Inovação digital

Contrarrelógio para captar financiamento prestes a começar

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.

Na segunda semana da EIA, 49 equipas constroem protótipos e afinam as apresentações de 4 de agosto para conquistar financiadores para os projetos

– Logo à entrada, no grande átrio do Centro de Congressos do Estoril, um burburinho de vozes e uma azáfama de movimento marcam o clima contagiante da European Innovation Academy (EIA). São 245 estudantes, divididos por 49 equipas a criar e defender outros tantos projetos de inovação digital nas mais diversas áreas. Decorrida uma semana de intenso trabalho, aquele que é o maior programa de aceleração em inovação digital da Europa entra na fase de construção de protótipos e prepara-se para o derradeiro momento da captação dos primeiros mil clientes e da apresentação dos projetos aos financiadores, que encerrará o programa, no dia 4 de agosto. Uma semana antes, feita a primeira auscultação de mercado – em contactos diretos com empresas e consumidores -, desenhavam-se os planos para o protótipo a criar.

O ambiente é enganadoramente informal. Há risos e boa disposição, equipas trabalhando ordeiramente – com mais ou menos silêncio – em dezenas de mesas, outras trocando ideias em pufs gigantes ou sentadas em enormes e coloridas peças geométricas. O inglês domina em todas as conversas: afinal há 40 nações e três continentes representados na EIA Portugal. “Quis multiplicidade de géneros, de nacionalidades e de backgrounds em cada uma das equipas”, disse ao Dinheiro Vivo Rick Rasmussen, especialista em Desenvolvimento Empresarial Internacional da Universidade de Berkeley e diretor da equipa de mentores da EIA Portugal. “Tentei ter em todas as equipas pelo menos um representante de cada continente”, disse Rasmussen adiantando que há 30 mentores, divididos entre aqueles que têm uma background de organização e liderança de empresas, especializações em tecnologias da informação e outros em marketing.

As ideias propostas e projetos em estudo tocam as mais variadas áreas, procurando resolver problemas ambientais, de transportes e logística, questões de parentalidade e emprego, produtividade na indústria, ligadas ao turismo e deficiência… enfim, meia centena de soluções, todas expostas em telas coladas nas paredes, onde se esquematiza o plano de negócio em desenvolvimento.

No Centro de Congressos, em permanente apoio aos estudantes estão, além dos membros da EIA, os parceiros da academia: o Santander Totta, a Universidade Nova, a Câmara de Cascais e a Beta i, com a sua “Innovation Box”.

Reagrupar e criar ideias novas
Correndo os olhos pelos planos de negócios colados nas paredes, uma delas salta à vista, porque a tarde já vai avançada e o calor não dá tréguas. “Problema a resolver: É difícil criar uma cerveja deliciosa!” Com a designação “McCann Brewery”, porque a ideia partiu de Daryl McCann, irlandês – logo, apreciador de cerveja – e estudante do Dublin Institute of Technology, o projeto pode parecer brincadeira, mas se a ideia vingar poderá tornar-se um negócio muito sério e competitivo. Trata-se de um programa informático que vai permitir que um consumidor personalize a sua própria cerveja, escolhendo o paladar, o tom, a marca, etc. “É um software para ser usado por restaurantes, bares e hotéis, para que os seus clientes possam ter a sua cerveja própria”, explicou Daryl.

Falando com o mentor da equipa, Anand Kulkarni – um especialista em ciências informáticas e CEO da startup Stealth Mode, que veio de Silicon Valley para ajudar a concretizar a EIA Portugal –, deparamo-nos logo com um bom exemplo da aprendizagem à pressão que a EIA proporciona. “Esta não foi a primeira ideia da equipa”, diz o mentor, explicando: “Uma das coisas que acontece no lançamento de um negócio ou startup é que há o conceito para uma ideia, levamo-la até ao cliente ou consumidor e descobrimos que não funciona”.

Neste caso, a ideia era um sistema de logística para melhorar a eficiência da produção industrial, através da instalação de um aparelho no processo de fabrico que monitorizava o rendimento do mesmo e integrava esses dados num programa de software a que os empresários teriam acesso. “Quando foi falar com vários negócios, a equipa descobriu que a solução que apresentava era 100 vezes mais cara do que o processo que as empresas estavam a usar”, explicou o mentor. “A equipa foi obrigada a mudar de direção, a alterar a ideia até ter algo novo”, concluiu Anand Kulkarni.

E foi isso mesmo que fizeram, no espaço de 24 horas. Os cinco membros da equipa – Daryl McCann, Cláudia Furtado, Sara Bento, Adriana Cunha e Mahmoud El Adi – reagruparam e avançaram outra ideia de negócio. “Esta nova ideia não tem nada a ver com a anterior. Foi preciso voltar atrás e redesenhar o projeto. Se vamos falhar, é importante que falhemos o mais barato e cedo possível”, disse Daryl McCann.

Turismo à medida
E se fazer turismo fosse algo acessível para todos, mesmo para os mais idosos ou para pessoas com deficiência? É a esta complicada questão que Alexander Dimic, do instituto austríaco IMC Krems, quer dar resposta. Uma ideia que seduziu os restantes quatro membros da equipa que a ele se juntaram: Lukas Renz, colega de curso de Alexander Dimic, Romana Dorfer, estudante de desenvolvimento de software, Alex Kirchmaier, especializado em empreendedorismo, e Maria Masanskaya, a tirar uma licenciatura em línguas modernas.

