Conferências do Estoril

Aposta na educação é a chave para tornar o mundo mais justo

Pedro Almeida (à esq.) e Javier Roglá Puig, respetivamente da Teach for Portugal e da organização global Teach for All, revelaram dados surpreendentes sobre a educação e pobreza nos dois países ibéricos. FOTO: D.R. / Santander Universidades.
Pedro Almeida (à esq.) e Javier Roglá Puig, respetivamente da Teach for Portugal e da organização global Teach for All, revelaram dados surpreendentes sobre a educação e pobreza nos dois países ibéricos. FOTO: D.R. / Santander Universidades.

Educação, pobreza global e direitos e deveres humanos foram temas debatidos por oradores internacionais na 10ª edição das Conferências do Estoril

A educação pode mesmo mudar o mundo, tornando-o mais justo e sustentável. Esta foi apenas umas das conclusões que ficaram da 10ª edição das Conferências do Estoril, que além da educação e da crise global da aprendizagem, ainda focaram temas como os direitos e deveres humanos, a justiça climática ou a pobreza global. Organizadas com o apoio do Santander Universidades, a iniciativa decorreu no campus da Nova SBE, em Carcavelos, entre 27 e 29 de maio.

Tendo por tema a concretização da justiça global, através do cultivo da justiça local, logo no primeiro dia a tónica recaiu sobre a educação e a injustiça que se abate sobre milhões de crianças e adultos, que veem as suas perspetivas de futuro arruinadas só porque não têm, ou não tiveram, acesso à educação. E quem lançou esta ideia foi Javier Roglá Puig, um dos administradores da Teach for All.

“A educação é a arma mais poderosa que se pode ter no mundo.” Foi com esta citação de Nelson Mandela e avançando que há “262 milhões de crianças que não vão à escola e muitas, muitas mais que não têm acesso à qualidade de educação que merecem” que Pedro Almeida, CEO do Teach for Portugal, lançou o debate com o administrador da Teach for All, Javier Roglá Puig, que é também diretor global do Santander Universidades.

A Teach for All é uma rede de 50 organizações independentes, geridas localmente – entre as quais se integra a Teach for Portugal –, que têm por missão expandir as oportunidades de educação no mundo inteiro, de modo a garantir que todas as criança realizam o seu potencial. Com a presença dos responsáveis das “versões” portuguesa e global desta instituição nas Conferências do Estoril, em causa estava perceber como é que se pode resolver a crise global de aprendizagem identificada pelo Banco Mundial num relatório de 2018.

“O primeiro passo é mostrar que há uma injustiça enorme em curso”, afirmou Javier Roglá Puig, cujo envolvimento com a educação já vem de longe – embora a Teach for All seja completamente independente, este responsável não apenas é o diretor do Santander Universidades, como é, além disso, diretor executivo da Universia Holding, uma rede de mais de 1.000 universidades e o maior programa de apoio privado ao ensino superior, que é também pertencente ao Santander.

“Em Espanha, as crianças de meios desfavorecidos têm seis vezes mais probabilidades de fracassar na escola”, disse o responsável espanhol. E “20% a 25% dos jovens [espanhóis] entre os 18 e os 24 anos não trabalham, nem estudam – é um quarto de uma geração inteira que tem um futuro muito sombrio pela frente”, afirmou Roglá Puig.

Pedro Almeida contou nas Conferências do Estoril que foi por causa da Teach for All Espanha e de Javier Roglá Puig que ele e a mulher fundaram em Portugal a congénere da organização espanhola. FOTO: D.R. / Santander Universidades

Pedro Almeida contou nas Conferências do Estoril que foi por causa da Teach for All e de Javier Roglá Puig que ele e a mulher fundaram em Portugal a congénere daquela organização global. FOTO: D.R. / Santander Universidades

Por seu lado, Pedro Almeida, da Teach For Portugal, avançou que “as crianças portuguesas das classes sociais mais baixas têm cinco vezes mais probabilidades de repetir o ano”. Segundo o responsável, a Teach for Portugal fez as contas e isto equivale a “52%, ou seja, mais de metade das crianças desfavorecidas portuguesas vão repetir o ano só por causa do meio de onde vêm: dos seus pares, da família, dos sítios onde nasceram”, frisou.

Javier Roglá Puig referiu que muitas pessoas acreditam que este é um problema sem solução, mas o potencial que se está a perder em todo o mundo é demasiado importante para que nada se faça. “Assistimos à ascensão do populismo na Europa, à ascensão de uma geração inteira de pessoas que não acredita no futuro, que se agarra a soluções e mensagens simplistas. Tudo deriva da educação e de criar competências e esperança para o futuro”.

