EIA 2019

Os três “treinadores” que tomam o pulso ao dia-a-dia na EIA

Os life Coaches da EIA 2019, (da esq. para a dta.) Demetre Balaktsis, Nancy Rasmussen e Jorim Holtey-Weber, com bom humor e competência profissionais desativam os potenciais conflitos entre 500 participantes com culturas e hábitos muito diversos.
Os life Coaches da EIA 2019, (da esq. para a dta.) Demetre Balaktsis, Nancy Rasmussen e Jorim Holtey-Weber, com bom humor e competência profissionais desativam os potenciais conflitos entre 500 participantes com culturas e hábitos muito diversos.

São apenas três, pedagogos sociais e psicólogos especialistas em comportamentos humanos que vão espoletando os potenciais conflitos na EIA

Como é que se põem 500 pessoas de diversas nacionalidades, culturas e idiomas a trabalhar em conjunto de forma eficiente e sem conflitos? É nisto que reside um dos segredos para o sucesso da Academia Europeia de Inovação (EIA, na sigla inglesa). E para garantir que esta harmonia se verifica, a autoproclamada maior aceleradora de startups digitais da Europa – que este ano pela terceira vez voltou, até 2 de agosto, ao Centro de Congressos do Estoril, com o apoio de parceiros vitais, como o Santander Universidades – emprega as especiais aptidões dos chamados life coaches, especialistas em psicologia e comportamento humano que vão “tomando o pulso” ao quotidiano da EIA.

São 100 equipas de cinco elementos. Cinco estranhos que se conheceram há pouco mais de duas semanas e de quem se espera que, até esta sexta-feira, levem a bom termo um projeto feito a partir do zero até à sua concretização numa possível startup viável. Para tal é preciso consenso entre pessoas que têm convicções e pontos de vista mais e menos profundos, métodos de trabalho diferentes, abordagens diversas à resolução de problemas. É natural, portanto, que ao longo das três semanas de duração da Academia em Cascais ocorram de facto problemas.

“A dinâmica de equipa é o principal problema que surge”, afirma Nancy Rasmussen, um dos elementos da equipa de life coaching de serviço permanente na EIA de Cascais. “Quando se juntam cinco personalidades diferentes, cinco estranhos que nunca se viram antes, obtém-se todo o tipo de combinações de química pessoal”, diz a especialista.

Nancy Rasmussen, de 64 anos, é mestre em pedagogia social e conselheira de crianças e jovens na Harker School de San Jose, na Califórnia. Mas a especialista conta que não é tanto nesta sua experiência – que começa em idades de creche e termina nas do secundário – que se inspira para o seu trabalho na EIA. Habituada a gerir conflitos e a fazer aconselhamento numa prisão feminina da Califórnia e na comunidade de jovens sem abrigo e fugidos de casa, é com destreza que vai lidando com as questões que se levantam na EIA.

NRQuando se juntam cinco persona-lidades diferentes, cinco estranhos que nunca se viram antes, obtém-se todo o tipo de combinações de química pessoal”, Nancy Rasmussen.

“Às vezes as pessoas reunidas nas equipas conseguem trabalhar bem juntas, outras, obtém-se um grupo que é difícil. É aí que os outros membros da equipa vêm ter comigo a dizer: ‘Estamos a ter problemas com esta pessoa. Pode ajudar-nos?'”, conta Nancy Rasmussen. Na maioria dos casos, diz, os problemas expostos têm que ver com a equipa e o trabalho, mas às vezes são assuntos pessoais. “Esta abordagem de questões pessoais não acontece com tanta frequência como os pedidos de ajuda por causa da dinâmica de equipa, mas, à medida que o programa se vai aproximando do fim, as duas vertentes tendem a sobrepor-se”.

Ao lado de Nancy Rasmussen, a velar pela harmonia na EIA estão Demetre Balaktsis, um canadiano de 53 anos, também ele pedagogo social e instructional designer (criador de experiências de aprendizagem que resultem na aquisição efetiva de conhecimento e aptidões), e Jorim Holtey-Weber, 27 anos, psicologo alemão a viver em Portugal, especializado na capacitação de pessoas quanto às suas qualidades e aptidões e na psicologia de negócios e da consultoria.

