Investigação

Teses sobre energia solar, extração mineira e poesia vencem prémio científico

Centrais fotovoltaicas, edifícios de serviços e indústrias poderão beneficiar do que propõe uma das teses vencedoras. FOTO: Rui Oliveira / Global Imagens
Centrais fotovoltaicas, edifícios de serviços e indústrias poderão beneficiar do que propõe uma das teses vencedoras. FOTO: Rui Oliveira / Global Imagens

O prémio instituído há 10 anos pelo Banco Santander e a Casa da América Latina distinguiu este ano dois brasileiros e um português

Luís Fialho, Marcello Angotti e Camila Marchioro são os grandes vencedores do Prémio Científico Mário Quartin Graça 2019, uma parceria entre o Banco Santander e a Casa da América Latina, que celebra este ano a sua 10ª edição. Com as suas teses de doutoramento, os três investigadores destacaram-se dos mais de 90 candidatos seus concorrentes nestes galardões. Os prémios, que incluem um valor pecuniário de 5.000 euros para cada um, só serão entregues no mês de dezembro, numa cerimónia a decorrer em data e local a anunciar.

Desde o início que o Prémio Científico Mário Quartin Graça tem por meta promover o mérito das teses de doutoramento que resultam da colaboração entre universidades de Portugal e da América Latina, ou que têm especial interesse para tais instituições de ensino em ambos os lados do Atlântico. E desde o início que este mesmo prémio tem três categorias distintas.

Na Categoria de Tecnologias e Ciências Naturais, o vencedor foi o engenheiro português Luís Fialho, que com a tese que defendeu na Universidade de Évora procurou resolver o problema do armazenamento da energia fotovoltaica e, portanto, propôs uma nova maneira de o fazer. “A tese passou por pegar numa tecnologia inovadora de armazenamento de energia – as baterias de fluxo de vanádio (em que armazenamos energia num líquido, chamemos-lhe assim) – e aplicá-las a edifícios de serviços, a indústrias e mesmo em centrais fotovoltaicas”, explicou Luís Fialho.

Luís Fialho, doutorado na área de Engenharia Mecatrónica e Energia, propôs uma nova forma de armazenar energia solar. FOTO: D.R. / U.Évora

Luís Fialho, doutorado na área de Engenharia Mecatrónica e Energia, propôs uma nova forma de armazenar energia solar. FOTO: D.R. / U.Évora

E qual é a vantagem deste método? É que neste momento a tecnologia dominante do armazenamento de energia, segundo conta o engenheiro, baseia-se em baterias de iões de lítio, como as que temos nos nossos telemóveis e computadores, só que em tamanho gigante. “O grande problema que temos e com que todos os utilizadores se deparam relativamente a essas baterias é a degradação que elas têm com o tempo: se fizermos muitos ciclos de carga-descarga acabam por ter um tempo de vida de alguns anos apenas”, diz.

Ora, diz Luís Fialho, as baterias de vanádio, apesar de terem a desvantagem de serem mais volumosas – para o cidadão comum, por exemplo, não seriam muito práticas: numa vivenda ocupariam o espaço de uma garagem – não sofrem aquela degradação, portanto “têm um potencial de utilização muito mais elevado e um retorno económico muito mais interessante”. E foi isso mesmo que este investigador, doutorado em Engenharia Mecatrónica e Energia, propôs na sua tese “Conversão fotovoltaica com armazenamento de energia integrado em rede elétrica: modelação, simulação e experimentação”.

Na área da Contabilidade, Marcello Angotti, investigador da Universidade Federal do Rio de Janeiro – que fez um estágio de doutoramento no Instituto Politécnico de Leiria –, quis “desenvolver uma estrutura [contabilística] para a avaliação da sustentabilidade da indústria de extração mineral”, tentando com ela responder concretamente à questão de saber “se a sociedade teria os seus custos sociais contemplados nas transações comerciais de minério de ferro”. Foi uma abordagem inovadora que lhe valeu a conquista do Prémio Quartin Graça na categoria de Ciências Económicas e Empresariais.