Só que, como afirmou o Banco Mundial no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2018, ir à escola não é sinónimo de aprender. Apesar de nas últimas décadas se ter registado um imenso aumento do acesso à educação em todo o mundo, centenas de milhões de crianças atingem a idade adulta sem as mais básicas aptidões, como fazer trocos, ler uma receita médica ou compreender os horários dos autocarros, diz-se no relatório.

A solução para este problema pode ser mais fácil de encontrar do que se julga, afirma o responsável da Teach for All. “Uma coisa que me surpreendeu foi que quando se vai a escolas de meios desfavorecidos na Índia, em Angola, em Espanha, em Portugal, os problemas que estas crianças enfrentam são muito semelhantes e isso significa que as soluções também são partilháveis”, disse.

O administrador da Teach for All Espanha, Javier Roglá Puig, diz que as soluções para a crise global de aprendizagem são partilháveis pelo mundo inteiro. FOTO: D.R. / Santander Universidades

O administrador da Teach for All, Javier Roglá Puig, diz que as soluções para a crise global de aprendizagem são partilháveis pelo mundo inteiro. FOTO: D.R. / Santander Universidades

Mais ainda, os desentendimentos entre nações não parecem conseguir travar estas medidas. “Há organizações do Paquistão aos EUA, do Líbano a Israel, da Índia ao Paquistão… são governos que nem se falam, mas cujas organizações partilham as mesmas práticas”, afiançou Roglá Puig.

Por isso, a resposta da Teach for All é simples: criar uma nova liderança que lute para inverter a situação. “Precisamos levar os nosso lideres mais brilhantes e empenhados a envolverem-se na solução deste problema. Não apenas políticos, mas professores, universidades… o problema é multifacetado e precisamos de líderes de vários meios”, disse Roglá Puig. É isso que a Teach for All está a fazer, garantiu.

O responsável contou que a sua organização vai a sítios como a Nova SBE e tenta captar os melhores para ensinarem nas escolas durante dois anos, em vez de irem para empresas, consultoras, ou bancos. “60% ou 70% dos nossos fellows tornam-se professores [em nome da sua organização]. No final, só 10% pensam ficar a ensinar, mas os restantes vão para a política ou tornam-se empreendedores sociais, por considerarem que é aí que podem ajudar a mudar as coisas”. Com isto, a Teach for All já tem uma rede de 14.000 fellows e e mais de 67 mil alumni em todo o mundo que fizeram o mesmo programa.

Chumbar na escola é cinco vezes mais provável para as crianças portuguesas provenientes de meios desfavorecidos”, Pedro Almeida, Teach for Portugal.

Por cá, disse Pedro Almeida que “a Teach for Portugal decidiu alinhar atores para resolverem o problema juntos”. E que atores são esses? “Câmaras municipais, ministros da Educação, diretores de escolas e alunos para perceber como abordar o problema, como eles o encaram e como o esperam resolver”, disse. E a sua atuação já está a começar a dar frutos. “O primeiro grupo de changemakers vai entrar na escola em setembro”, revelou.

O seu congénere, Roglá Puig, defende que se acreditarmos nas crianças desfavorecidas elas vão corresponder ao que delas se espera, concretizando aquilo que o responsável apelidou de “Efeito Pigmaliónico”. “As expectativas do sistema quanto a estas crianças podem fazer a diferença”, disse.

Veja aqui a mensagem de Javier Roglá Puig

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É por isso que perante uma plateia cheia de académicos, empresários e muitos estudantes, Roglá Puig instou, sobretudo os jovens que vão agora iniciar carreira, a dedicarem dois anos à Teach for All. Sublinhando que aquilo que as grandes empresas podem oferecer também a sua organização o faz – “à exceção do salário, mas o que é que isso importa, certo?” disse num apontamento de humor – Javier Roglá Puig enumerou as vantagens de aderir à sua organização.

“A Teach for All oferece propósito: cada minuto do dia é importante. Depois oferece liderança em ação: quando se ensina é-se responsável pelo futuro. Por fim, faz um investimento maciço no desenvolvimento dos seus fellows e na sua formação de líderes – e durante dois anos.” Segundo Roglá Puig, quem passa pela “escola” Teach for All fica pronto a enfrentar qualquer problema e organização do mercado. “Não há nada como isto” concluiu.

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