Reportagem

A aventura dos capitães de Ílhavo na pesca do bacalhau

Fotografia: TIAGO PETINGA/LUSA
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Aos 88 anos, o último dos seus capitães, Aníbal Parracho, enche-se de orgulho e saudade ao lembrar as peripécias

 

É de perigo, companheirismo, sacrifício e algumas lágrimas que se faz a vida de quem anda ao bacalhau, recordam duas gerações de capitães de Ílhavo que enfrentaram os mares gelados da Terra Nova e da Noruega.

Entre a derradeira saída de Aníbal Parracho ao comando do lugre Gazela, em 1969, e a primeira incursão do filho, Carlos Parracho, na pesca do bacalhau decorreram menos de 20 anos, mas quase tudo mudou.

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Aníbal Parracho. Fotografia: TIAGO PETINGA/LUSA

O Gazela está atualmente fundeado na cidade norte-americana de Filadélfia e acolhe visitantes interessados em descobrir a “faina maior”, o nome que era dado à pesca do bacalhau à linha praticada pelos navios portugueses até aos anos 70. Aos 88 anos, o último dos seus capitães, Aníbal Parracho, enche-se de orgulho e saudade ao lembrar as peripécias desta faina indissociável da tradição gastronómica portuguesa que tem, no Natal, a sua maior expressão.

Os navios saíam em direção aos Grandes Bancos da Gronelândia e da Terra Nova (no Canadá) no princípio de abril e só começavam a regressar em finais de setembro ou no início de outubro, altura em que deixava de haver condições para trabalhar devido à deterioração das condições atmosféricas.

Aos 88 anos, o último dos seus capitães, Aníbal Parracho, enche-se de orgulho e saudade ao lembrar as peripécias

“Aquilo lá, quando as tempestades caem, caem com força”, explica o antigo capitão, recordando o “grande susto” que lhe pregou o ciclone Kara à saída do porto de St. John’s, no Canadá, numa das viagens de regresso a Portugal. Nos Bancos passavam-se “maus bocados” devido ao nevoeiro “quase constante”, diz.

Era o início da década de 50 e os navios ainda não tinham radares, o que não ajudava na deteção do peixe: fundeavam num local onde se supunha que houvesse bacalhau seguindo “a intuição do capitão” e as amostras de peixe de algum bote que chegava mais carregado.

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Carlos Parracho. Fotografia: TIAGO PETINGA/LUSA

Se estava bom tempo “arriavam-se os botes”, conhecidos como dóris, cada um com um pescador, apenas acompanhado de uma merenda de pão, peixe frito e café que lhe aliviava o desconforto durante as solitárias horas de pescas.

“A partir da altura em que o pescador saía do navio, era ele o capitão do bote”, diz Aníbal Parracho. Eram eles que decidiam para onde e quanto se distanciavam do navio e alguns chegavam a afastar-se cinco milhas na ânsia de obter mais peixe.

A jornada de trabalho dos pescadores no mar começava as quatro da manhã, “com um bom almoço” e acabava por volta das duas ou três horas da tarde

A jornada de trabalho dos pescadores no mar começava as quatro da manhã, “com um bom almoço” e acabava por volta das duas ou três horas da tarde, dependendo da quantidade de pescado que os botes faziam.

Porque os pescadores, que ganhavam de acordo com o que pescavam, eram “gananciosos” e queriam trazer o máximo de bacalhaus que podiam, muitas vezes com risco da própria vida, comenta o capitão, mostrando uma fotografia antiga em que um dóri quase afunda sob o peso da carga.

A jornada de trabalho dos pescadores no mar começava as quatro da manhã, “com um bom almoço” e acabava por volta das duas ou três horas da tarde

“Era uma vida muito dura e perigosa, infelizmente alguns pescadores ficaram lá”, entristece-se, reconhecendo que era um trabalho mal pago face aos riscos a que estavam expostos. Uns desapareciam durante o nevoeiro, outros eram abalroados por navios, outros caíam ao mar e havia ainda quem virasse porque carregava demasiado o bote. Os melhores chegavam a regressar a Portugal com mais de 200 quintais, ou seja, 12.000 quilos de bacalhau. “Toda a gente os queria, era uma luta”, relata Aníbal Parracho.

A bordo, continuavam o trabalho. Era preciso tratar do peixe e aqui as tarefas eram diferenciadas: os troteiros cortavam as cabeças, os escaladores abriam. O peixe era depois colocado em selhas, escorrido e seguia finalmente para o porão onde era salgado.

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Desta modalidade de pesca, que acabou com o 25 de Abril, já não tem memória o filho de Aníbal, Carlos Parracho. Quando se estreou no arrastão João Ferreira, em 1987, já não se fazia pesca à linha, os dóris tinham-se tornado num objeto de museu e os navios iam pescar ao largo, explica, enquanto percorre o navio-museu Santo André, em tudo semelhante ao da sua viagem inaugural de pesca.

Nos arrastões, os porões já se dividiam entre a área de salga e a de congelação, pois pescavam-se outras espécies, como a solha, a raia ou o ‘red fish’, mas continuavam a encher-se até acima, espalhando pelo navio “o cheiro intenso” da salmoura e do bacalhau que era absorvido pela madeira do porão.

Carlos Parracho passou pela Terra Nova, pela Noruega e também pelas Falkland para ir pescar lula

Na ponte de comando, o conjunto de equipamentos tecnológicos composto por sondas, radares e VHF para comunicar com outros navios já simplificava a deteção dos bacalhaus e ajudava na navegação. Mas o trabalho continuou a ser duro.

“Por aquilo de que me apercebi em conversas com o meu pai e outras pessoas mais antigas, a vida no tempo da linha seria muito dura. No entanto, no tempo que passei na pesca continuei a achar que era uma vida dura. Com outras regalias, com outros meios, mas sempre uma vida dura”, salienta Carlos Parracho, que passou pela Terra Nova, pela Noruega e também pelas Falkland para ir pescar lula.

Por aquilo de que me apercebi em conversas com o meu pai e outras pessoas mais antigas, a vida no tempo da linha seria muito dura”

Uma experiência que se tornava mais intensa devido ao convívio “forçado” e prolongado num espaço exíguo: “A partir do momento em que uma pessoa vai para o mar pode regressar ao fim de três, quatro ou cinco meses e não vai a terra. São cinco meses enfiado dentro de um navio pequeno, com 40, 50 pessoas que têm de conviver constantemente, que têm de trabalhar em equipa”, um trabalho com um mínimo de 12 horas diárias e pouco tempo para o descanso e, por vezes, com momentos trágicos.

“Houve muitos bons momentos, passou-se bons bocados, mas essencialmente os que ficam são os mais difíceis e o pior de todos é perder alguém”, desabafa o Carlos Parracho. Foi o que aconteceu nas Falkland quando um pescador caiu do navio durante a manobra de recolha de rede e desapareceu: “Perdemos muitas horas à procura dele, nós e mais 20 navios que estavam connosco.” Uma “infelicidade” que deixou o navio “num estado muito complicado de gerir durante 15 dias” e marcou para sempre o capitão.

Ainda assim, do tempo em que andou ao mar, entre petroleiros, contentores e navios de pesca, é este o trabalho de que sente mais saudades. “Era mais desafiante. Era um desafio todos os dias, todas as horas, era outro tipo de vivência, que agregava mais as pessoas, desde oficiais aos pescadores”, garante.

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