EIA 2019

Um programa de inovação que faz crescer alunos e mestres

Na Academia Europeia de Informação havia "aulas de manhã, no auditório, e trabalho intenso à tarde. Na procura de novas soluções para os problemas que os estudantes levantam, até os mentores aprendem, garante quem sabe. FOTO: Ciano Vetromille / EIA 2019
Na Academia Europeia de Informação havia "aulas de manhã, no auditório, e trabalho intenso à tarde. Na procura de novas soluções para os problemas que os estudantes levantam, até os mentores aprendem, garante quem sabe. FOTO: Ciano Vetromille / EIA 2019

Após três anos de EIA, mentores portugueses observam uma nova mentalidade empreendedora e maior preparação

O clima do empreendedorismo em Portugal está a mudar para melhor: há mais empreendedores no país e os projetos lançados têm maior qualidade. Esta é análise que fazem Daniel Vila Boa e David Carvalhão, dois oradores e mentores-chefes da Academia Europeia de Inovação (EIA, na sigla inglesa), cuja 3.ª edição terminou ontem, após três semanas de intenso trabalho no Centro de Congressos do Estoril. Na opinião destes especialistas, também eles empresários-empreendedores, tal mudança deve-se não só mas em parte considerável à chegada da EIA a Portugal: uma academia de inovação e aceleradora de ideias onde a procura de soluções para problemas sem resposta obriga a crescer estudantes e mentores.

“Houve uma mudança positiva na mentalidade em Portugal em relação ao empreendedorismo, no geral”, afirma Daniel Vila Boa, fundador e CEO da Chilltime – empresa de criação de videojogos em plataformas globais, em que intervêm jogadores de muitas dezenas de países – e membro proativo do ecossistema de empreendedorismo do IST, onde estudou Engenharia Informática. Mentor-chefe da Academia Europeia de Inovação logo desde o início, há três anos, na sua opinião assistiu-se ao germinar do “conceito de que é possível criarmos empresas e o nosso emprego”.

David Carvalhão é fundador de 26 startups, diretor de Inovação da Vigil365 e mentor-chefe da EIA há 2 anos. FOTO: Orlando Almeida / Global Imagens

David Carvalhão é fundador de 26 startups, diretor de Inovação da Vigil365 e mentor-chefe da EIA há 2 anos. FOTO: Orlando Almeida / Global Imagens

Também David Carvalhão, empreendedor inveterado que já criou ou ajudou a criar 26 startups, e é cofundador e diretor de inovação da Vigil365, uma consultora de tecnologia sediada em Londres, afirma que “o empreendedorismo em Portugal tem vindo a melhorar bastante, particularmente em qualidade”. No seu entender, “nós já temos há algum tempo um número significativo de empreendedores. No entanto, a qualidade média das startups que tínhamos era relativamente fraca. Hoje nota-se que já há um apurar, um amadurecer do mercado, e que aquilo que aparece maioritariamente aos empreendedores já são projetos com uma maturidade e uma qualidade diferente, já com uma capacidade de fazer a diferença no mercado internacional”.

Maturidade, pelo menos quanto aos negócios, é também o que os estudantes universitários que participam na EIA dela retiram. Pelo menos, na opinião de Daniel Vila Boa. “[A EIA] é das coisas que eu mais gosto de fazer e isso tem que ver com a diferença que noto nos alunos antes e depois do programa: vê-se que ganham maturidade, no final, quando falam dos problemas, dos negócios e de todo o contexto que está à volta deles.”

E este é um processo de crescimento que é transversal a estudantes e a mentores, garante. “De cada vez que temos um problema para resolver, até dentro do próprio programa [a EIA], o facto de termos de pensar de uma forma criativa para arranjar uma solução leva a que nós, como empresários que somos, também vamos crescendo mais”, explica Daniel Vila Boa.

