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Afaste as más ações com uma citação em que acredita

Fotografia: EPA/ROLAND WEIHRAUCH
Fotografia: EPA/ROLAND WEIHRAUCH

“Pratica as tuas ações secretas como se os homens que mais admiras fossem suas testemunhas”. Agora, conto consigo para fazer o que está certo.

A PESQUISA: Sreedhari Desai, professor-assistente de Comportamento Organizacional na Faculdade de Gestão Kenan-Flagler da Universidade da Carolina do Norte, desenvolveu uma série de estudos em que os sujeitos acreditavam fazer parte de uma equipa virtual que disputava um jogo.

Os participantes eram informados de que ganhariam mais dinheiro se conseguissem que os seus companheiros de equipa espalhassem, sem querer, uma mentira.

Sem que os participantes o soubessem, os outros jogadores eram investigadores. Nas assinaturas dos seus e-mails para os sujeitos, alguns incluíam uma citação sobre integridade, alguns uma citação neutra e outros nenhuma citação. Revelou-se que os sujeitos tinham menos probabilidade de pedir aos que usavam a citação virtuosa que praticassem a ação desonesta.

O DESAFIO: É mesmo possível protegermo-nos de maus comportamentos apregoando os nossos valores? Ou as pessoas simplesmente acharão que estamos a fazer-nos de santos? O professor Desai, defenda a sua pesquisa.

O que verificámos claramente foi que, caso as pessoas tivessem decidido praticar uma ação não-ética, tinham muito menos probabilidade de envolver alguém que apresentasse uma citação de teor moral do que de abordar outros membros da equipa. Também descobrimos que, quando os sujeitos se encontravam perante uma citação desse género, a probabilidade de enviarem uma mensagem enganosa era geralmente menor. Assim, uma citação ética não só protegia um colega de equipa de ser convidado a ter um mau comportamento, como parecia regular os próprios sujeitos.

Qual era a citação apresentada?

“O sucesso sem honra é pior que a fraude”. É uma frase que, claramente, toma posição do ponto de vista ético. A citação neutra era “O sucesso e a sorte andam de mãos dadas”.

Noutro estudo, não usámos mensagens de e-mail mas pedimos aos participantes que construíssem pequenos avatares digitais de si mesmos. De facto, os participantes julgavam que o estudo era sobre avatares. As camisas que os avatares usavam tinham marcas. Algumas eram de marcas “morais”, como a YourMorals.org, outras não eram. O resultado foi similar: quando os participantes viam que um membro da equipa tinha um avatar que usava uma marca moral, não tentavam convencê-lo a participar numa falácia.

Noutro estudo ainda, preparámos as pessoas para se sentirem poderosas antes de fazer o jogo, só para ver se o poder, de certa forma, mitigava o efeito do talismã moral. Concluímos que não, pois obtivemos resultados muito semelhantes.

O que é que causa estes resultados?

Quando alguém está em posição de pedir alguma coisa desonesta, pode não pensar conscientemente, “Não vou pedir àquela pessoa”. Em vez disso, pode perceber a pessoa como moralmente “pura” e sentir que pedir-lhe que faça coisas “sujas” torna uma transgressão moral ainda pior. Ou pode recear que uma pessoa com sentido de ética recuse, simplesmente, o pedido.

Os jogos realizados em laboratório são artificiais. Tem a certeza de que isto pode ser transposto para o mundo real?

Nos inquéritos realizados em empresas, uma elevada percentagem de empregados relata que lhes foi pedido que fizesse coisas desonestas. Foi assim que isto tudo começou.

Eu e a minha co-investigadora, Maryam Kouchaki, queríamos saber se seria possível dar poder aos empregados, para que os seus supervisores, para começar, não lhes fizessem esse tipo de pedidos. Realizámos uma análise de empregados e gestores na Índia. Perguntámos aos chefes se tinham notado algo de religioso nos seus subordinados, como pintas vermelhas na testa, imagens de deuses hindus ou citações da Bíblia ou do Corão nos seus espaços de trabalho. Sabíamos, por pesquisas anteriores, que as pessoas associam esses símbolos religiosos à moralidade.