Marcello Angotti aproveitou o seu doutoramento em Contabilidade para conceber um modelo contabilístico alternativo que imputa às contas das empresas de exploração mineiras o custos sociais da sua atividade. FOTO: D.R. / M. Angotti

Marcello Angotti aproveitou o seu doutoramento em Contabilidade para conceber um modelo contabilístico alternativo que imputa às contas das empresas de exploração mineiras o custos sociais da sua atividade. FOTO: D.R. / M. Angotti

Para desenvolver a sua tese de doutoramento, Marcello Angotti estudou a exploração mineira da região de Congonhas, em Minas Gerais, no Brasil, e os impactos que esta tem sobre a comunidade local. “O trabalho baseou-se numa abordagem pluralista com o foco de atender aos interesses dos utilizadores externos. Foi examinada a forma como as operações da mineração no município impactam os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”, explicou Marcello Angotti.

Foi assim que o investigador confirmou aquilo que, de certo modo, já sabia: que o preço do minério extraído reflete a dinâmica da oferta e da procura no mercado e cobre os custos de produção e logística, mas não tem em conta os impactos da sua atividade na sociedade. Algo que o fez decidir-se a procurar “examinar essas externalidades a fundo, identificando-as e realizando valorações qualitativas, quantitativas e monetárias”.

O resultado desta investigação foi a sua tese “Full cost accounting [contabilização dos custos totais] e contabilidade dialógica aplicados para avaliação da sustentabilidade da indústria da extração mineral em Congonhas”, em que Marcello Angotti apresenta “um modo alternativo à contabilidade tradicional para a valoração dos impactos sociais e ambientais”.

“Tendo em vista uma orientação dialógica, o modelo tem potencial para promover a conscientização dos impactos da mineração e o diálogo reflexivo entre os atores sociais, com potencial para contribuir para uma ação transformadora da realidade local”. Simplificando, o que Marcello Angotti propõe é que empresas mineiras e cidadãos entrem em diálogo de modo a que haja uma maior tomada de consciência dos custos sociais desta indústria, conduzindo a alterações nas formas de exploração e à eventual inclusão desses custos nas contas das empresas.

Isto é, na contabilidade normal destas empresas passaria a estar acautelado o seu impacto ou custo social, uma posição arrojada que levou o júri do prémio a destacar o “caráter inovador e disruptivo do trabalho” de Marcello Angotti.

Camila Marchioro, doutorada em Literatura Comparativa, fez uma comparação arrojada entre a poesia do português Camilo Pessanha e da brasileira Cecília Meireles. FOTO: D. R. / C. Marchioro

Camila Marchioro, doutorada em Literatura Comparativa, fez uma comparação arrojada entre a poesia do português Camilo Pessanha e da brasileira Cecília Meireles. FOTO: D. R. / C. Marchioro

Nas Humanidades, Camila Marchioro, da Universidade Federal do Paraná, em colaboração com a U. Porto e a Nova de Lisboa, fez o impensável: comparou dois poetas separados por um oceano e épocas diferentes. “A minha tese tem por objetivo demonstrar como a história portuguesa de contacto com os povos orientais e a tradição do mito do Oriente se configuram na poesia moderna de dois poetas específicos: Camilo Pessanha e Cecília Meireles”, disse. “A tese, portanto, estabelece relações entre Brasil e Portugal a partir desse viés”, rematou. Com esta abordagem inédita, Camila Marchioro venceu na categoria de Ciências Sociais e Humanas do Prémio Mário Quartin Graça.

O tema que a especialista em Literatura Comparada quis estudar foi recebido com estranheza no seu país natal. “No Brasil, encontrei alguma resistência, por serem dois poetas muito distantes no tempo e no espaço: um nascido no século XIX e morto no início do século XX; a Cecília Meireles, já do século XX, morreu em 1964. Não parecia algo muito óbvio, fazer essa relação”, contou.

