Carreiras

CV com foto? Se for bonita, talvez não

Fotografia: REUTERS/Yuya Shino
Fotografia: REUTERS/Yuya Shino

Valerá a pena enviar uma foto com o CV quando esta não é pedida?

Se for bonita, talvez não. Pode nunca ter pensado nisso, mas há departamentos de RH que têm verdadeiros monstros preconceituosos e discriminadores.

Os currículos nos EUA e Reino Unido raramente incluem fotos, daí que poderá ser tentador pensar que poderá ficar em vantagem se incluir uma fotografia sua na próxima vez que se candidatar a um emprego. Certamente destacar-se-ia da multidão, e com as fronteiras pessoais a ficarem cada vez mais esbatidas e as fotos de todo o mundo no Facebook, qual é o mal de mostrar a um empregador o seu aspeto?

A verdade é que poderá estar a prejudicar as suas hipóteses de ser contratado assim como a contribuir para um problema maior: permitir que a parcialidade influencie os processos de contratação das empresas.

As fotos nos CV, um fenómeno da era digital, já são exigidos na China, e são comuns na maior parte da Europa. E estão a começar a ser populares na Turquia, Israel e outros sítios. Embora ainda sejam raros nos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido, o tabu silencioso nestes países parece estar a afrouxar.

O que poucas pessoas pensam é quem poderá estar no lugar de receber o currículo e como é que os preconceitos inconscientes dessa pessoa poderão fazer toda a diferença.

Os departamentos de recursos humanos, pelo menos no ocidente, são constituídos predominantemente por mulheres, muitas das quais são jovens e solteiras. Num estudo sobre respostas a fotos de CV, Ze’ev Shtudiner do Ariel University Center e eu encontrámos uma forte parcialidade entre estas “selecionadoras” contra mulheres atraentes. (O estudo foi realizado em Israel, onde as fotos nos CV são opcionais.)

Em empresas que anunciavam vagas para emprego, as mulheres bonitas (assim encaradas por um painel que reunimos) recebiam menos 6% de chamadas do que as mulheres com um aspeto normal e 23% menos do que as mulheres sem fotografias. O “castigo” para a beleza era muito mais pequeno e menos significativo quando se tratava de agências de emprego, talvez porque as mulheres que estavam a selecionar os CV não tinham de trabalhar lado a lado com as candidatas.

Tanto nas empresas como nas agências, as selecionadoras reagiam favoravelmente a fotos de homens bem-parecidos, fazendo significativamente mais chamadas a estes candidatos do que aos homens com aspeto normal e aos que não tinham anexado fotos.

Estes prémio para a beleza masculina não foi uma surpresa tendo em conta o corpo extenso de investigação psicológica que mostra que as pessoas atraentes são geralmente encaradas de forma positiva em várias áreas. Acredita-se que são mais felizes, mais saudáveis, mais inteligentes, que têm mais sorte no casamento, e por aí fora. Assim, as respostas às fotos nos CV de mulheres atraentes destacam-se verdadeiramente e dizem-nos muito sobre os preconceitos das selecionadoras.

Quando estiver a tentar decidir se deve anexar essa foto, outro ponto a considerar é se é uma mulher num país onde as fotos nos CV são raras, enfrentará um castigo maior por ser inconformista. Tanto nas empresas como nas agências de emprego em Israel, onde apenas 15% a 20% dos candidatos incluem normalmente fotos, 43% dos inquiridos num inquérito telefónico pós-experiência expressaram associações positivas com homens que incluíram fotos, enquanto apenas 16% reagiram negativamente.

Mas vimos o efeito contrário com as fotos de mulheres: só 12% dos inquiridos reagiu de forma positiva, e 34% expressou sentimentos negativos. As mulheres que incluem as suas fotografias são vistas como alguém que se está a esforçar demais para se promover, ou são consideradas menos sérias que outras candidatas.

A conclusão a que eu e Ze’ev chegámos é que existe uma clara distorção no mercado de talentos. Em países em que as fotos nos CV são comuns, os selecionadores eliminam por rotina candidatos qualificados sem lhes darem uma oportunidade de provarem o que valem em pessoa. Em países onde não se usa incluir fotos, uma foto pode distorcer o processo de seleção de uma forma ainda mais grave.

Uma conclusão do nosso estudo é que as empresas poderão estar a fazer a elas próprias um mau serviço ao permitir que os seus departamentos de RH e responsáveis de contratação se mantenham predominantemente femininos. Criar uma mistura de sexos mais equilibrada poderá reduzir o nível de preconceito contra as candidatas cujo único defeito é serem fisicamente atraentes.

Se este fosse um mundo perfeito, anexar uma foto ao seu CV não faria mais do que permitir a um possível empregador associar uma cara ao seu nome. Mas no mundo real, disponibilizar a sua imagem desencadeia discriminação contra a beleza nas primeiras fases do processo de contratação.

Texto orginalmente publicado em março de 2013

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