Voluntariado Universitário

Prémios distinguem projetos que vão do apoio social à preservação do património

O projeto MOVE, vencedor do PVU Ideia 2017, começou por Moçambique, depois S. Tomé e Timor e agora chega aos Açores. De início vocacionado para fazer chegar o microcrédito a projetos familiares, trocou essa vertente pela da formação. FOTO: MOVE
O projeto MOVE, vencedor do PVU Ideia 2017, começou por Moçambique, depois S. Tomé e Timor e agora chega aos Açores. De início vocacionado para fazer chegar o microcrédito a projetos familiares, trocou essa vertente pela da formação. FOTO: MOVE

São estudantes, mas também fazedores de sonhos, divulgadores do património e prestadores de auxílio a quem mais precisa e, por isso, foram premiados.

– Foram anunciados e entregues esta terça-feira os quatro Prémios de Voluntariado Universitário 2017, naquela que é já a sua 2.ª edição. As iniciativas premiadas este ano envolvem ações que visam o apoio social a estudantes, crianças, idosos e famílias completas, a par da preservação do património cultural e da formação a voluntários e aos beneficiários para que possam caminhar pelo seu próprio pé. Os projetos vencedores – escolhidos de entre 10 finalistas e 50 candidatos iniciais – foram desenvolvidos no Açores, Madeira, Viana do Castelo e noutras cidades do norte do país. Os galardões, que distinguem iniciativas solidárias de estudantes do ensino superior, implicaram um valor pecuniário no total de 10 mil euros, financiados pelo Banco Santander Totta.

Um dos três premiados no âmbito das categorias principais do troféu foi o projeto MOVE Açores – Porta-a-Porta, que conquistou o Prémio de Voluntariado Universitário (PVU) Ideia, pelo caráter inovador do conceito que lhe está subjacente. Da iniciativa da MOVE – Associação de Microcrédito e Empreendedorismo e da Católica Lisbon School of Business & Economics, esta boa ideia é, neste caso, ainda isso mesmo, já que o projeto, embora esteja já totalmente delineado, só terá início em janeiro de 2018.

A ideia é dar a três famílias desfavorecidas da Ilha de S. Miguel – de Rabo de Peixe, Fenais da Luz e Água de Pau – conhecimentos para que melhor possam gerir os seus orçamentos familiares. “Nas freguesias com mais necessidades da ilha, percebemos que as famílias tendiam a manter-se fechadas em casa e não viam a escola como uma alternativa, por isso, a educação não formal, a educação sentada no sofá numa discussão mais prática e concreta da realidade podia ser uma forma indireta de formação”, explica Catarina Marques, presidente da ONG MOVE. “E é esse o projeto que vamos testar, a partir de 2018”, concluiu.

O projeto MOVE ajuda famílias a desenvolverem talentos escondidos e a criarem atividades que complementem o orçamento familiar. FOTO: MOVE

O projeto MOVE ajuda famílias a desenvolverem talentos escondidos e a criarem atividades que complementem o orçamento familiar. FOTO: MOVE

Segundo a responsável, o Move Açores vai arrancar no próximo mês, com uma equipa de seis voluntários, renovada seis meses depois. “Pretendemos, ao fim de 2 anos, fazer uma análise do impacto causado para podermos avaliar a continuidade ou não do projeto”, disse Catarina Marques. Além de ensinarem a fazer o melhor aproveitamento possível de cada orçamento familiar, os voluntários da MOVE Açores vão estar atentos a quaisquer aptidões ou talentos especiais dos membros de cada família e, sempre que possível, ajudarão a rentabilizá-los para complementar o rendimento do agregado.

“Inicialmente o modelo do MOVE assentava no microcrédito – tínhamos parceiros (bancos e instituições financeiras) que nos davam esse suporte financeiro para que pudéssemos atribuí-lo a projetos que considerássemos ter viabilidade”, contou Catarina Marques. “Com o passar do tempo e com a experiência acumulada percebemos que o voluntário não poderia ter a função do cobrador e do professor e, a ter uma, preferíamos ter a função do professor”, explicou. Isto porque a MOVE iniciou a sua atividade há oito anos, em Moçambique, tendo entretanto expandido o seu trabalho para S. Tomé e Timor. Hoje, neste tipo de projetos de voluntariado, a MOVE abandonou a ideia de ser ela a tratar diretamente do microcrédito. “Sempre que um projeto tem a necessidade de um incentivo financeiro, como acontece muitas vezes, o que a MOVE faz é garantir os canais e os contactos necessários para que sejam possíveis”, explicou.

Para Catarina Marques, além do “claro incentivo financeiro”, no valor de 3.000 euros, que o PVU Ideia 2017 trouxe ao projeto, a mentoria por parte de um colaborador do Santander, durante um ano inteiro, que faz parte do prémio é ainda mais valiosa. “Acreditamos que essa é a principal mais-valia que este prémio acabou por nos garantir”, afirmou. E como vai empregar o dinheiro ganho? “Temos algumas ideias, mas vamos ainda conversar com o colaborador do Santander para as expormos e percebermos qual será o melhor caminho e só depois é que tomaremos uma decisão”, concluiu.