Também perguntámos aos subordinados se tinham recebido um pedido para praticar qualquer ação menos ética nos seis meses anteriores. Tendo controlado aspetos como a satisfação no trabalho, o desempenho e a qualidade das relações de trabalho, verificámos, ainda assim, que as pessoas que usavam ou exibiam de alguma forma símbolos religiosos eram mais poupadas a esse género de solicitações.

Isso é animador, porque é uma intervenção muito simples.

O que me animou mais foi o facto de também termos controlado a variável “crença religiosa”. Mesmo que os gestores estivessem expostos a símbolos de uma religião diferente da sua, o efeito mitigador continuava a verificar-se. Ouvimos frequentemente falar, na comunicação social, de tensões inter-religiosas, mas isto sugere que os símbolos religiosos nos comunicam algo de universalmente positivo.

Este efeito não poderá desvanecer-se se toda a gente começar a exibir citações e símbolos?

Em parte, foi por isso que quisemos fazer o inquérito no local de trabalho. Se eu vir Krishna no seu cubículo todos os dias, será que esse efeito perderá força ao longo do tempo? Os gestores poderão ficar dessensibilizados? Aparentemente, isso não acontecia.

São só os símbolos religiosos e as citações sobre ética que nos afetam?

Gostava muito de estudar outro tipo de indicadores. Suspeito que, se mostrasse citações acerca de causas ambientais — sobre a santidade da natureza — haveria menos probabilidades de o meu chefe me pedir que despejasse químicos num rio. Obviamente, é necessária evidência empírica, mas prevejo que o efeito seria o mesmo.

Nesse caso, recomenda que os empregados exibam a sua moral de maneira mais evidente?

Bem, só para que fique claro, não testámos a moralidade das pessoas. Testámos a forma como os outros percebiam símbolos de moralidade — e como se comportavam em resposta a esses. É possível ter uma linda citação no e-mail e ser uma pessoa desonesta. Mas, em geral, diria que as conclusões confirmam a exibição de símbolos de moralidade como forma de mostrar aos outros que somos boas pessoas e reduzir as hipóteses de nos pedirem que façamos coisas erradas.

Poderão esses símbolos também evitar que os chefes tomem medidas difíceis?

Também fizemos alguns testes em relação a isso. Num outro estudo, descobrimos que a exibição de símbolos morais não afetava a probabilidade de o chefe despedir a pessoa. E, num outro, procurámos perceber se estes afetavam as perceções dos outros acerca da capacidade de liderança e da competência, e percebemos que não.

A propósito, perguntámos a essas pessoas se se lembravam das citações morais dos líderes que estavam a avaliar. Curiosamente, as pessoas nem sempre eram capazes de identificar a citação que tinham acabado de ler, mas continuavam a ter uma impressão favorável da moralidade do líder. Talvez fosse um efeito subconsciente.

E se este resultado for peculiar a certas culturas?

Podem existir fronteiras culturais. De facto, estamos a estudar a forma como as pessoas reagem a símbolos morais na Austrália. O nosso estudo preliminar demonstrou que as pessoas ali são céticas relativamente a exibições de moral. Aparentemente, acham que o indivíduo que tem a citação está armado em santo e deve ter algo a esconder. Mostraram mais tendência a poupar as pessoas com citações divertidas ou parvas. Tenho de explorar o que torna os australianos diferentes.

Qual é a importância desta pesquisa?

O que me agrada nela é não ter nada a ver com comportamentos que sejam publicamente conhecidos. Mede o que as pessoas fazem quando têm perfeita consciência de que mais ninguém vai saber que estão a ser desonestas. E o que me dá alento é que, em geral, a incidência do comportamento não ético diminuiu graças às exibições de moralidade. Não só em relação ao que as pessoas pediam aos outros que fizessem, mas também ao que elas próprias faziam. Para mim, isto significa que podemos fazer melhor, que o copo está meio-cheio.

Mas fez uma asneira. Se tivesse iniciado esta conversa com uma frase acerca da integridade, eu teria menos probabilidade de o citar incorretamente e de a sua pesquisa parecer tola.

Creio que ainda vou a tempo. “Pratica as tuas ações secretas como se os homens que mais admiras fossem suas testemunhas”. Agora, conto consigo para fazer o que está certo.

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