Investigação

Projeto inovador para tratar a água que consumimos ganha prémio

António Vieira Monteiro (à dta.), presidente do CA do Santander Portugal, e João Sáàgua, reitor da Nova de Lisboa, entregaram na quarta-feira o prémio às investigadoras (da esq. para a dta.) Vanessa Jorge Pereira e Ana Pimentel. FOTO: D.R. / Santander Universidades
António Vieira Monteiro (à dta.), presidente do CA do Santander Portugal, e João Sáàgua, reitor da Nova de Lisboa, entregaram na quarta-feira o prémio às investigadoras (da esq. para a dta.) Vanessa Jorge Pereira e Ana Pimentel. FOTO: D.R. / Santander Universidades

Prémio de Investigação Colaborativa Santander/Nova de Lisboa 2018/2019, que já vai na 12ª edição, foi entregue na 4ª feira a duas investigadoras

As investigadoras Ana Pimentel e Vanessa Jorge Pereira, que se juntaram para criar um método inovador para despoluir águas contaminadas com produtos químicos, foram as vencedoras da 12ª edição do Prémio de Investigação Colaborativa Santander / Nova de Lisboa. A cerimónia de entrega do galardão decorreu na quarta-feira, 18 de setembro, na reitoria desta universidade, em Lisboa.

As cientistas receberam o prémio das mãos do reitor da Universidade Nova, João Sáàgua, e de António Vieira Monteiro, presidente do Conselho de Administração do Santander Portugal, durante o 2º Encontro de Ciência da instituição, o NOVA Science Day 2019, apoiado pelo Santander Universidades. O evento contou também com a presença do ministro para a Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, e do presidente do Conselho Europeu de Investigação, Jean-Pierre Bourguignon, entre outros responsáveis.

“Este prémio é importante porque estimula a investigação colaborativa e interdisciplinar entre equipas diferentes de uma universidade, no caso a Nova, e eu acho que é essa a sua mais-valia”, comentou Vanessa Jorge Pereira.

Opinião que é partilhada pela sua colega de projeto, Ana Pimentel: “Uma das principais vantagens deste prémio é que conseguimos abrir uma colaboração com um outro centro numa nova área que nós aqui, no CENIMAT, não teríamos”.

Ana Pimentel é engenheira física, cuja especialidade são as Nanotecnologias e Nanociência, e investigadora do CENIMAT/I3N, da Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Nova de Lisboa. Vanessa Jorge Pereira, engenheira do ambiente, é investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB) – IBET, também da Universidade Nova.

A engenheira do ambiente Vanessa Jorge Pereira e a engenheira física Ana Pimentel exibindo o seu Prémio de Investigação Colaborativa. FOTO: D.R. Santander Universidades

A engenheira do ambiente Vanessa Jorge Pereira e a engenheira física Ana Pimentel exibindo o seu Prémio de Investigação Colaborativa. FOTO: D.R. Santander Universidades

As duas uniram os seus conhecimentos para criarem o PlaTiNa – Plataformas de baixo custo à base de nano-heteroestruturas de TiO2/WO3 para aplicar em fotocatálise. Traduzindo, o seu projeto pretende criar um método inovador para eliminar os poluentes farmacêuticos (como os antibióticos) e de pesticidas das águas residuais e da água potável.

Para isso, Ana Pimentel conta criar nano-estruturas que, quando agarradas a outra plataforma (papel ou plástico, por exemplo), possam funcionar como filtros e ser mergulhadas nas águas em tratamento. Já Vanessa Jorge Pereira e a sua equipa vão “testar e verificar se este processo pode ser eficaz para degradar ou remover da água vários poluentes químicos”.

“Da parte do CENIMAT, o que nos propomos fazer é desenvolver nano-estruturas, portanto, materiais à nano-escala. Neste caso, em particular, trata-se da produção de óxido de titânio que vai ser junto com óxido de tungsténio”, explica Ana Pimentel. Diz a investigadora que esta combinação – ou “heterojunção”, como designou o processo – é inédita, tal como também o é o processo como será feita: através de micro-ondas.

