empreendedorismo

Arqueologia 3D e cortiça online: ideias inovadoras que foram premiadas

A reconstituição 3D do Sino de Coruche, o mais antigo de Portugal, datado do século XIII, foi um dos primeiros projetos do Heritage4all. FOTO: Heritage4all
A reconstituição 3D do Sino de Coruche, o mais antigo de Portugal, datado do século XIII, foi um dos primeiros projetos do Heritage4all. FOTO: Heritage4all

O Heritage4all já anda a recuperar artefactos históricos e a Plataforma e_Cork está quase a ser lançada, em parte graças aos prémios Nova-Santander

– Recorrer a tecnologias 3D para preservar para a posteridade bens culturais desaparecidos ou em vias disso e usar os espaços virtuais para promover e valorizar a cortiça portuguesa e as suas potencialidades. Foram estas duas ideias, dois projetos inovadores, que este ano respetivamente conquistaram o 1.º e 2.º Prémio de Empreendedorismo Nova FCSH / Santander Universidades – Melhor Ideia de Negócio. O Heritage4all já segue a pleno vapor, tendo virado as suas atenções para o sino de Coruche e um astrolábio do século XVII, em Cascais. A Plataforma e_Cork está na fase final da sua construção e tem lançamento previsto para o início de 2018.

O projeto Heritage4all tem por objetivo preservar o património cultural e alargar o acesso à cultura. Através de tecnologias de scan 3D, Vincent Debut e Miguel Carvalho pretendem criar modelos virtuais de artefactos, bem como “museus para cegos” com réplicas tangíveis. E isso, segundo explicou um dos seus responsáveis, implica várias áreas disciplinares e envolve aplicar “tecnologias desenvolvidas no domínio das ciências exatas a bens culturais para preservar, descobrir e partilhar o património”.

“A ideia fundadora do projeto baseia-se na recolha de imagem 3D de bens culturais obtidas a partir de um scanner e no pós-processamento dos dados, para construir modelos virtuais 3D de alta-resolução”, avançou Vincent Debut, professor e investigador da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova. Com os dados recolhidos será depois criada uma base de dados para apoiar os museus e os investigadores.

A vantagem do Heritage4all é ser uma espécie de pacote 3-em-1 virado para a arqueologia: além de preservar os bens culturais para a posteridade, permite aos museus a disponibilização dos modelos de forma virtual, online, e a criação tangível de artefactos através da impressão de réplicas em 3D. Quanta a esta última vertente, diz Vincent Debut que o Heritage4all opera “a capacitação de pessoas com deficiências visuais, de forma a acederem a um património que até hoje lhes é desconhecido”.

Miguel Carvalho, o segundo elemento do projeto Heritage4all, fazendo um scan 3D do astrolábio de Cascais. FOTO: Heritage4all

Miguel Carvalho, o segundo elemento do projeto Heritage4all, fazendo um scan 3D do astrolábio de Cascais. FOTO: Heritage4all

Além disso, afirma, “a nossa solução aparece também como uma forma original para apoiar a restituição do património cultural, tal como incentivado pela UNESCO, e oferece novas perspetivas na investigação”. Através da combinação de software CAD com técnicas de simulação e de análise, o Heritage4all já recriou o sino de Coruche, do século XIII – o mais antigo de Portugal –, para o museu local, e um astrolábio do século XVII, exposto no Museu do Mar, em Cascais.

A técnica usada pelo Heritage4all é tão inovadora que, segundo Vincent Debut, há já vários museus e monumentos interessados. “Os primeiros protótipos estão já concluídos e validados. Neste momento estão a ser produzidos os primeiros produtos que em breve serão distribuídos”, avança o professor e investigador.

Foi por causa do caráter inovador do Heritage4all que, no passado dia 26 de setembro, o projeto arrebatou o 1.º Prémio de Empreendedorismo Nova FCSH / Santander Universidades – Melhor Ideia de Negócio. Os quatro mil euros recebidos vão ser investidos “em equipamento, promoção e outras despesas inerentes à atividade”, diz Vincent Debut. Mas o galardão implica também a cedência de espaço de coworking, a oferta de formação para gestão de empresas e cooperativas e apoio para a organização de um evento de lançamento e promoção da nova empresa, sublinha.

Vincent Debut, francês, engenheiro físico e mestre em acústica, é investigador e professor catedrático em Portugal há mais de 10 anos. FOTO: Álvaro Isidoro / Global Imagens

Vincent Debut, francês, engenheiro físico e mestre em acústica, é investigador e professor catedrático em Portugal há mais de 10 anos. FOTO: Álvaro Isidoro / Global Imagens

E tudo isto começou por causa dos Carrilhões de Mafra e do interesse dos investigadores pela acústica. Vincent Debut é engenheiro físico, doutorado em acústica, que leciona cadeiras relacionadas com esta disciplina no Departamento de Ciências Musicais da Universidade Nova, além de ser o responsável pelo curso de pós-graduação em “Acústica e Estudos de Sons”. Há uns anos, fez parte de um projeto em que estudou o comportamento vibratório dos sinos do carrilhão de Mafra, procurando descobrir o segredo perdido da sua afinação. Também envolvido no projeto esteve Miguel Carvalho, licenciado em Ciências Musicais e mestrando em estudos avançados de acústica que, segundo diz, se interessa pela “combinação entre Musicologia Histórica e Acústica Musical para o estudo e preservação do património cultural”.

