entrevista

Maria José Amich. “A educação superior pode vir a ser um sector de atração”

Maria José Amich, diretora executiva do Lisbon MBA
(Gerardo Santos / Global Imagens)
Maria José Amich, diretora executiva do Lisbon MBA (Gerardo Santos / Global Imagens)

Na primeira entrevista como diretora executiva do Lisbon MBA, Maria José Amich fala dos desafios da mais prestigiada formação portuguesa.

Espanhola de nascença, mas a viver em Portugal há quase 30 anos, Maria José Amich tomou conta do leme da mais prestigiada formação superior portuguesa: o Lisbon MBA. Presença assídua nos rankings internacionais, o curso resulta de uma colaboração entre as escolas de gestão da Nova e da Católica e conta também com uma parceria com o norte-americano MIT. A gestora assumiu o cargo de diretora executiva a 6 de maio e assume-se confiante perante os desafios que tem pela frente. Para trás deixa uma carreira de consultoria de gestão em grandes multinacionais, nos media e na promoção do empreendedorismo.

Quais são as suas expectativas para este novo cargo, como diretora do Lisbon MBA?

Em primeiro lugar, sinto um grande orgulho por ter sido convidada para diretora executiva desta instituição de enorme prestígio, que junta duas universidades de topo em gestão em Portugal e que é a única universidade na Europa que oferece este programa de imersão no MIT. Esta posição invejável que esta instituição tem resultou em que, desde 2013, esteja nas 100 primeiras universidades nos rankings de MBA no mundo.

A parceria com o MIT é essencial para garantir essas boas classificações?

Não só. Gostaria de salientar dois indicadores que são fantásticos nesta trajetória: temos a primeira posição, por dois anos consecutivos, em “international course experience”; e a primeira posição também em “career boost” na Europa e a oitava no mundo. Isto mostra que esta é uma instituição que já tem um enorme reconhecimento no mercado e pelas empresas e com muitos alunos a mostrar vontade de se candidatar, apesar dos critérios de admissão serem bastante restritos. A mim, atraiu-me especialmente este perfil internacional – estamos a falar de um produto mundial, – o que faz com que a minha visão seja de incrementar e consolidar este prestígio, de várias formas.

De que formas?

Uma delas já estamos a fazer, que é aumentar as parcerias com universidades estrangeiras. Queremos que os nossos alunos ainda possam ter mais experiências internacionais à sua escolha; e com empresas também – aqui em Portugal e noutros países, – para podermos oferecer estágios no estrangeiro. E, claro, gostaria de aumentar a quota de alunos de fora, apesar de já termos números bastante interessantes.

A vertente internacional do programa é, portante, uma prioridade.

Até no corpo docente. Temos 35% de estrangeiros. Os nossos professores são outro dos elementos diferenciadores do programa. Têm uma grande proximidade ao mundo empresarial, com uma vasta carreira profissional ativa, trazendo os seus exemplos práticos para a sala de aula. E depois temos a diversidade: tanto geográfica como também de género. Ainda estamos abaixo da média, mas já temos 30% de mulheres no MBA full-time e 25% no MBA executive. Há algum trabalho a fazer aqui.

“É indispensável a qualquer gestor uma carreira internacional e global. Faz parte.”

Há pouco falávamos de rankings. São uma preocupação?

Os candidatos olham para os rankings, sem dúvida. Apesar disso, temos uma série de benefícios, que estão na nossa página web, que mostram de uma forma muito clara qual é a nossa proposta de valor. Falámos desta vertente internacional porque, na verdade, é indispensável a qualquer gestor uma carreira internacional e global. Faz parte. Mesmo que esteja a trabalhar numa empresa nacional tem de ter esta perspetiva. Portanto, desde sempre cuidámos muito dessa parte e vamos continuar a cuidar dela.

Mas a vertente internacional não é o único benefício, ou é?

Não, são cinco no total. Temos também a progressão de carreira, que é uma das motivações dos alunos para fazer um MBA, seja a nível funcional ou salarial, ou até aqueles que têm a sua própria empresa e querem adquirir novas competências e levar o seu projeto a outro patamar. Isso também está nos rankings, é um indicador e o Lisbon MBA, na Europa, está na posição número um. Um terceiro benefício é a personalização da nossa formação. Os alunos conseguem customizar parte do programa. Existe um tronco comum de disciplinas e depois uma série de matérias optativas e nós tentamos sempre, e cada vez mais, introduzir todas as novas tendências desta nova revolução tecnológica que estamos a viver, como artificial intelligence, big data analytics, tudo o que tenha a ver com design thinking innovation e empreendedorismo.

