EIA 2019

EIA encontra uma solução para ajudar a integração de refugiados

Israa Ali, 19 anos, refugiada síria nos EUA e estudante de Engenharia Aeroespacial, trouxe novas ideias à EIA 2019 para ajudar a resolver o problema dos imigrantes e refugiados.
Israa Ali, 19 anos, refugiada síria nos EUA e estudante de Engenharia Aeroespacial, trouxe novas ideias à EIA 2019 para ajudar a resolver o problema dos imigrantes e refugiados.

A presença de Israa Ali, refugiada síria nos EUA, numa equipa da EIA 2019 deu origem a um projeto inovador para aproveitar as aptidões dos refugiados

Encontrar respostas para os grandes problemas dos dias de hoje é uma das metas a que se propõe a Academia Europeia de Inovação, a aceleradora de startups digitais cujas três semanas de duração estão prestes a terminar – na próxima sexta-feira, 2 de agosto – no Centro de Congressos do Estoril. A questão da vaga de refugiados e imigrantes, que ocorre um pouco por todo o mundo, não podia deixar, por isso, de ser um tema presente neste evento. Até porque entre os seus 500 participantes figura, pelo menos, uma refugiada cuja experiência de vida serviu de inspiração para um dos projetos criados na EIA 2019.

Chama-se Israa Ali, é de origem afegã e libanesa, mas já foi nascer na Síria, país cujo estado de guerra obrigou a sua família a procurar refúgio nos Estados Unidos. Com 19 anos, Israa – que chegou aos EUA em 2007, quando tinha 7 anos – estuda Engenharia Aeroespacial na Universidade de Michigan. Na sua perspetiva, ser engenheira sem ter noção de como funciona o mundo dos negócios não faz sentido, por isso, acolheu de bom grado a oportunidade de participar na EIA.

“Inscrevi-me porque gosto de experimentar coisas novas e queria ter conhecimentos da área da indústria dos negócios, uma vertente que é uma parte importante de se ser engenheiro, penso eu. Portanto, vim sobretudo para aprender”, conta Israa Ali.

A futura engenheira conta que lançar um empresa ou startup sua, ainda que ligada à engenharia aeroespacial, nunca foi sua intenção, mas admite que está a começar a pensar nisso, depois de tudo o que aprendeu na EIA.

Israa Ali afirma que sente ter de trabalhar mais arduamente do que os colegas, por ser refugiada e mulher.

Israa Ali afirma que sente ter de trabalhar mais arduamente do que os colegas, por ser refugiada e mulher.

Com a leveza típica da sua jovem idade, Israa avalia a Academia de Inovação como um programa “fixe”, mas depois concretiza: “Implica muito trabalho e aprendi muito em três semanas, especialmente, nas iniciais – aprendi imenso com os oradores que por cá passaram, porque foi como um curso rápido e intensivo de gestão de negócios e empresas, conhecimento que eu não tinha antes. Ensinou-me muito.”

O trabalho aturado é algo que não a assusta. Enquanto refugiada e mulher num curso em que predominam estudantes do sexo masculino – “90% dos alunos do meu curso são homens e brancos”, revela -, Israa Ali diz sentir que tem de trabalhar mais que os seus colegas. “Mas deixei de ligar às dificuldades e vou em frente”, afirma, decidida.

Além disso, há também a vertente familiar. “A minha família está muito aberta a deixar-nos fazer aquilo que gostamos de fazer, mas há uma pressão muito grande para termos bons resultados, porque os meus pais arriscaram tudo para nos trazerem para um país seguro”, conta a jovem.

“Hoje somos quatro irmãos, mas quando viemos éramos três: os meus pais e três filhos. O meu irmão mais novo nasceu já nos EUA. Portanto, penso que nós três, os mais velhos, sentimos maior pressão para termos êxito, por causa do risco que eles correram e pela oportunidade que nos foi dada de termos uma vida segura na América”, acrescenta.

Tal como Israa, o irmão e a irmã mais velhos também estudaram – a irmã, por exemplo, acaba de se licenciar e está a trabalhar como assistente de investigação na Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan, a fazer investigação sobre a saúde relacionada com refugiados, imigrantes e comunidades marginalizadas.

Na perspetiva de Israa, a sua experiência pessoal e a da sua família – tendo vindo de um país e cultura diferentes e passado pelo que passaram quando fugiram da Síria – pode ajudar a conceber formas inovadoras e mais bem informadas de ajudar as comunidades de refugiados e imigrantes. “Conheço muita gente aqui na EIA que não está a par da realidade que fica para além das ‘bolhas’ em que vivem. Portanto, acho que trazer esse conhecimento até à EIA, onde todos interagem uns com os outros, é benéfico”, garante.

