Crónicas na Corda Bamba: O que fazer a todas as coisas em que gosto de me perder?

Catarina e a casa nova
Ainda a propósito das minhas mudanças, num dos momentos de desespero perante dezenas e dezenas de caixotes, pensava no que é essencial. Sei exatamente aquilo que preciso para viver, mas existirão objetos que devemos mesmo guardar?"> Catarina e a casa nova

Ainda a propósito das minhas mudanças, num dos momentos de desespero perante dezenas e dezenas de caixotes, pensava no que é essencial. Sei exatamente aquilo que preciso para viver, mas existirão objetos que devemos mesmo guardar?

Vivi até aos 19 anos na mesma casa. Uma casa comprada pelos meus pais: a nossa casa de família.

Na casa dos meus pais, assim como na casa dos meus avós, existia esse mundo fascinante das memórias. As memórias estão guardadas em gavetas e armários altos e transportam-nos para as histórias da nossa vida, e um bocadinho mais atrás, para a história da nossa família.

Em casa dos meus pais existiam gavetas cheias de negativos e fotografias antigas, os jornais para os quais o meu pai tinha escrito, os jornais infantis onde publiquei, a caixa de costura da avó que nunca conheci e todas as colchas de croché que o meu avô (sim, o pai da minha mãe) fazia.

A minha mãe ainda hoje guarda isso tudo e os livros com que cresci, os legos, e os bonecos com que brinquei.

Em casa do meu avô Beato estavam livros que tinham sido impressos antes de qualquer guerra mundial, os restos de tecidos da minha avó costureira (que hoje guardo numa manta que adoro), enormes e pesadas molduras com retratos de parentes muito distantes.

Guardo cada instante em que me perdi a mexer nestas memórias como uma parte importante de mim, daquilo que sou. E percebo que algumas coisas que escolhi dar, deitar fora e trocar têm mais valor do que imaginava quando as encontro à venda em lojas de antiguidades.

Mais alguém tem uma coisa em plástico para o arroz feijão e açúcar que girava? Não deitem fora, vale uma fortuna!

Eu acho que as memórias são essenciais. E não falo daquelas que guardamos no computador-cabeça, mas daquelas em que podemos tocar.

E ser minimalista é compatível com isto? Que memórias escolho guardar? O que faço aos caixotes com desenhos e pinturas (sem jeito nenhum) que os miúdos fizeram enquanto cresceram?

Eu gosto de ver e rever as centenas de folhas A4, com todos os meus desenhos. O que faço aos jornais onde vi o meu nome impresso? Os bilhetes de cinema e dos primeiros espectáculos? O que faço a todas as coisas em que gosto de me perder, a remexer e a revisitar memórias? Serão essenciais? Ou posso carregar menos caixotes na próxima vez que mudar de casa?

Escritora e autora do blog Dias de Uma Princesa

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Dívida pública está nos 130,3%

Endividamento da economia atinge novo recorde em abril

REUTERS/Pedro Nunes/File Photo

Programa de arrendamento acessível arranca a 1 de julho. Tudo o que deve saber

Zeinal Bava, ex-PT e Oi

Zeinal Bava faz promessa: “Chegou o momento de esclarecer tudo”

Outros conteúdos GMG
Crónicas na Corda Bamba: O que fazer a todas as coisas em que gosto de me perder?