declínio em que se encontrava era proteger o habitat da qual ela depende, que são as pradarias marinhas”, contou Raquel Gaspar. “Portanto, o Ocean Alive nasce sobre a necessidade de ajudar os animais, que foram os meus primeiros filhos”, disse a bióloga que é hoje já mãe de três filhos.

 

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
(TIAGO PETINGA/LUSA)

Procuram-se especialistas para indústria em alto voo

LISBOA, 02/05/2019  - Convidado do programa “A Vida do Dinheiro” - António Bernardo
(João Silva/Global Imagens)

António Bernardo: “O modelo económico e social europeu é um modelo de futuro”

Certificados

Famílias investiram uma média de 3,3 milhões por dia em certificados este ano

Outros conteúdos GMG
Curso de Verão Ocean Alive alia desporto, cultura e ciência