Daniel Vila Boa, fundador e CEO da Chill Time, é mentor da EIA desde que esta aceleradora chegou a Portugal. FOTO: Orlando Almeida / Global Imagens

Daniel Vila Boa, fundador e CEO da Chill Time, é mentor da EIA desde que esta aceleradora chegou a Portugal. FOTO: Orlando Almeida / Global Imagens

O impacto disto no clima de empreendedorismo português é que, segundo diz este mentor-chefe, já se “nota que as pessoas vêm mais preparadas para o programa”. E, fazendo um balanço dos três anos de EIA em Portugal, Daniel Vila Boa refere: “Tem havido projetos de áreas bastante distintas. Temos assistido à identificação de problemas e à criação de soluções que resolvem questões maiores, humanas, mas também temos visto outros que resolvem questões tecnológicas interessantes.”

Quanto a David Carvalhão, a maior diferença que diz sentir é que “até há três ou quatro anos, a maioria dos projetos tinham uma visão muito nacional, focavam-se muito no mercado português, e agora já existe a ambição de atacar o mercado global logo na fundação da empresa”.

Esta mudança de foco nota-se inclusivamente na EIA deste ano. “Nos anos anteriores talvez o foco fosse maior numa componente tecnológica – das inteligências artificiais, do blockchain, do processamento de imagem -, agora vemos mais uma aplicação dessas tecnologias a questões, na sua maioria, curiosamente, sociais.”

Perante tudo o que viram passar pela EIA em três anos de mentoria, quais são então os três projetos mais interessantes ou impactantes com que já se confrontaram os dois mentores? São tantos e tão diversos, que Daniel Vila Boa e David Carvalhão têm dificuldade em apontá-los, mas, com alguma insistência, lá apresentaram o seu top 3 (ver abaixo).

TOP – Os projetos mais fantásticos que já se lhes depararam

DANIEL VILA BOA
ReadHero – Uma aplicação para dar mais autonomia aos pais, desenvolvida na EIA deste ano. A aplicação permite tirar fotografias de um livro de leitura físico, interpretar o texto e avaliar a qualidade de leitura através do reconhecimento da voz, enquanto a criança lê. Permite aos pais perceber o progresso e qualidade de leitura da criança, além da deteção de possíveis problemas de dislexia, que segundo dados de uma professora da área, afeta uma em cada quatro crianças.

KODE4ALL – Um jogo que introduz os conceitos fundamentais de programação às crianças através de jogos lógicos, permitindo aprender a lógica de programação, sem ter de desenvolver o código, e preparando assim os programadores de amanhã.

ECO-5 – Power Burp – Dispositivo desenhado para ser instalado em vacarias e recolher o metano libertado pelo arroto e gases das vacas, para ser depois queimado e gerar eletricidade para alimentar as próprias quintas.

DAVID CARVALHÃO
O mais surpreendente
Smart Jockey – Sistema de monitorização de saúde para camelos de corrida. O mentor desconhecia, na altura, este mercado, mas pesquisou e descobriu que é símbolo de estatuto para árabes abastados terem camelos de corrida e realizarem competições. Como visava o mercado de luxo, este sistema era terrivelmente caro e seria vendido a apenas 10 pessoas por ano, e incluía um serviço de apoio veterinário prestado pelos três melhores veterinários de camelos do mundo. “Surpreendente até no modelo de negócio!”

O tecnologicamente mais interessante
Paper.ish – Pegando numa patente que ainda não está em utilização no mercado, a equipa conseguiu um acordo de utilização para criar papel compósito a partir do plástico mais comum (PET), o que não só permite a reciclagem deste tipo de plástico como o torna fotodegradável, ou seja, quando exposto à luz por longos períodos de tempo decompõe-se naturalmente. “Dada a recente consciência da sociedade em relação ao problema da utilização de plásticos e à ausência de alternativas viáveis à sua utilização na esmagadora maioria dos casos, tecnologias como esta terão que fazer parte da solução”, diz David Carvalhão.

O que melhor demonstra que não é preciso tecnologia para inovar
Fill Good Inc. – Projeto que procurava evitar o desperdício de embalagens de plástico associadas a champô, sabonete líquido e outros tipos de gel ou creme criando nos supermercado dispensadores destes produtos que permitissem a sua compra a granel e a reutilização das embalagens usadas. “Foi um projeto que despertou imenso interesse não só juntos dos consumidores como das grandes superfícies, que viram nesta solução a possibilidade de pouparem espaço e oferecerem um novo serviço aos seus clientes”, explicou David Carvalhão.

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