Conferência

“Há muitas pontes entre a ciência e o mundo empresarial”

A pequena sala do Money Club foi "curta" para receber todos os interessados na 2ª conferência Frontier Knowledge. FOTO: Joana Valeriano / Santander Universidades
A pequena sala do Money Club foi "curta" para receber todos os interessados na 2ª conferência Frontier Knowledge. FOTO: Joana Valeriano / Santander Universidades

Astrobióloga alarga “fronteiras do conhecimento” no Money Club da Nova SBE. Zita Martins falou das oportunidades de negócio em volta das ciências

O que pode a astrobiologia trazer ao mundo dos negócios? Novos horizontes, fronteiras mais vastas; um novo campo de potencial expansão para os futuros empreendedores e empresas e a adaptação ao universo empresarial da experiência e estratégias usadas na exploração científica. Foi esta a conclusão a que se chegou com a 2ª conferência do ciclo Frontier Knowledge, iniciativa do programa Santander Universidades, que decorreu esta quarta-feira no Money Club deste banco no campus de Carcavelos da Nova School of Business and Economics (SBE). A oradora convidada foi Zita Martins, a única astrobióloga portuguesa, que conta já um vasto currículo de investigação e colaboração com equipas e organismos internacionais, como a NASA e a ESA. Já depois da conferência, em que explicou o que é e o que faz a ciência que domina, Zita Martins não hesitou na resposta àquela pergunta: “Neste momento, acima de tudo, há muitas pontes entre a ciência e o mundo empresarial e há que continuar assim se queremos ter um futuro nesta área”, afirmou.

Estas contribuições do campo da astrobiologia à forma de conduzir, descobrir e lançar novos negócios chegam depois de na 1ª conferência do ciclo Frontier Knowledge, do Santander Money Club, em novembro de 2018, se ter explorado a aplicação da estratégia militar às empresas e seus gestores. Iniciativa do programa Santander Universidades, estas conferências pretendem testar as fronteiras do conhecimento. E foi isso que mais uma vez se concretizou.

Logo no início da sua apresentação, ao definir o que é a astrobiologia – “ciência que estuda a origem da vida na Terra e se há vida noutros planetas” – Zita Martins lançou um desafio à plateia cheia. Frisando a natureza interdisciplinar desta ciência, que conta com contribuições de muitos campos do conhecimento, disse: “Venham ter connosco com novas ideias e criatividade – na astrobiologia aceitamos toda a gente”.

Subjacente a este convite ficou a ideia, mais tarde confirmada pela cientista, de que em torno da astrobiologia e das ciências em geral há margem para nascerem novos negócios. A propósito de uma pergunta feita no final por um dos estudantes presentes, Zita Martins referiu a SpaceX, de Elon Musk, e o desenvolvimento de novos produtos, como as câmaras dos telemóveis e parte do material hoje usado nos equipamentos dos bombeiros, que foram primeiramente desenvolvidos para a exploração espacial.

Zita Martins, astrobióloga e investigadora, falou da ciência que domina e das oportunidades de negócio que surgem em torno da ciência, referindo um estudo que diz que por cada dólar investido pelo govcerno americano na NASA, houve um retorno de 7 a 14 dólares para e economia dos EUA e de outros países envolvidos na sua atividade. FOTO: Joana Valeriano / Santander Universidades

Zita Martins, astrobióloga e investigadora, falou da ciência que domina e das oportunidades de negócio que surgem em torno da ciência, referindo um estudo que diz que por cada dólar investido pelo governo americano na NASA, houve um retorno de 7 a 14 dólares para e economia dos EUA e de outros países envolvidos na sua atividade. FOTO: Joana Valeriano / Santander Universidades

Assim, face à interdisciplinaridade com que lida todos os dias na sua investigação – que, segundo diz, conta com a participação de engenheiros, biólogos, geólogos, etc. – e à tal margem para a inovação, Zita Martins tem sobretudo um conselho a dar aos futuros líderes e magnatas empresariais: “Dir-lhes-ia para serem criativos e trabalharem em equipa. Porque nas áreas das ciências planetárias, aquilo que nós primeiro olhamos e pensamos que é uma simples missão espacial, há outras pessoas (e isso aconteceu nas décadas passadas das várias agências espaciais) que viram oportunidades de negócio – e com muito retorno financeiro”.

Concretizando, a cientista referiu haver estudos feitos que analisaram os produtos, equipamentos e tecnologias que derivaram da atividade desenvolvida pela NASA e concluíram que por cada dólar investido pelo governo americano na agência espacial, a economia dos EUA e de outros países envolvidos tiveram um retorno de entre 7 e 14 dólares. E isto é algo que, garante, só foi possível com “criatividade, muito trabalho e saber trabalhar em equipa e comunicar”.

Deixar o jargão para trás

Aprender a ser bom comunicador é outro dos requisitos necessários aos futuros homens e mulheres de negócios. Tal como os cientistas, qualquer pessoa que necessite de financiamento precisa de saber “vender” a sua ideia ou projeto. “Nós temos imensas ideias inovadoras”, mas “os empresários querem ter um business case, querem saber qual é o retorno disto, qual a sua aplicação”, explicou. “Na área da ciência, especialmente nestas áreas das ciências planetárias, estamos preparados para elaborar um business case e explicar onde é que isto pode ser aplicado, para além da ciência que fazemos no laboratório”, avançou. “Os cientistas hoje não são só os cientistas de bata, não passamos o tempo todo no laboratório e temos de ter todas estas mais-valias”, concluiu.

