Crónicas na Corda Bamba: Eu entendo as empresas que não querem grávidas

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Li que uma empresa obrigava as mães a assinar um documento onde se comprometiam a não engravidar. Eu entendo a empresa em questão porque isto de ser mãe é uma gigantesca limitação laboral.

Uma mãe deve gozar todos os meses possíveis de licença de maternidade. Uma mãe deve ter direito a horário reduzido que lhe permita continuar a amamentar, ou simplesmente ser ela a dar o biberão e ainda ter tempo para brincar com o(s) seu(s) filho(s). E depois deve sair a horas de ir buscar os miúdos à escola e ainda empurrar o baloiço com luz do sol, antes de irem comprar fruta para o jantar que vão preparar juntos.

Já lá vão seis anos de horário reduzido e venham mais seis porque uma mãe deve fazer os trabalhos de casa com o(s) seu(s) filhos. Ouvir as primeiras palavras, as primeiras leituras em voz alta, dar um abraço depois da primeira conta de multiplicar. Uma mãe deve assinar os testes com tempo para olhar para eles. E respirar fundo enquanto conversa sobre a zanga com o melhor amigo, ou com o primeiro amor.

Ainda pior que o horário reduzido são as faltas: nenhum mimo cura a varicela como os beijos de mãe, e há as febres do inverno, as gastroenterites do ano inteiro, aquelas que precisam da mão da mãe a apoiar a testa.

Mas, esta empresa, que obriga as mães a assinar um documento onde se comprometem a não engravidar, e a todas as outras que o fazem de forma “chantagista”, assumida, encoberta ou por sugestão, gostava de dizer que as mães trabalham em seis horas o que outras pessoas não fazem em dez. Gostava que soubessem que se as deixassem trabalhar a partir de casa produziam o triplo. Gostava que soubessem que os neurónios que os filhos queimam se transformam noutros cheios de criatividade e soluções. As mães, que podem faltar com a tranquilidade dos filhos que querem cuidar, regressam igualmente tranquilas e até agradecidas, com vontade de compensar por tudo o que ficou por fazer.

A essas empresas – acho bem que avisem antes para que fujamos delas, em vez se sermos sujeitas a processos de assédio terríveis até ao desespero que nos leva a deixar o emprego em vez de as obrigar a infringir a lei – aconselho a arranjar um documento igual para futuros pais. Porque aquele parágrafo onde escrevi mãe pode ler-se igualzinho para cada pai. E os homens, cada vez mais, sabem disso.

Jornalista e autor do blog Dias de uma Princesa

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