E foi isso mesmo que Israa Ali acabou por fazer. Quando o mentor a cargo da sua equipa achou desinteressante a ideia de negócio que se propunham desenvolver, pediu a cada um dos seus membros que pensasse em problemas que tivesse enfrentado na sua vida e apresentasse uma ideia para o resolver. Foi assim que nasceu o projeto Homano.

Conheço muita gente aqui na EIA que não está a par da realidade que fica para além das ‘bolhas’ em que vivem. Portanto, acho que trazer esse conhecimento até à EIA, onde todos interagem uns com os outros, é benéfico”, Israa Ali

“Eu apresentei a ideia que tive e a minha equipa ficou interessada, por isso avançámos com ela”, conta a jovem. O problema por ela apresentado foi: “Todos os refugiados e imigrantes chegam aos EUA e as aptidões e qualificações académicas que trazem do passado são negligenciadas ou mesmo ignoradas. A maior parte deles tem de se contentar com empregos no setor do retalho, como serem caixeiros em grandes superfícies, por exemplo. Mas muitos deles têm formação académica, com mestrados e doutoramentos feitos e, no entanto, ficam presos em empregos não-qualificados, em que se estafam para tentar ganhar a vida e sustentar a família, sem nunca terem a oportunidade de tentar fazer reconhecer as suas qualificações ou fazer as equivalências com os cursos americanos, nem de continuarem a sua formação ou experimentarem uma profissão que os apaixone”.

Israa Ali conta que foi este o caso do pai. Jurista doutorado, está nos EUA há 12 anos e nunca viu as suas qualificações reconhecidas, pelo que só tem conseguido empregos não-qualificados no setor do retalho. “Infelizmente, o grupo da Agência de realojamento a que pertencemos, nos EUA, não estava a par das qualificações da minha família, nem fez nada para isso ou para ajudar”.

A app e plataforma Homano, que a sua equipa criou, além de transmitir informações úteis e dar a conhecer os aspetos mais importantes do novo país e cultura a que os refugiados e imigrantes chegaram, também permite ao utilizador validar a sua licenciatura e outras qualificações académicas ou verificar se é possível validá-la nos EUA. “Se a sua licenciatura não for reconhecida nos EUA, podem tirar cursos de equivalência nas faculdades locais, próximas da sua comunidade, sem terem de pagar propinas, porque também proporcionamos ajuda financeira. E com uma licenciatura validada podem encontrar empregos que os realizem profissionalmente”, explica Israa Ali.

Israa Ali (ao centro), com a sua equipa, os responsáveis pelo desenvolvimento do projeto Homano: (da esq. para dta.) Catarina Guzman, chilena, 21 anos; Gabriel Gamuth, brasileiro, 24 anos; Israa Ali; Filipe Farinha, 21 anos, português; e Yiannis Mavros, cipriota, 25 anos. FOTO: Álvaro Isidoro / Global Imagens

Israa Ali (ao centro), com a sua equipa, os responsáveis pelo desenvolvimento do projeto Homano: (da esq. para dta.) Catarina Guzman, chilena, 21 anos; Gabriel Gamuth, brasileiro, 24 anos; Israa Ali; Filipe Farinha, 21 anos, português; e Yiannis Mavros, cipriota, 25 anos. FOTO: Álvaro Isidoro / Global Imagens

As Agências de Realojamento que existem hoje em dia, nos EUA, ajudam a inserção dos refugiados e imigrantes nas comunidades locais. Essas agências, por exemplo, seriam potenciais clientes da app Homano. “Só que não as contactámos ainda”, conta Israa Ali. “Mas contactámos uma outra organização não-lucrativa que ficou muito satisfeita em poder integrar o nosso projeto no trabalho que já estão a desenvolver – eles já estão a fazer algo semelhante ao que nós propomos”, avança a jovem empreendedora.

A equipa de Israa Ali, tal como muitas outras da EIA 2019 – um evento que chegou a Portugal há 3 anos, com o apoio de parceiros como o Santander Universidades -, responde assim ao desafio lançado por Alar Kolk, presidente da Academia Europeia de Inovação logo no primeiro dia: “Têm de resolver um problema que afete milhares de milhões de pessoas”.

Quanto às jovens como ela – mulheres e refugiadas -, Israa Ali só tem uma mensagem a transmitir e um conselho a dar: “Não foi fácil para mim e para a minha irmã chegarmos a onde estamos hoje, mesmo com a abertura de mentalidades da minha família: tivemos de lutar por isso. Portanto, o que eu diria a jovens como eu é que têm de lutar, que não tenham medo de forçar a saída da “caixa” que família delas ou a sociedade ditou para elas e que as coisas acabam sempre por correr bem, se não se deixar de fazer força para isso”.

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