Procurando pequenos sinais

Entre os três, o consenso quanto ao método de trabalho parece ter sido automático: em lugar de ficarem estáticos no espaço criado para os life coaches, vão vogando pela vasta sala, sempre de olho nos comportamentos e à caça de vestígios de situações que possam deflagrar em conflito. E também não ficam à espera que os jovens venham ter com eles.

“Nós iniciamos, literalmente, um contacto, tomamos o pulso às equipas: ‘Como vai tudo por aqui?’, perguntamos. Mas estamos à espreita de comportamentos não-verbais, é assim que apanhamos uma data de coisas”, explica Demetre Balaktsis. “Muitos miúdos esperam até que seja demasiado tarde, quando a situação já está realmente dolorosa no grupo antes de virem ter connosco, por isso, nós tentamos chegar lá mais cedo e minorar o problema”, acrescenta.

DBÉ quando eles [os partici-pantes] encalham que o life coach consegue ajudá-los a desen-calharem”, Demetre Balaktsis.

Tal como Nancy, também Demetre identifica a dinâmica da equipa como a maior dificuldade entre os 500 participantes na EIA. “A maior parte do problema tem que ver com a falta de consenso no seio das equipas quanto à tomada de decisão relativa à ideia de negócio, à solução proposta, quanto a qual a atitude a tomar, como agir para avançar com o seu negócio e arcar com a carga de trabalho que isso implica”, refere o especialista. “Portanto, do meu ponto de vista, embora nós tenhamos problemas relacionados com as personalidades de cada um, por norma eles giram em torno de como fazer para levar eficazmente avante o trabalho. É quando eles encalham que o life coach consegue ajudá-los a desencalharem”, explica Demetre Balaktsis.

Não são muitas as vezes que os life coaches testemunham em direto o deflagrar de um conflito, mas Jorim Holtey-Weber conta que este ano já lhe aconteceu. “Tive uma situação assim. Ia a passar e reparei numa discussão bastante acesa. Aproximei-me e disse-lhes: ‘Olá, pessoal. Posso interromper-vos?’ E eles quase que suspiraram de alívio. Foi como se tivesse desarmadilhado uma bomba. Era uma coisa relacionada com trabalho, mas havia questões pessoais por trás”, contou Jorim.

“É sempre algo que tem a ver com o facto de as pessoas terem as suas próprias convicções e valores, pelo que, num ambiente de trabalho, há choques com outros por causa disso. Portanto, é um assunto de trabalho, mas também pessoal”, acrescentou.

O trabalho em equipa entre centenas de pessoas que não se conhecem pode ser difícil. FOTO: Orlando Almeida / Global Imagens

O trabalho em equipa entre centenas de pessoas que não se conhecem pode ser difícil. FOTO: Orlando Almeida / Global Imagens

O domínio do inglês

Ao contrário do que seria de esperar, com cinco centenas de pessoas vindas de todas as partes do globo e tendo em conta os extremismos do mundo atual, não são as convicções filosófico-religiosas que dão origem a preconceitos na EIA. “Noto mais o surgimento de problemas porque alguém tem um domínio deficiente do inglês, ou está ali a meio de ter um bom domínio, ou tem um sotaque fora do comum ou carregado. A perceção, às vezes, é que essa pessoa não é tão conhecedora do assunto ou que não vai contribuir tanto quanto as outras para o trabalho da equipa, o que é falso”, afirma Demetre Balaktsis.

“É aí que se começa a ver um pouco que a dinâmica entre as pessoas muda, que alguém vai ficando isolado ou que não estão a atribuir credibilidade suficiente às suas opiniões, que não lhe estão a ligar muito”, conta o life coach canadiano. O que se faz neste caso?

A forma como cada participante fala e domina o inglês pode gerar preconceitos. FOTO: Ciano Vetromille / EIA 2019

A forma como cada participante fala e domina o inglês pode gerar preconceitos. FOTO: Ciano Vetromille / EIA 2019

Demetre – e os seus dois colegas acenam a cabeça em concordância – entabula então conversa com a equipa. Uma conversa aparentemente inócua, mas feita de modo a fazer sobressair o elemento semi-ostracizado, demonstrando de forma flagrante as aptidões e perícia dessa pessoa e levando todos os elementos presentes e reconhecê-las também.

