Harvard Business Review

Há cada vez mais CEO despedidos por questões éticas

CEO

Substituições forçadas nas 2500 maiores empresas cotadas do mundo aumentaram 36% no período entre 2012 e 2016, face aos cinco anos anteriores

As empresas apresentam atualmente uma maior tendência para despedir os seus diretores executivos devido a escândalos ou conduta imprópria por parte desses mesmos diretores ou de outros funcionários – incluindo fraudes, subornos, informações privilegiadas, currículos empolados e leviandades sexuais. As grandes empresas correm mais esse risco do que as mais pequenas, bem como as empresas onde o diretor executivo exerce funções há muito tempo e aquelas onde o diretor executivo é também o presidente do conselho de administração, de acordo com um estudo recente sobre o Êxito dos Diretores Executivos efetuado pela Strategy& da PWC.

Entre 2007 e 2011, as substituições forçadas devido a deslizes éticos representaram 3,9 % de todas as substituições efetuadas nas maiores 2.500 empresas cotadas de todo o mundo. Entre 2012 e 2016, esse número elevou-se para 5,3 % – o que, parecendo embora pequeno, não deixa de representar um aumento de 36 %. Analisando por regiões, a percentagem de substituições devidas a deslizes éticos aumentou de forma mais acentuada nos EUA e no Canadá (de 1,6 por cento de todas as substituições em 2007-2011 para 3,3 % em 2012-16), na Europa Ocidental (de 4,2 % para 5,9 %) e nos países BRIC (de 3,6 % para 8,8 %).

Todos os anos, o estudo identifica as maiores 2.500 empresas cotadas do mundo, definidas pela sua capitalização bolsista à data de 1 de janeiro, e concentra-se naquelas em que se verificou uma substituição de responsáveis executivos nos 12 meses seguintes. Cada empresa que aparente ter mudado de diretor executivo é objeto de uma investigação para confirmar que essa mudança ocorreu efetivamente, quais as razões da mudança (utilizando os relatórios da empresa e as notícias nos meios de comunicação, bem como o próprio conhecimento dos consultores da Strategy&) e informações sobre os diretores executivos cessantes e os recém-nomeados.

Encontramos cinco razões para o aumento dos despedimentos tendo por bases questões de ética. Primeiro, a opinião pública tornou-se mais desconfiada, mais crítica e menos indulgente em relação aos comportamentos impróprios das empresas. Segundo, a governação e as regulamentações em muitos países tornaram-se mais pró-ativas e mais punitivas. Terceiro, cada vez um número maior de empresas procura o seu crescimento em mercados emergentes onde os riscos éticos se acentuam devido aos níveis mais elevados de corrupção e às estruturas de governação menos amadurecidas. Cadeias de abastecimento globais mais extensas aumentam também estes riscos de contrapartida. Quarto, o crescimento das comunicações digitais tem exposto as empresas e os executivos que as dirigem a mais riscos, tanto por parte de denunciantes que procuram expor práticas ilícitas como de piratas informáticos que tentam ter acesso aos dados sobre os clientes. Por último, os ciclos noticiosos de 24 horas por dia e a proliferação de meios de comunicação no século XXI publicitam e ampliam a informação negativa em tempo real.

Os dados reúnem também três fatores que indicam que uma empresa pode correr um risco maior:

Grandes empresas: Entre 2012 e 2016, os diretores executivos de empresas situadas no quartil mais elevado (por capitalização bolsista) tinham consideravelmente mais hipóteses de serem despedidos por deslizes éticos – 7,8 %, em comparação com uma média de 3 % nas empresas mais pequenas. O facto de os despedimentos serem mais nas empresas maiores faz todo o sentido, uma vez que estas empresas são as mais afetadas pelas cinco tendências acima mencionadas e estão sujeitas a um maior escrutínio – seja por parte dos clientes, dos meios de comunicação ou dos acionistas. Além disso, as empresas maiores estão mais bem equipadas para pró-ativamente afastarem um diretor executivo, em caso de necessidade: têm maiores probabilidades de terem em vigor planos de sucessão mais avançados, uma melhor carteira de potenciais candidatos e membros do conselho de administração independentes e experientes que já presenciaram anteriormente situações semelhantes.

Diretores executivos mais tempo no cargo: Chegámos também à conclusão de que os diretores executivos obrigados a abandonar o cargo devido a deslizes éticos tinham uma média de 6,5 anos no desempenho do cargo, comparados com 4,8 anos no caso dos diretores executivos obrigados a abandonar funções por outros motivos. Existem mais algumas razões potenciais. É possível que as empresas com diretores executivos há mais tempo em funções tendam a ser aquelas que estejam a obter resultados financeiros acima da média, pelo que são alvo de menos escrutínio por parte dos meios de comunicação e dos acionistas – especialmente os investidores ativistas – do que as empresas que têm um fraco desempenho. Tornou-se frequente os ativistas divulgarem informação pessoal pouco lisonjeira acerca de um diretor executivo cuja empresa eles têm debaixo de olho com o intuito de levarem por diante os seus objetivos e afastarem essa pessoa e modificarem a estratégia da empresa. É também possível que, quando a liderança de uma empresa é estática, os funcionários possam começar a encarar como normais os deslizes éticos, pelo que é menos provável surgirem alegações de conduta imprópria. Evidentemente, a lei das médias pode ser em parte responsável – quanto mais longo o exercício do cargo por um diretor executivo, maiores as probabilidades de que alguma coisa não corra bem.

Acumulação das funções de diretor executivo e presidente: Quando comparámos os motivos para o despedimento de diretores executivos que acumulavam as funções de presidente do conselho de administração com as razões para o despedimento de diretores executivos que não acumulavam ambos os cargos, chegámos à conclusão de que 24 por cento dos diretores executivos com ambos os cargos foram exonerados devido a deslizes éticos, em comparação com 17 % de diretores executivos exclusivamente – o que representa uma diferença de 44 %. É provável que os conselhos de administração de empresas que separaram os cargos de presidente e de diretor executivo tenham maior capacidade de agir de maneira independente ou de supervisionar as atividades da empresa do que aquelas em que o diretor executivo controla a agenda do conselho de administração. Em alguns casos recentes, os acionistas forçaram os conselhos de administração a retirar ao diretor executivo a presidência do conselho de administração na sequência de algum tipo de escândalo.

Para todos os diretores executivos, e especialmente para aqueles que supervisionam grandes organizações, a responsabilidade de evitar ou minimizar as irregularidades é gigantesca. A melhor maneira de prevenir deslizes éticos no atual ambiente de escrutínio apertada e de escândalo imediato é construir uma cultura de integridade – e implementar estruturas de governação, processos e controlos eficazes que desencorajem a prática de irregularidades.
Kristin Rivera lidera a equipa de riscos de fraude e controlos da PwC e é responsável global pelos clientes forenses e mercados. Associada da PwC US, está sediada em São Francisco.

Per-Ola Karlsson dirige a prática de organização, mudança e liderança no Médio Oriente da Strategy&, o negócio da consultoria de estratégia da PwC. Sediado no Dubai, é associado da PwC Middle East.

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