Apoio a estudantes, divulgando o património

Os voluntários da Herança Madeirense fazem visitas guiadas, divulgando o património da ilha. As receitas são canalizadas para o apoio a estudantes carenciados da UMadeira. FOTO: HMadeirense

Os voluntários da Herança Madeirense fazem visitas guiadas, divulgando o património da ilha. As receitas são canalizadas para o apoio a estudantes carenciados da UMadeira. FOTO: HMadeirense

Outra das categorias principais destes prémios Santander é o PVU Projeto, que este ano coube à Herança Madeirense, uma iniciativa da Associação Académica da Universidade da Madeira. O prémio desta categoria toma em atenção a importância do tipo de problemas sociais que o projeto visa minorar e, neste caso, o Herança Madeirense soube encontrar uma forma de prestar ajuda aos estudantes mais necessitados da universidade ao mesmo tempo que vai promovendo e divulgando o património cultural da Ilha. Isto porque os voluntários do projeto Herança Madeirense são verdadeiros especialistas em monumentos da Madeira, História da Ilha e até de Portugal e fazem visitas guiadas para turistas e residentes.

“A formação dos voluntários é um dos grandes desafios”, diz Andreia Nascimento, coordenadora do projeto, explicando que estando este associado à Universidade da Madeira a responsabilidade e preocupação com o rigor dos conteúdos transmitidos é muito importante. Por isso, a formação dada a cada voluntário tem sempre uma duração mínima de um mês.

“O projeto funciona por atrações: neste momento, estamos a desenvolver visitas guiadas a sete atrações da cidade”, explica Andreia Nascimento. “Para cada atração, a formação dada nunca é menos de um mês, porque não é só aquela atração que interessa, já que as pessoas fazem perguntas sobre a História da Madeira e sobre a cultura portuguesa”, salientou. E para garantir a qualidade da formação, há todo um trabalho feito com a colaboração de alguns professores e investigadores da Universidade da Madeira, avança.

Neste momento, a trabalhar no projeto estão 94 voluntários madeirenses e 16 europeus, que vêm ao abrigo do Serviço de Voluntariado Europeu (SVE), inseridos no Programa Erasmus+. “Desde que integrámos neste projeto o SVE, já recebemos 45 estrangeiros e fizemo-lo porque achámos que era uma mais-valia termos pessoas de outras nacionalidades, outras culturas e outros idiomas a colaborar connosco”.

Todas as receitas realizadas com as visitas guiadas são canalizadas para o apoio social dos estudantes e é aí também que será aplicado o prémio de 3.000 euros agora conquistado. “Porque este apoio social tem diversas formas”, diz Andreia Nascimento, enumerando: “Pagamento de refeições diárias, oferta de material escolar, aquisição de livros técnicos e especializados para enriquecer a biblioteca da universidade, renovação de salas de estudo e de aula”. “Tentamos chegar um pouco às necessidades que os nossos estudantes vão manifestando”, diz a responsável. “E, de caminho, vamos fazendo a divulgação e a preservação da cultura e da historia da Madeira”, remata.

“Este prémio representa, acima de tudo, o reconhecimento do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido desde 2012, por um conjunto alargado de voluntários”, afirma a coordenadora do Herança Madeirense, que salienta também o apoio especializado do Santander. “Além da questão monetária, que é importante, há também a questão fundamental da mentoria durante um ano que nos permitirá fazer o projeto crescer”.

Trabalhar, envolvendo a comunidade local

A Escola Inclusiva do Politécnico de Viana do Castelo atua onde for solicitado pelas 20 entidades suas parceiras. Aqui, os voluntários estão envolvidos numa ação de reflorestação. FOTO: EInclusiva

A Escola Inclusiva do Politécnico de Viana do Castelo atua onde for solicitado pelas 20 entidades suas parceiras. Aqui, os voluntários estão envolvidos numa ação de reflorestação. FOTO: EInclusiva

Quem arrebatou este ano o PVU Comunidade, pensado para premiar as iniciativas com maior grau de intervenção da comunidade e que envolvem vários parceiros locais, foi o projeto Escola Inclusiva, do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC).

“De facto, o nosso trabalho relativamente à comunidade tem sido muito grande, muito abrangente, e trabalhamos com cerca de 20 instituições neste momento”, diz Sara Paiva, coordenadora do projeto. “E, portanto, obviamente que este prémio é um reconhecimento do trabalho que os alunos, os professores e as instituições também têm feito ao longo deste tempo todo”, sublinha a responsável.

Segundo explicou Sara Paiva, na Escola Inclusiva estão envolvidos mais de 150 estudantes das várias faculdades do IPVC, cujo trabalho passa a fazer parte da sua atividade curricular. “E temos cerca de mais de 20 cursos também a colaborar, entre cursos técnicos, licenciaturas e mestrados, e mais de 50 professores também associados neste momento”, explica a coordenadora.