Mas Camila Marchioro persistiu e, em Portugal, com acesso a mais material de Camilo Pessanha, levou os seus intentos avante. “Foi possível provar que essa obsessão com o Oriente realmente aconteceu, porque ambos tiveram um contacto muito grande com o Oriente – a Cecília Meireles com a Índia, o Camilo Pessanha com a China, especificamente com Macau”, explicou. “Isso, de alguma forma, foi absorvido por eles e colocado na poesia de cada um, cada qual a seu modo, mas usando motivos que são muito similares: o mar, a viagem, o exílio”, concluiu.

Balanço de 10 anos
de Prémios Científicos Mário Quartin Graça
+ de 30 prémios
637 candidaturas
8 países

Diz Camila Marchioro que nunca tinha encontrado nenhum trabalho que falasse sobre esta vertente e foram as conclusões desta investigação que apresentou na sua tese “Poesia do Indizível: Camilo Pessanha e Cecília Meireles em comparação” – a tal cuja inovação foi merecedora do prémio.

Contando com esta 10.ª edição dos Prémios Científicos Mário Quartin Graça são já mais de 30 os galardões atribuídos. E, diz a organização em comunicado, em 10 anos foram “recebidas 637 candidaturas, sendo o maior número proveniente de Portugal e do Brasil”. Nesta edição, foram avaliadas mais de 90 teses e, para além dos dois países de onde provêm os vencedores, foram apresentadas teses de doutorandos da Argentina, Chile, Colômbia, Honduras, México e Venezuela.

Uma questão de reconhecimento

Além do prestígio de terem sido os conquistadores de três prémios a que concorreram quase 100 investigadores de dezenas de universidades, o que representou tal feito para os agraciados com o Prémio Científico Mário Quartin Graça 2019?

“Estou imensamente grata pelo reconhecimento”, confessou Camila Marchioro. “O prémio é importante porque demonstra o valor que a sociedade portuguesa dá ao trabalho académico e, sobretudo, incentiva-nos a continuar seguindo com empenho pelo caminho da investigação na área das ciências humanas”, completou.

Quanto aos 5.000 euros que há de receber em dezembro, a investigadora já lhes deu destino. “Pretendo usar o valor do prémio para seguir com meus estudos, custeando parte de um pós-doutoramento fora do Brasil ou publicando um livro a partir da tese”, revelou Camila Marchioro.

Para aumentarmos a penetração dessas energias renováveis na nossa sociedade, vamos ter de ter armazenamento de baixo custo e são este tipo de soluções que vão permitir chegar aí”, Luís Fialho, falando da nova utilização que propõe para as baterias de fluxo vanádio.

Também Marcello Angotti afirma ser muito gratificante e sentir-se honrado por ser assim distinguido. E como “o Brasil passa por uma importante restrição de investimentos em pesquisa”, diz este especialista em contabilidade: “Pretendo empregar os recursos do prémio para dar continuidade às minhas investigações, seguindo por lacunas apontadas na tese e explorando outros setores industriais, como a geração e distribuição de energia elétrica”.

Para Luís Fialho a relevância de ter recebido o Prémio Científico Mário Quartin Graça prende-se com a exposição que o mesmo dá ao tópico da sua tese. O especialista em energia solar afirma que a questão da geração de energias renováveis e a necessidade do seu armazenamento já tem muito impacto na sociedade. Mas, “para aumentarmos a penetração dessas energias renováveis na nossa sociedade, vamos ter de ter armazenamento de baixo custo e são este tipo de soluções que vão permitir chegar aí”. Dar visibilidade a esta questão através da sua investigação é, na opinião de Luís Fialho, a grande mais-valia de ter conquistado este prémio.

A atribuição dos prémios foi decidida pelo respetivo júri, constituído por: Arlindo Oliveira, presidente do Instituto Superior Técnico; João Proença, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto; Pedro Cardim, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa; João Paulo Velez, diretor de Comunicação e Marketing Corporativo do Santander Portugal; e Manuela Júdice, secretária-geral da Casa da América Latina.

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