“A ideia é ter uma plataforma online para turismo adaptado a pessoas com deficiência. O nosso alvo são pessoas que têm dificuldades de locomoção e idosos que queiram passar umas férias simpáticas viajando”, explicou Alexander Dimic. Para já, a ideia da equipa é fornecer um pacote de serviços de viagem, tudo incluído, feitos à medida ou tailored travel na designação inglesa, que serve de nome ao projeto. De início, o negócio iria começar em pequena escala, apenas com um destino. A Áustria, país onde vive e estuda Alexander Dimic, de origem sérvia, é o destino-alvo do seu negócio, “porque as infraestruturas lá são muito boas”, afirma. Mais tarde, esse mesmo serviço seria levado a outros destinos.

“Estamos a criar o nosso website, para depois o podermos carregar com conteúdos. Se formos bem-sucedidos, esperamos visar instituições e agências de viagens que tenham contacto com este tipo de pessoas, que precisam de ajuda para poderem viajar”, rematou Alexander Dimic.

“Coletar o arroto da vaca”
A regra da multiplicidade na formação das equipas só conheceu uma exceção na EIA Portugal: a da Eco5 Team, toda constituída por estudantes portugueses. “O projeto já tinha começado antes, em fevereiro, na Faculdade de Ciências e Tecnologias [da Universidade Nova]”, explicou Pedro Sobral, engenheiro químico, estudante e um dos membros da equipa. “Estamos a tentar coletar o arroto da vaca”, explica de forma simplista e a rir Rui Cabral, um dos autores da ideia, que foi batizada como Projeto Powerburp.

Mais uma vez, por trás da irreverência está um intento muito sério. Na verdade, o arroto da vaca “tem uma enorme percentagem de metano e, através da sua queima, pretendemos obter energia elétrica, de maneira a salvar também a camada de ozono, salvar o mundo e poupar a conta da eletricidade dos produtores”, explica Rui Cabral.

A equipa Eco5, (da esq. para a dta.) Raul, Rui, Pedro e David, com a mentora Dagmar Eisenbach. FOTO: Jorge Amaral/GI

A equipa Eco5, (da esq. para a dta.) Raul, Rui, Pedro e David, com a mentora Dagmar Eisenbach. FOTO: Jorge Amaral/GI

O conceito inicial do Projeto Powerburp é de Rui Cabral, formado em Engenharia Mecânica, e de Pedro Sobral, engenheiro químico. Mas de fevereiro para cá, a ideia já teve muitas contribuições dos restantes membros da equipa, o engenheiro biomédico Raul Vences, mais um engenheiro mecânico, David Coutinho, e a engenheira de Micro e Nanotecnologia Marta Pereira – ausente no dia em que o Dinheiro Vivo passou pela academia, devido a doença.

E como funcionaria o Powerburp? Nas palavras de Pedro Sobral: “É uma espécie sistema de ventilação que vai consistir nuns tubos horizontais instalados, por exemplo, na manjedoura. Sempre que as vacas arrotarem, o sistema tem sensores de metano na extremidade que acionam umas ventoinhas que recolhem o gás. Este vai para um sistema central, onde é medida a percentagem em metano, faz-se a verificação para determinar se é preciso purificar ou não, depois segue para um sistema de queima, que é acoplado a um gerador elétrico. A energia gerada vai para uma torre de transmissão, que é ligada à rede elétrica e a EDP pode fazer a diferença de contagens”. Desta forma, os criadores poderiam tornar-se mais autossuficientes no que respeita à energia consumida e ainda reduziriam as emissões de metano das suas produções.

Dagmar Eisenbach, economista com um alto cargo na Hewlett & Packard, mas também pertencente à administração de uma central bioelétrica, é a mentora da equipa Eco5. O projeto apresentado está bem dentro da sua área de especialização, mas quando ouviu a proposta ficou surpreendia. “De início, pensei: «Uau, que ideia fantástica! Mas como é que eles vão conseguir concretizar isto?», porque me parecia bastante complicado”, confessa a mentora. Mas passada uma semana, a responsável não tem dúvidas: “Tanto quanto consigo ver, é praticável o que propõem”, afirma Dagmar Eisenbach.

A tarde já vai avançada e as equipas começam a pensar no bem merecido descanso. O Dinheiro Vivo refere apenas três exemplos dos 49 projetos em gestação no EIA Portugal. Entre ideias boas, excelentes e mirabolantes, nem todos conseguirão captar o número de clientes necessários para conquistar uma apresentação perante os financiadores. No dia 4 de agosto, tudo será decidido.

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.
Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens

Turismo vale 16% da atividade económica portuguesa

Mário Centeno, ministro das Finanças. Fotografia: REUTERS/Rafael Marchante

Défice público cai 59% até ao final de outubro

Marco Schroeder

Marco Schroeder renuncia a cargo de CEO da Oi

Outros conteúdos GMG
Conteúdo Patrocinado
Conteúdo TUI
Contrarrelógio para captar financiamento prestes a começar