A Escola Inclusiva tenta atender a qualquer problema de que lhes chegue notícia e que esteja ao alcance das suas competências. “Não estamos focados num problema específico da comunidade, como sejam só os idosos ou as crianças”, diz Sara Paiva. “Recebemos notícia das necessidades que as instituições têm, que são de natureza variada, e depois integramos essas necessidades nos vários cursos. E temos cerca de 11 competências, entre informática, setor alimentar, civil, turismo, enfim muitas”, conta a responsável. O resultado é um projeto multidisciplinar e versátil que atua onde é preciso, de acordo com as solicitações dos seus parceiros.

Agora, graças ao prémio Santander, a Escola Inclusiva fica a dispor de mais 3.000 euros. “A forma como montante pecuniário do prémio vai ser usado ainda é uma coisa a estudar, embora haja já algumas ideias”, diz Sara Paiva, adiantando que uma das aplicações possíveis é a compra de equipamento para algum projeto em curso. “Mas este prémio também nos irá dar a hipótese de ter uma mentoria e essa vai ser muito importante para estruturarmos melhor o nosso projeto, a nível de estratégico e da comunicação com a comunidade”, conclui a coordenadora da Escola Inclusiva.

Dar uma mão e formar os líderes do futuro

A par dos três prémios principais, há um quarto, no valor de 1.000 euros, que distingue a mestria do vídeo de candidatura apresentado. Este ano, o vencedor do PVU Comunicação foi o projeto UDream, uma iniciativa que começou na Universidade do Porto e já se expandiu para as suas congéneres de Braga e de Aveiro.

Os UDreamers (voluntários da UDream) envolvem-se profundamente com as crianças e famílias que apoiam. FOTO: UDream

Os UDreamers (voluntários da UDream) envolvem-se profundamente com as crianças e famílias que apoiam. FOTO: UDream

No fito da UDream está a realização dos sonhos de crianças e respetivas famílias que enfrentam problemas complexos, por norma, relacionadas com a saúde. Mas o projeto, que é já uma verdadeira empresa, vai bem mais além disso, implicando a formação de voluntários para a própria UDream ou para outras entidades, bem como a formação e consultoria a quadros de empresas interessados em adquirir competências de inovação e empreendedorismo social, isto é, virados para a melhoria da sociedade.

“O nosso projeto é muito complexo, porque nós fazemos o apadrinhamento das crianças, mas somos uma empresa que faz prestação de serviços de consultoria a mais de 25 empresas a nível nacional – e empresas com uma dimensão elevadíssima –, conseguimos gerar mais de mil sócios que trabalham connosco semanalmente e que têm desconto em cerca de 50 empresas a nível nacional, e ainda damos formações (internas e externas) a estudantes e em todas as áreas”, explicou o seu Diogo Oliveira da Cruz, que começou como voluntário e hoje é já CEO da UDream.

A complexidade da UDream, aliás, é um das razões apontadas, com bom humor, por Diogo Oliveira da Cruz para o projeto somar já cinco ou seis segundos prémios diversos e nunca conquistar o 1.º. Isso mesmo aliás tem vindo a acontecer com os Prémios de Voluntariado do Santander: o UDream foi um dos 10 finalistas da edição de 2016, voltou a sê-lo este ano e acabou por trazer para casa o prémio da melhor apresentação. “Estamos habituados a não ganhar”, diz a rir. Mas depois explica que o alcance e o impacto do UDream é difícil de demonstrar e de apreender apenas num vídeo de dois minutos. “A grande complicação é como é que fazendo tanta coisa o conseguimos comunicar de uma forma lógica. Para nós é super compreensível e aceitável que nunca vamos ser um projeto que vence muitos destes tipos de candidaturas”, sublinha.

“Ainda assim, acho este prémio absolutamente fantástico. Quem me dera a mim que todas as empresas do mundo e as do nossos país, primeiramente, tivessem este tipo de iniciativas como o Santander tem”, desabafa Diogo Oliveira da Cruz.

O vídeo que conquistou o PVU Comunicação 2017 (veja abaixo) foi feito por estudantes-voluntários com talento e competências para os realizar, segundo conta o responsável, e é um pequeno resumo da apresentação do projeto e dos sonhos já concretizados e gravados pela UDream. “O prémio de 1.000 euros vai apadrinhar o sonho de duas crianças de Aveiro”, revela o Diogo Oliveira da Cruz. Os voluntários da UDream – ou UDreamers, como já são chamados – envolvem-se profundamente com as crianças e famílias que apoiam e durante três ou quatro meses acompanham-nas no seu ambiente domiciliário, até compreenderem qual o sonho a curto prazo que podem realizar e que impacto podem ter a longo prazo.

A UDream – que é hoje já uma empresa cofinanciada pelos fundos europeus do programa Parcerias para o Impacto, existente no âmbito da iniciativa Portugal Inovação Social – tem neste momento cerca de 150 estudantes ativos (60 no Porto, 50 em Braga e 40 em Aveiro) e o objetivo é expandir para outras universidades em todo o país. “Se todos os estudantes universitários quiserem organizar a sua vida de estudantes para crescerem em termos pessoais e para se formarem numa perspetiva social, para ajudarem outras pessoas, estamos a criar numa geração de futuros líderes sociais”, afirmou em conclusão Diogo Oliveira da Cruz.

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