“O mundo não é estático e um líder, hoje em dia, tem de ser capaz de entender e introduzir todas estas novas técnicas e metodologias de gestão dentro da estratégia do seu negócio.”

Têm muita saída, essas matérias?

São importantes porque o mundo não é estático e um líder, hoje em dia, tem de ser capaz de entender e introduzir todas estas novas técnicas e metodologias de gestão dentro da estratégia do seu negócio. Mas nós não formamos técnicos. Formamos pessoas que têm uma compreensão do que é o AI, ou de que forma podem usar big data para tornar os seus negócios mais eficientes, e que consigam melhor identificar os seus clientes e otimizar as suas soluções. Hoje em dia, quem não o fizer e não aproveitar esta tecnologia, mais cedo ou mais tarde, vai ressentir-se nos seus resultados.

Falou de cinco benefícios. Quais são os outros dois?

Temos o debate com os professores, com um corpo docente muito interessante como já mencionei. As turmas nunca chegam a ser mais de 50 pessoas e isto faz com que a interação com o professor seja maior e também entre alunos. E essa diversidade internacional, de género e etária faz com que o debate seja muito mais enriquecido, que venham outras perspetivas. Mas consideramos que o quarto benefício é o lifestyle. Como podem ver neste campus [de Carcavelos], isto é maravilhoso. O edifício é fantástico, as salas têm todas as tecnologias, e temos também o campus dentro da cidade. Portanto os alunos desfrutam de um campus à beira do mar e outro na cidade e ainda o campus do MIT, frente ao rio, que permite que eles tenham esta vida em Lisboa e em Boston, duas cidades dinâmicas, internacionais e inovadoras. Tudo isto faz com que o retorno do investimento seja dos mais valorizados e esse é o nosso quinto benefício. Estamos na posição 31 mundial em “value for money“.

Qual é o retrato dos alunos do Lisbon MBA? Quem são as pessoas que procuram esta formação?

No full-time, que é o nosso programa de um ano intensivo, estamos a falar de uma média de 32 anos, com cerca de oito anos de experiência profissional. Nós admitimos com um mínimo de cinco. Temos 50% de alunos internacionais, de várias nacionalidades: chineses, indianos, brasileiros, norte-americanos, e também europeus. E ainda 35% de mulheres. No programa executivo, em part-time, a média já é de 38 anos. Este tem um formato muito interessante. Para além das sextas e sábados a cada três semanas, temos três semanas intensivas. Permite a quem é de fora de Portugal poder agendar a sua vinda cá. Aqui temos 20% de alunos estrangeiros, com uma percentagem de mulheres semelhante ao full-time e uma média de 12 anos de experiência profissional.

Em relação à empregabilidade e progressão de carreira dos alunos pós MBA, que feedback recebem?

É muito importante que os alunos já venham com algumas expectativas – que vêm, – mas que, durante o programa, se tentem conhecer a si próprios: em termos de valores, de atitudes perante a vida, de objetivos. Reparamos que alguns, influenciados pelos seus meios, vêm com uma quantidade de expectativas que acabam por ser ajustadas ao longo do programa, devido ao coaching individual e coletivo que recebem e também com o nosso programa de soft skills. Estes alunos vão-se apercebendo não só do que são, mas do que querem ser e fazer da vida. Nós não queremos que sejam só bons gestores. Que sejam também boas pessoas, que saibam liderar e inspirar. E que façam uma boa gestão de pessoas. Fazemos muitos projetos de soft skills paralelos aos programas. No final, temos uma formação holística e isso é reconhecido pelas empresas. O que faz com que tenhamos alunos na Amazon e Facebook e também em grandes empresas do setor do grande consumo, saúde, etc. Recolhemos muitos testemunhos de que o nosso corpo de alumni é muito interessante.

E qual o papel do empreendedorismo nestas formações? São muitos os alunos que querem criar as suas empresas?