Em suma, o conselho é: deixem de lado o jargão técnico, tornem a exposição das ideias clara e apelativa e, sobretudo, frisem bem as possíveis aplicações práticas do que esperam desenvolver.

Os cientistas hoje não são só os cientistas de bata, não passamos o tempo todo no laboratório e temos de ter todas estas mais-valias”

Numa breve explicação do que é a astrobiologia e do que está a acontecer no campo da investigação desta ciência, Zita Martins fez um rápida súmula do que já se sabe e se conseguiu comprovar acerca da origem da vida na Terra. Recorrendo ao famoso mapa cósmico de Carl Sagan que divide a evolução do universo pelos 12 meses do ano, a investigadora referiu como o Sistema Solar só nasceu em setembro e o ser humano apareceu nos últimos minutos do dia 31 de dezembro. Depois falou das várias teorias que foram surgindo, e mais tarde demonstradas falsas, e de outras que vão sendo confirmadas e aprofundadas.

Mal contendo o entusiasmo, Zita Martins falou da “caça” aos meteoritos na Antártida, das amostras trazidas da Lua e até das recolhas feitas em cometas e asteroides. Para o ano, referiu, a investigadora portuguesa vai juntar-se a outros colegas no Japão para receber e estudar o material que a sonda da missão Hyabusa 2, lançada pela agência espacial japonesa JAXA, está agora a recolher do asteroide Ryugu. E tudo isto vai ser analisado e sujeito a testes em laboratório, abrindo um vastíssimo campo para as descobertas científicas e, quem sabe, novas oportunidades de negócios.

Em termos de estratégia empresarial, outro conselho decalcado da astrobiologia que Zita Martins deixou aos futuros empreendedores ali presentes foi: “Diversifiquem”. Pegando na sua experiência e na dos seus colegas cientistas, a investigadora referiu que todos eles (ou a grande maioria) já aprendeu a aliar à grande pesquisa que tiverem em mãos – com prazos de desenvolvimento que vão até aos 10 e 20 anos e implicam, por exemplo, missões no espaço – a outros projetos paralelos e mais pequenos que vão dando retorno, financeiro e científico, dentro de prazos mais comportáveis.

A conferência foi conduzida em inglês e, no final, as diversas perguntas do público também, porque na plateia havia estudantes das mais diversas nacionalidades. Como, por exemplo, Domenico Castronovo, que tem 22 anos, veio da Sicília, está a tirar Gestão Internacional na NOVA SBE e quis saber o que pode fazer se quiser unir-se ao mundo das ciências para desenvolver novos produtos ou negócios.

Domenico Castronovo (na plateia, à esq.), estudante de gestão internacional na Nova SBE, participou ativamente na conferência. FOTO: Joana Valeriano / Santander Universidades

Domenico Castronovo (na plateia, à esq.), estudante de gestão internacional na Nova SBE, participou ativamente na conferência. FOTO: Joana Valeriano / Santander Universidades

No final, Castronovo disse ao DV que “conferências com este tipo de tópico podem levar-nos a pensar que quase tudo pode ser usado para montar um negócio.” Investir, futuramente, o seu saber numa ideia inovadora ligada às ciências é um quadro que agora se lhe afigura possível, campo que antes nunca considerara. Mas, apesar dos novos horizontes que se lhe abriram, Domenico mostra-se cauteloso quanto à possibilidade de enveredar por negócios concretamente ligados ao espaço. “Os pioneiros são a SpaceX e Elon Musk, logo, estamos a falar de grandes operadores mundiais, pelo que, na minha opinião, se quisermos iniciar um negócio neste mundo é preciso um grande investimento e os retornos não são lá muito tangíveis”, disse.

Marcos Soares Ribeiro, diretor-coordenador do Santander Universidades.

Marcos Soares Ribeiro, diretor-coordenador do Santander Universidades.

Para o Santander Universidades, de acordo com o seu diretor-coordenador, Marcos Soares Ribeiro, não restam dúvidas de que “os negócios têm que ver com tudo o que se passa com a humanidade”. Por isso, trazer à discussão a astrobiologia numa faculdade dedicada aos negócios e ao mundo empresarial é exatamente o tipo de conhecimento de fronteira que tem cabimento no ciclo de conferências que este programa do banco lançou em 2018 no seu Money club do Campus de Carcavelos.

Ao longo de 17 anos de existência em Portugal (22 no resto do mundo), diz Soares Ribeiro que o programa Santander Universidades ganhou um vasto conhecimento e proximidade com as instituições do ensino superior em todas as áreas. “Gostamos muito de entrecruzar o conhecimento e o espaço é um dos temas que mais estimula a curiosidade e desafia o homem”, diz o responsável justificando o tema da 2ª Conferência Frontier Knowledge. Afirma Soares Ribeiro que, “se queremos ter um impacto nos estudantes que estamos a formar no mundo empresarial, temos de lhes dar ferramentas para que olhem para o mundo de uma forma muito ampla e crítica”.

“O homem olha para o espaço procurando a origem da vida, mas olha também como uma fonte de futuro. E o homem de negócios olha para o espaço como uma via de futuro”, concluiu.

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