Quer seja criando membranas de nano-materiais que sirvam de filtros, quer seja revestindo com as novas nano-estruturas os reservatórios onde estão as águas, o objetivo é fazê-los reagir à energia solar e agarrar ou degradar as substâncias poluentes.

“A intenção é perceber a eficácia destes tratamentos na remoção de poluentes químicos como, por exemplo, os antibióticos, porque mesmo quando presentes na água em concentrações muito baixas podem contribuir para o aparecimento de resistências”, avançou Ana Pimentel.

Neste momento no mundo há 800 milhões de pessoas que ainda não têm um abastecimento de água seguro e daí a importância de se proceder a este estudo”, Vanessa Jorge Pereira.

Com “resistências”, a investigadora refere-se, no caso dos antibióticos, quer às desenvolvidas pelo corpo humano, que ao consumir as águas tratadas e distribuídas ganha imunidade aos fármacos e estes deixam de fazer efeito, quer às das próprias bactérias.

“Nós – a equipa do ITQB – vamos depois testar a eficiência destes tratamentos para remoção de diferentes poluentes”, explica Vanessa Jorge Pereira. “E um deles é, por exemplo, o antibiótico ciprofloxacina. O que é que acontece? Quando estes antibióticos começam a estar presentes no ambiente formam-se estas bactérias que têm resistência a antibióticos.”

Mira apontada às ETAR

Se o método propugnado pelo projeto que estão a desenvolver for bem-sucedido, diz Vanessa Jorge Pereira que “pode ser utilizado em ETAR, no tratamento de água residual, mas já final, depois de um tratamento prévio e antes da sua libertação; ou também pode ser utilizado em ETA, portanto, em estações de tratamento de águas para distribuição”.

A este propósito, Vanessa Jorge Pereira salienta que “neste momento no mundo há 800 milhões de pessoas que ainda não têm um abastecimento de água seguro e daí a importância de se proceder a este estudo, uma vez que a colaboração vai permitir testar materiais que já são usados normalmente, agora em novos poluentes das águas”.

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É que não são só os antibióticos que estão em causa, são também outros poluentes químicos, como os pesticidas, inseticidas e diferentes fármacos como os analgésicos, anticoncetivos, antiepiléticos e antidepressivos, que se mostraram resistentes aos tratamentos de água residuais.

“Diferentes países têm diferentes problemas”, sublinha Vanessa Jorge Pereira. “Portanto, nos vários sítios, e quer seja um espaço urbano, quer seja um espaço mais rural, podemos ter problemas diferentes. Estamos a falar aqui de um problema mais global, onde estes processos [de tratamento] poderiam ser utilizados, se se provarem ser eficazes”, conclui a investigadora.

É este trabalho que as equipas das duas investigadoras vão começar a desenvolver já a partir do início de 2020: testar se o método que propõem sempre vai conseguir operar a degradação ou remoção dos diferentes poluentes.

O objetivo depois é continuar com a colaboração, que eu acho que é mesmo um dos resultados mais importantes de termos ganho o prémio”, Ana Pimentel

Com a conquista do Prémio de Investigação Colaborativa Santander / Nova de Lisboa 2018/2019, o projeto das duas investigadoras arrecada o valor monetário de 25 mil euros, assegurado pelo Santander Universidades. Quantia que vai ser usada, revelam, pera reforçar a equipa e pôr uma pessoa dedicada aos testes, bem como dar apoio à produção e publicação de artigos científicos.

“O projeto está bastante no início, porque juntar estes dois materiais nunca tentámos”, disse Ana Pimentel, acrescentando: “Vamos começar em janeiro e esperamos ao longo de um ano, que foi o que nós propusemos, conseguir ter resultados positivos”. Se tal se verificar, “o objetivo depois é continuar com a colaboração, que eu acho que é mesmo um dos resultados mais importantes de termos ganho o prémio”, concluiu Ana Pimentel.

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