Não é um acaso que o MIT é o nosso parceiro. O MIT incorpora e personifica o empreendedorismo. Na semana em Boston, os alunos reforçam muito essas áreas. Eu fui professora convidada de empreendedorismo e posso dizer que serve para qualquer um, porque hoje em dia uma atitude empreendedora é necessária também dentro das empresas. É preciso este constante inovar e revisitar dos modelos de negócio, de estar atento e recriar. Nós vemos que sim, que existe um interesse para estas metodologias e análises, em startup, com modelos mais ágeis. Temos de ter uma flexibilidade nos negócios e os nossos programas estão muito assentes nestas metodologias de empreendedorismo e, sim, temos muitas pessoas que são mais ligadas a esta vertente e querem criar o seu próprio negócio.

“Nós temos muito capital em seed, na primeira fase, mas mais à frente, a segunda etapa, ou mesmo a terceira já não é feita em Portugal. Quem se beneficia são os acionistas que vêm de fora.”

De que forma isso está integrado no programa?

Para a formação internacional nós temos, no verão, três hipóteses: ou vão estagiar para uma empresa, ou desenvolvem um tema em parceria com uma empresa no internacional lab – nas nossas universidades parceiras no México, na China ou no Brasil, – e a terceira opção é trabalhar num hub de empreendedorismo com o seu próprio projeto. Temos parcerias com várias incubadoras. Claro que em Portugal, temos tido um boom incrível de empreendedorismo e claro que nos orgulha imenso falar de uma Farfetch, de uma Talkdesk ou de uma Outsystems. Mas temos muitas outras que ainda não chegaram a esse patamar e que também estão francamente bem. Mas há outras áreas no empreendedorismo português que deviam mudar.

Como o quê?

Não me quero estar a meter muito neste assunto, mas acho que fiscalmente, por exemplo, devia haver mais incentivos. Não só para quem pede financiamento mas para quem investe. Nós temos muito capital em seed, na primeira fase, mas mais à frente, a segunda etapa, ou mesmo a terceira já não é feita em Portugal. Quem se beneficia são os acionistas que vêm de fora. Nós poderíamos trazer estes acionistas para investir cá, que a empresa não precisasse de mudar de sede e ir para outras geografias. Nós damos a ideia, mas o dinheiro depois vai para fora.

Como é que o ensino superior em Portugal é visto no estrangeiro entre os pares?

Tanto a Católica como a Nova são super reconhecidas. Nos últimos rankings de educação executiva estas duas escolas não só se mantêm como sobem. Estão nas primeiras 25 da Europa e nas primeiras 55 no mundo. E vê-se, quando apresentamos o Lisbon MBA a outras universidades, rapidamente sabem quem nós somos. Mais interessante ainda é o MIT reconhecer que os nossos alunos são tão bons e estão tão bem preparados como os deles. Isto mostra que a nossa formação é de altíssimo nível e acredito que este reconhecimento só se vai consolidar e aumentar. Acredito até que a educação superior pode tornar-se num sector per se de atração para a economia portuguesa.

“Quanto melhor formação oferecermos nas nossas universidades, melhor será a imagem do país. Estamos a fazer uma boa trajetória.”

Acha que podem surgir no país outras formações deste género?

Somos um país relativamente pequeno. Em Espanha, por exemplo, temos Madrid e Barcelona e basta. Valência e Zaragoza, em termos de ensino superior, já ninguém depois conhece. Eu sou muito a favor da colaboração. Este Lisbon MBA é único. Foram duas universidades de topo que se juntaram por um bem comum. Claro que o parceiro internacional ajudou a consolidar este prestígio. Mas acho que, se cada universidade estivesse por si só, seria mais difícil ter conseguido chegar até aqui. É óbvio que quanto melhor formação oferecermos nas nossas universidades, melhor será a imagem do país. Estamos a fazer uma boa trajetória.

Já se começa a perder aquela ideia de que um português para ter sucesso tem que ir para o estrangeiro estudar?

Claramente. Nós aqui oferecemos o melhor de dois mundos. Temos a possibilidade de estar em casa, mas com uma experiência internacional, seja pelos outros alunos, seja pelo corpo docente, seja pela própria formação. Um aluno do nosso MBA num ano pode passar por três continentes. E queremos oferecer cada vez mais alternativas. Depois, a nível de carreira as portas ficam totalmente abertas ao mundo. Temos empresas de fora que vêm recrutar aqui. Neste sentido, acho que é um ativo fortíssimo para pessoas que moram em Portugal.

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