Depois há os teimosos. Aqueles que não abrem mão das suas convicções e pontos de vista, impedindo que se chegue a um consenso e que o trabalho da equipa avance. “Sim, aparecem-nos muito, os teimosos”, diz Nancy Rasmussen. “Isso afeta toda a equipa e nós temos de trabalhar sorrateiramente com o teimoso, sem que ele se aperceba de que é o ‘filho’ problemático dentro da equipa”, explica. Diz Demetre Balaktsis que tal acontece, sobretudo, quando os elementos estão muito equiparados em termos de aptidões e competências, quando não há um deles com especiais conhecimentos que possa arrastar os outros atrás.

Há ainda outra fonte de problemas identificada por Jorim Holtey-Weber. “Reparei que parte dos conflitos que acontecem nos grupos tem que ver com o facto de algumas pessoas serem muito autónomas e responsáveis, enquanto há outras que estão cristalizadas naquela mentalidade de escola: ‘Diz-me o que fazer e eu faço'”, conta. “Isso cria choques enormes, porque estas pessoas, com esta mentalidade, não assumem autonomia nem responsabilidade, não são verdadeiramente proativas e isso gera tensão em toda a equipa”, conclui o especialista.

Mentalidade de escola

Apesar de todo o potencial de conflitos que a vastidão e diversidade da EIA proporciona, quem entra no Centro de Congressos do Estoril o que mais ouve são risos e conversas entusiasmadas; e o que mais observa é o trabalho concentrado dos participantes, a par dos jogos e brincadeiras daqueles que optaram por fazer um intervalo para descomprimir – afinal não há horários a cumprir e a própria organização da EIA põe à disposição mesas de pingue-pongue e cantos acolhedores com pufes que convidam ao descanso e às pequenas tertúlias.

E em quatro anos de realização da Academia Europeia de Inovação, em cinco cidades diferentes – Nice, Turim, Cascais, Hong Kong e Doa -, que envolveram milhares de participantes, houve apenas uma única vez que a organização se viu obrigada a convidar um estudante a abandonar a EIA.

JHWReparei que parte dos conflitos que acontecem nos grupos tem que ver com o facto de algumas pessoas serem muito autónomas e responsáveis, enquanto há outras que estão cristalizadas naquela mentalidade de escola: ‘Diz-me o que fazer e eu faço'”, Jorim Holtey-Weber

No final, passadas apenas três semanas de trabalho, todas as equipas têm um projeto de startup pronto a arrancar, caso conquistem o apoio financeiro para isso, e não há participante que não reconheça o quanto aprendeu, em termos profissionais e pessoais. “Sim, no final, já se nota uma diferença de postura, mesmo essas pessoas [com comportamentos mais escolares] cresceram”, dizem Jorim e Nancy. “Vão-se embora e dizem: ‘Eu aprendi muito. Penso que há algumas coisas acerca de mim próprio que vou ter de repensar’”, conta Demetre.

Segundo o life coach canadiano, “a EIA tem uma abordagem muito boa que é atirá-los [aos participantes para a fogueira e deixá-los debaterem-se até perceberem e encontrarem soluções”. Depois há uma outra abordagem, relata Demetre Balaktsis, para aqueles que nunca tiveram qualquer contacto com gestão de produto, que consiste dar-lhes algumas ferramentas logo no início e, ainda assim, lançá-los à fogueira. “Nessa luta, nesse debater ocorre uma aprendizagem imensa e, no final, eles agradecem”, afirma.

Por isso, feitas as contas aos problemas e às mais-valias da EIA que conselho fica? “Que venham. Venham de mente aberta. Não, não vão ser só rosas o tempo inteiro, mas isso faz parte da labuta, faz parte da vida. Além de que a EIA é aquilo que fizerem dela: façam dela umas três semanas fantásticas, porque têm aqui profissionais especializados que estão a voluntariar o seu tempo para trabalhar com eles. E eles vão divertir-se muito e, pelo meio, vão aprender muito, porque é uma experiência muito educativa”, afirma perentória Nancy Rasmussen.

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