Conversas PortoBay

“Ascensão social é muitas vezes limitada pelos próprios pais”

Ciclo de conversas " 30 Portugueses  1 Pais" no Hotel Portobay com Luis Osorio . Convidada: Maria Filomena Mónica.   (PAULO SPRANGER/Global Imagens)
Ciclo de conversas " 30 Portugueses 1 Pais" no Hotel Portobay com Luis Osorio . Convidada: Maria Filomena Mónica. (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

A socióloga Maria Filomena Mónica foi a convidada desta semana do ciclo de entrevistas 30 Portugueses, Um País, organizado pelo Grupo Portobay.

A primeira palavra que Maria Filomena Mónica disse em bebé não foi “mãe” e “pai”, mas sim a palavra “não”. Durante a última entrevista pública do ciclo de 30 conversas sobre Portugal promovido pelo grupo hoteleiro PortoBay, em Lisboa, a investigadora e escritora contou que a sua mãe tinha ainda escrito no seu Livro de Bebé que “eu era muito esquisita, fazia asneiras e pedia para ser punida”, confidenciou.

A negação no sentido de oposição é um traço da sua personalidade. Principalmente o “não” em relação aos políticos. “Tudo o que os políticos dizem, eu não acredito.” A socióloga, que luta contra uma doença sem cura, um mieloma múltiplo, sente-se triste com Portugal. “Vejo o país muito corrupto e isso entristece-me.”

As sociedades escandinavas – explica – têm pouquíssima corrupção porque têm instituições e sistemas para vigiar e punir quem está no poder. Reconhece que a sua grande desilusão com a corrupção decorre das altas expetativas de igualdade que alimentou após o 25 de abril de 1974.

Admirou-se com as acusações a Ricardo Salgado, perguntou Luís Osório, escritor e jornalista, moderador das 30 entrevistas sobre Portugal que darão origem a um livro editado pela Guerra e Paz, a publicar no final de 2019. “Sim, fiquei admirada porque o conhecia, ele faz parte do clã de Cascais.” “O Ricardo Salgado teve uma pose de arrogância na Assembleia da República, típica daquela classe”, disse sem rodeios. Elogiou Mariana Mortágua do Bloco de Esquerda pelo seu sentido vigilante: estava bem preparada e confrontou-o com as perguntas certas.

Sobre Pedro Passos Coelho diz que não lhe deu a devida importância quando foi primeiro-ministro. “Não percebi que, perante a troika, tinha pouca margem de manobra para distribuir o dinheiro.” Hoje reconhece que o ex-líder do PSD “foi corajoso ao dizer ‘não’ a Ricardo Salgado.” Depois do caso Sócrates, “vir alguém que se opõe a uma potência económica [Grupo Espírito Santo] é de louvar.”
“Sou assumidamente de esquerda”, sublinha, ressalvando que não gosta de se identificar com partidos e que para si basta que “haja liberdade de expressão, de pensamento e religiosa.” Tem, isso sim, uma preocupação fundamental: a desigualdade social. Não concebe que sejam necessárias cinco gerações para que o filho de alguém da classe baixa consiga subir de escalão social. “Nos países nórdicos são precisas apenas duas gerações.”

Constata que “a ascensão social é muitas vezes limitada pelos próprios pais.” Durante as sessões de quimioterapia que teve de fazer e que demoravam entre quatro a cinco horas, falou com muitos enfermeiros de fora de Lisboa. Estes jovens de Trás-os-Montes ou Viseu lutam ainda hoje contra as suas famílias que os querem ver voltar à terra, mesmo que passem a ganhar menos. “Não entendem a ambição dos filhos.” Aliás, defende: “em Portugal ambição é vista como uma coisa má.”

Apesar de pertencer à elite de Cascais, tem, desde sempre, uma profunda consciência das diferenças entre classes sociais, entre ricos e pobres. Maria Filomena Mónica, filha de “lavradores abastados”, como a própria define, e “socializada entre a aristocracia de Cascais”, lembra-se de fazer questão de visitar os bairros de lata e de levar cobertores e sacos de feijão. Mas não demorou a descobrir que as diferenças sociais e a pobreza não se resolvem com caridade pontual – “seria preciso uma revolução social”, exclama.

Do interesse teórico, a apaixonada pelo estudo da História e da sociedade, que adora passar o seu tempo a investigar entre as paredes da Biblioteca Nacional, concretiza e faz. Há cerca de dois meses chegou às livrarias o seu novo livro Os Ricos sobre a origem do enriquecimento em Portugal – antes tinha publicado Os Pobres. Estudou nove famílias ricas, começando no Duque de Palmela, para perceber que a origem da riqueza de muitas delas é um contrato, uma grande encomenda feita pelo Estado. As exceções são os casos de Belmiro de Azevedo (Sonae) e de Américo Amorim (Corticeira Amorim), que não enriqueceram dessa forma. Esta semana lançou o livro Nunca Dancei num Coreto, a compilação das crónicas que publicou no semanário Expresso “sobre as coisas que não fiz na vida.”

Licenciada em Filosofia na Universidade de Lisboa em 1969 e doutorada em Sociologia pela Universidade de Oxford em 1977, foi professora no ISCTE e investigadora no Instituto das Ciências Sociais. O seu primeiro emprego foi como tradutora no Ministério da Saúde, que arranjou em apenas um mês, logo após o primeiro ano da universidade. Aí aprendeu a fazer croché para combater o tédio de não ter nada para fazer. Hoje é vegetariana e só come ovos biológicos. Apesar de não gostar de ter empregados em casa, contratou uma rapariga que lhe vai buscar o almoço ao mercado biológico e assim garante que faz uma boa alimentação.

Na calha tem um novo projeto: explorar as grandes polémicas dos últimos 200 anos, como a da construção dos caminhos-de-ferro. Porque houve pessoas que disseram que Portugal devia ser rico e desenvolvido e outras que devia ser pobre, questiona a portuguesa que adora a ópera de Verdi e as Missas de Schubert – “põem-me lágrimas”.

O ciclo de conversas 30 Portugueses, um País, começou em maio de 2018 e termina em fevereiro de 2019. São sempre à terça-feira, às 18 horas, na Rua Rosa Araújo, em Lisboa. Em agosto a iniciativa “vai de férias” e regressa a 4 de setembro com o advogado José Miguel Júdice como convidado.

 

 

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
O presidente do Partido Social Democrata, Rui Rio. JOSÉ COELHO/LUSA

Rui Rio vai propor ao PSD que chumbe o orçamento

Amoreira Óbidos

Espanha desapareceu do mapa e França descobriu o velho oeste português

António Mexia  (EDP) durante a cerimonia de assinatura de financiamento por parte do Banco Europeu de Investimento (BEI) da Windfloat Atlantic. Um projecto de aproveitamento do movimento eólico no mar ao largo de Viana do Castelo.
(Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

EDP quer exportar tecnologia do maior parque eólico flutuante do mundo

Outros conteúdos GMG
“Ascensão social é muitas vezes limitada pelos próprios pais”