EIA 2019

Há cada vez mais mulheres na tecnologia, mas têm de trabalhar mais para singrar

As mulheres ainda enfrentam desigualdade de oportunidades no mundo tecnológico, nomeadamente a desconfiança quanto à sua competência. FOTO:  D.R./Pixabay
As mulheres ainda enfrentam desigualdade de oportunidades no mundo tecnológico, nomeadamente a desconfiança quanto à sua competência. FOTO: D.R./Pixabay

Num meio ainda dominado por homens é difícil as mulheres serem levadas a sério - têm de demonstrar bem que sabem

Numa era de suposta igualdade entre géneros, continua ou não a ser mais difícil às mulheres estabelecerem-se como empresárias e empreendedoras nas áreas tecnológicas? Aproveitando a Academia Europeia de Inovação, em curso no Centro de Congressos do Estoril durante três semanas, a pergunta foi colocada às mentoras e oradoras deste programa de inovação, mulheres que lançaram startups e que dão cartas no mundo da tecnologia. Das suas respostas resulta que a discriminação é velada, mas para elas é difícil serem levadas a sério.

“Ainda é difícil, isso é certo”, admite Zahra Tashakorinia, iraniana estabelecida em Silicon Valley, fundadora da Brightteal, Inc. e perita em produtos eletrónicos de consumo. “Se compararmos as duas situações, parece que os homens são mais bem aceites, podem ser mais insistentes e agressivos, enquanto as mulheres, se quiserem fazer o mesmo, não são levadas tão a sério como os homens.”

O ceticismo e a condescendência com que elas, ao início, são ouvidas ao falar de produtos tecnológicos estende-se a todos os quadrantes. “Infelizmente, quer parceiros quer clientes continuam a estar pouco recetivos a ouvir o que uma mulher tem a dizer acerca de um produto tecnológico ou a escutar a mensagem que querem transmitir nesta área”, lamenta Zahra Tashakorinia.

Alina Adams, aconselhando uma das equipas da EIA 2019. FOTO: D.R./Pedro Curto

Alina Adams, aconselhando uma das equipas da EIA 2019. FOTO: D.R./Pedro Curto

Para Alina Adams, empreendedora formada em Física Aplicada e que é fundadora e CEO da Artveoli, uma empresa de biotecnologia sediada em Silicon Valley, “há uma perceção de que é um meio do domínio dos homens”. Além disso, “as mulheres não têm hipóteses iguais quando tentam lançar-se”. Por isso, diz Alina Adams, as mulheres “têm de se esforçar e trabalhar mais para singrar no mundo tecnológico”, nomeadamente quando “trabalham com clientes ou consumidores, veem-se na contingência de ter de provar mais a sua competência, de estabelecer uma reputação de credibilidade para conseguir validar as suas tecnologias”.

Na opinião de Zahra Tashakorinia, “elas têm de acreditar em si próprias e imporem-se nos meios tecnológicos, estar mais presentes nesse campo”. E acrescenta: “Embora eu trabalhe na área de Silicon Valley, continuamos a ter este rácio de duas mulheres por cada equipa de dez homens, que continua a ser muito baixo.”

ZahraHá uma oportu-nidade de o conseguirem [ter êxito] e nós, como mulheres, se não nos impusermos, ninguém o fará por nós.”, Zahra Tashakorinia, fundadora de um startup de produtos eletrónicos de consumo e mentora da EIA.

Já Ana Santos, consultora e especialista em user experience – que tem por missão conquistar e fidelizar com o seu design de programas os clientes ou utilizadores de um site ou software -, que já passou pela Google, pela Springboard e lançou agora sua startup, a UX Lead – Iterateev, afirma nunca ter reparado em que a vida lhe fosse mais difícil por ser mulher. “No início da minha carreira talvez sentisse que não me levavam tão a sério, mas nunca senti que fosse por ser mulher, mas pela minha falta de experiência.”

Ana Santos e Alina Adam sublinham que as dificuldades que as mulheres podem sentir inicialmente ao enveredar por uma carreira tecnológica se desvanece com perseverança e a demonstração do seu valor.
“Há bons e maus exemplos que me ocorrem em que uma mulher é olhada com descrédito quando apresenta uma nova tecnologia, mas se for um produto bom, que resolva os problemas ou as necessidades de alguém e os clientes ficarem contentes, não lhes interessa realmente quem o fez”, garante Alina Adams.

Ana Santos já passou pela Google, pela Springboard e lançou a sua startup Iterateev, mas diz que só notou alguma relutância nos interlocutores por ter pouca experiência. FOTO: Orlando Almeida / Global Imagens

Ana Santos já passou pela Google, pela Springboard e lançou a sua startup Iterateev, mas diz que só notou alguma relutância nos interlocutores por ter pouca experiência. FOTO: Orlando Almeida / Global Imagens

“Depende muito do background, da experiência, do que está para trás, que experiência é que nós temos para poder afirmar o que estamos a dizer. Se houver argumentos para os factos que estamos a apresentar, acho que já ninguém liga a sermos ou não mulheres”, afirma Ana Santos.

Zahra Tashakorinia não é tão benevolente na sua apreciação da receção reservada às mulheres no mundo tecnológico, mas diz que só existe uma forma de combater isso: “Persigam a sua paixão e os seus sonhos. Elas não devem ter medo de não ter êxito só porque são mulheres – há uma oportunidade de o conseguirem e nós, como mulheres, se não nos impusermos, ninguém o fará por nós.”

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