A ideia do Heritage4all partiu dos dois porque, segundo diz Miguel Carvalho, ao longo dos anos que estiveram envolvidos no projeto de Mafra tiveram “a oportunidade de aplicar tecnologias inovadoras (como scans 3D) a artefactos musicais de vários museus, tendo rapidamente percebido a sua versatilidade e potencial na área do património cultural”. “Os resultados excederam as expectativas e desde então temos trabalhado cada vez mais com museus, de forma a colmatar os seus problemas e melhorar a sua oferta”. Entretanto, por causa do Heritage4all, Miguel Carvalho desenvolveu um outro projeto associado, o HeriTECH 3D, que ganhou uma patent scholarship pela Nixon Peabody LLP na European Innovation Academy deste ano.

e_Cork, uma montra para a cortiça

O 2.º Prémio de Empreendedorismo Nova FCSH / Santander Universidades – Melhor Ideia de Negócio foi atribuído ao projeto e_Cork. Trata-se de uma plataforma online que, segundo a responsável, vai proporcionar aos produtores de cortiça – em particular aos pequenos e médios –, “um espaço de valorização do seu produto e de acesso, a uma escala global, a todos os potenciais interessados”. O objetivo, diz Cristina Silva Ferreira, “é tirar partido das mais-valias intrínsecas dos mercados virtuais”.

A divulgação do montado de sobro e tudo o que diz respeito à cortiça é uma das metas da plataforma e-Cork. FOTO: Ana S. Ferreira / e-Cork

A divulgação do montado de sobro e tudo o que diz respeito à cortiça é uma das metas da plataforma e-Cork. FOTO: Ana S. Ferreira / e-Cork

O que se pretende é, no fundo, atualizar o setor da cortiça, trazendo-o até ao século XXI e às novas formas de consumo e distribuição, bem como a novos mercados e consumidores. E tudo isto através da inovação. “A plataforma e_Cork é a montra que ainda falta neste mercado, acessível a qualquer hora e em qualquer parte do mundo”, diz Cristina Silva Ferreira, explicando: “É uma ferramenta facilitadora do negócio que deve satisfazer fornecedores, compradores e industriais da cortiça, seja em matéria-prima, seja transformada para os mais diversos usos”. Isto porque, graças à e_Cork, o vendedor vai facilmente poder dar a conhecer e valorizar o que tem para oferecer e o comprador passa a poder conhecer, sem custos, o que está disponível no mercado.

Geógrafa licenciada em Planeamento Regional e Local, com 25 anos de experiência profissional na área do ambiente e do planeamento, tanto no setor público como privado, Cristina Silva Ferreira é também produtora de cortiça, gerindo um montado de sobro de 150 ha no Alentejo Litoral. A cortiça é uma tradição de família com mais de 150 anos, diz, e um legado que quer preservar e respeitar. Por isso, Cristina Silva Ferreira é a promotora e concept designer de um projeto mais vasto, o Corkland, que visa divulgar e revelar ao mundo tudo o que respeita à cortiça, levando a que se crie “uma comunidade em torno do interesse e fascínio por esta matéria-prima”.

A e_Cork vai ser criativa na demonstração das potencialidades da cortiça FOTO: Ana S. Ferreira / e-Cork

A e_Cork vai ser criativa na demonstração das potencialidades da cortiça FOTO: Ana S. Ferreira / e-Cork

Foi para materializar este desígnio que surgiu a ideia da Plataforma e_Cork. Depois, Cristina Silva Ferreira juntou-se a João Zorrinho – licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova e mestre em Economia Internacional pelo ISEG – para apresentar uma candidatura ao prémio Melhor Ideia de Negócio Nova / Santander. Com a conquista do 2.º galardão, os dois responsáveis garantiram a uma parceria com a FCSH da Nova que, segundo a responsável, “faz a diferença”.

“Reuni já com o Centro de Inovação [da FCSH/Nova] e foram equacionadas ações de cooperação que se podem concretizar ao longo de 2018 e que levarão certamente deste desafio mais longe”, disse. Neste momento, a plataforma e_Cork está em construção e a entrada em funcionamento, a promoção e a disponibilização online está programada para o início do próximo ano. A poucos meses de distância da inauguração do e_Cork, Cristina Silva Ferreira tem já previstas uma série de iniciativas. “Durante 2018 irão decorrer um conjunto de encontros em torno do tema e do sector, em que convidados relevantes possam partilhar o seu conhecimento, a sua inspiração e as suas propostas para o sector”, promete.

 

 

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