Gestão

Ferreira de Oliveira: “As contas devem ser o que são”

Manuel Ferreira de Oliveira, ex-CEO da Galp Energia.
Manuel Ferreira de Oliveira, ex-CEO da Galp Energia.

Empresas que violam ética perdem valor. É conclusão do debate sobre princípios nos negócios, no 1.º Congresso dos Gestores

O problema da ficção na contabilidade das empresas ajudou a animar o debate desta semana em Lisboa, sobre ética na gestão em Portugal, moderado pela diretora do Dinheiro Vivo, Rosália Amorim. Aconteceu durante o 1.o Congresso dos Gestores Portugueses, organizado pelo Fórum de Administradores e Gestores de Empresas, um evento que horas antes tinha revelado um estudo da Informa D&B, segundo o qual as empresas portuguesas estão entre as que mais se atrasam a pagar. Falha que cola Portugal entre os piores pagadores da Europa – apenas 19,5% das empresas nacionais cumpriu os prazos na última década, quando a média europeia foi de 39,1%.

“As contas devem ser o que são e não o que deveriam ser”, lançou Manuel Ferreira de Oliveira, ex--presidente executivo da Galp Energia. Os bons gestores, na sua opinião, fazem assentar as suas decisões num código de ética, em “princípios e valores aos quais os colaboradores se devem vincular”.
Mas, muitas vezes, bonitos códigos de ética não dão origem a bonitas ações. Porque é que as empresas têm códigos de ética se não os seguem? “Não são levados a sério”, responde Ferreira de Oliveira.
Para o economista Vítor Bento, “aquilo que define o nosso caráter não é o que enunciamos que vamos fazer, mas a prática”. O contrário desta ideia é dizer: “Estive dois anos na cadeia, mas quem me conhece sabe que sou uma pessoa séria.”
Numa sociedade em que as figuras públicas são de elevada integridade, “não há tanta aldrabice”, defende Vítor Bento, presidente da SIBS, a empresa que gere os pagamentos por multibanco em Portugal. Há uma diferença entre dizer “ele rouba, mas faz”. E entre “ele faz, mas rouba”. No primeiro caso, estamos perante uma sociedade que desvaloriza o roubo. Para Vítor Bento, que chegou a liderar o Novo Banco e renunciou ao cargo passado dois meses, “a exigência em Portugal tem subido na economia e na banca”.

A experiência na bolsa e agora na banca permite a Maria João Carioca, que saiu da Euronext Lisbon para ingressar no conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos, trazer ao debate a questão dos fundos de investimento e dos novos critérios de investimento. Quando são os próprios fundos que abrem o jogo para dizer quais são as diretrizes éticas de investimento, estamos no bom caminho.
Para José Manuel Fernandes, da Frezite, que produz ferramentas de corte na Trofa para exportação, “há pequenos nadas que fazem os grandes ‘tudo’”. A sua conduta tem sido de rejeitar a corrupção quando lha oferecem de bandeja.

Para Vítor Bento, o crime por vezes compensa o criminoso. Muitas vezes quem pisa o risco consegue melhores resultados. E dificulta a vida a quem tem de viver em desvantagem com a concorrência.
A solução para as empresas é, por um lado, usar a moralidade social como instrumento e, por outro lado, regular os seus comportamentos e penalizar quem pisa o risco. E começar por educar bem as crianças, em casa e na escola. Outra forma de controlar comportamentos eticamente incorretos é, segundo Ferreira de Oliveira, através de administradores verdadeiramente independentes (“alguns são independentes com letra pequena”), pessoas que não precisam do lugar e podem dizer o que pensam sem sofrer represálias.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
O ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, à saída do Tribunal de Santarém. Fotografia: PAULO CUNHA/LUSA

Tribunal declara nula acusação de BdP contra Salgado e Amílcar Pires

Mario Drahi, presidente do Banco Central Europeu. Fotografia: Banco Central Europeu

BCE mantém taxas de juro em zero e estímulos até setembro

João Cadete de Matos, presidente da Anacom

Fotografia: Vítor Gordo/D.R.

Anacom analisa exigência do serviço universal postal

Outros conteúdos GMG
Conteúdo Patrocinado
Conteúdo TUI
Ferreira de Oliveira: “As contas devem ser o que são”