Deixe de se preocupar em tomar a decisão certa

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Muito do meu trabalho como presidente executivo passa por ajudar a pessoas na luta pela tomada de decisões importantes. Algumas das decisões implicam a exclusão de todas as outras hipóteses e muitas vezes as as implicações de estar "errado" são substanciais: Que caminho devo escolher para a minha carreira? Que oferta de trabalho devo aceitar? Devo mudar-me para um outro trabalho ou devo ficar onde estou?

Decisões difíceis como estas lembram-me um comentário feito por Scott MacNealy – o cofundador da Sun Microsystems e CEO por mais de 22 anos – numa palestra a que assisti enquanto estava na escola de negócios na Universidade de Standford. Perguntaram a MacNealy como tomava decisões e ele respondeu dizendo, que efetivamente, “É importante tomar boas decisões. Mas passo menos tempo e energia em estar preocupado em “tomar a decisão certa” e muito mais tempo e energia em assegurar-me de que todas as decisões que tomo se tornam acertadas”.

Aqui estou a citar, mas a minha memoria deste comentário é muito lúcida, e o seu significado é cristalino. Antes de tomarmos qualquer decisão – especialmente uma que seja difícil voltar atrás – estamos compreensivelmente ansiosos e focados em identificar qual a melhor opção devido ao risco de podermos estar “errados”. Mas uma consequência dessa mentalidade é que se nos focarmos demasiado nesse momento e nessa escolha, isso faz-nos perder a noção de tudo o que vem a seguir. Apenas selecionar a “melhor” opção não nos dá a garantia que as coisas vão correr bem a longo prazo, tal como escolher a opção menos boa não nos irá condenar ao fracasso nem à infelicidade. É o que acontece depois (e nos dias, meses, e anos que se seguem) que finalmente fica determinado que essa decisão foi de facto a “certa”.

Outro aspeto desta dinâmica é que o nosso foco em tomar a decisão “certa” pode facilmente levar a uma paralisação, porque as opções que estamos a considerar são difíceis de classificar. Como podemos de facto determinar que um caminho para a nossa carreira será o “melhor”, ou que oferta de emprego devemos aceitar, ou se devemos mudar-nos para o outro lado do país? Obviamente, não conseguimos. Existem demasiadas variáveis. Mas quanto mais ansiamos por um algoritmo objetivo para classificar as nossas opções e tomar a decisão por nós, mais nos distanciamos dos fatores subjetivos – a nossa intuição e emoções – que nos irão finalmente puxar para uma direção ou outra. Por isso ficamos encalhados, à espera de um sinal que nos indique o caminho.

Acredito que a forma de nos desencalharmos em frente a uma decisão assustadora e possivelmente paralisante está embebida no comentário de MacNealy. Envolve uma fundamental reorientação do nosso mindset: Focar-nos na escolha minimiza o esforço que, inevitavelmente, somos obrigados a fazer dada qualquer opção de ter sucesso e diminui o nosso sentido de agência e de propriedade. Em contraste, com foco no esforço que será necessário após a nossa decisão não só nos ajudará a ver o meio pelo qual qualquer escolha pode ter sucesso, também restaurará o nosso sentido de pertença e nos lembra que enquanto aleatoriamente desempenharmos um papel em cada resultado, o nosso lugar de controle reside nas nossas atividades do dia a dia mais do que em qualquer uma decisão.

Então, enquanto defendo o uso da informação existente para classificar as nossas opções no sentido mais lato. Finalmente ficamos melhor servidos quando evitamos a paralisia pela análise e vamos em frente através de:

– Especial atenção aos sentimentos e emoções que acompanham as decisões que temos que enfrentar.

– Avaliar o quão motivados estamos para trabalhar para o sucesso de qualquer uma das opções.

– Reconhecer que, aparte a opção que escolhemos, os nossos esforços para suportar o seu sucessor são mais importantes que o trabalho de adivinhação inicial que nos levou a tomar essa escolha.

Esta visão é apoiada no trabalho do professor de Standford Baba Shiv, um expert na neurociência da tomada de decisão. Shiva percebeu que no caso de tomadas de decisões complexas, a anáise racional nós fará ficar mais perto de uma decisão mas não resultará numa escolha definitiva. Isto deve-se a que as nossas opções envolvem a troca de um conjunto de resultados apelativos em detrimento de outro, e a complexidade de cada cenário torna impossível a previsibilidade da determinação de que resultado será o ótimo.

Duas importantes descobertas emergiram da pesquisa de Shiv: Primeiro, as decisões com sucesso são aquelas em que o decisor se mantém empenhado na sua escolha. E segundo, as emoções têm um papel critico na determinação de um resultado bem-sucedido, numa decisão sem trocas. Tal como Shiv disse à revista Standford Business, as emoções são “atalhos da mente que nos ajudam a resolver conflitos de soluções de compromisso e…a empenhar-nos com felicidade numa decisão”. Alem disso, Shiv acrescentou, “Quando sentimos um conflito de compromissos, isso apenas faz com que se deva concentrar mais ainda no seu instinto.”

Isto não significa de todo que devemos apenas deixar que as emoções escolham por nós. Todos já tomamos decisões “emocionais” que mais tarde nos viemos a arrepender. Mas a atual pesquisa na neurociência torna claro que as emoções têm um papel muito preponderante na tomada de decisão através do descarte de opções que com mais certeza iriam levar a resultados negativos e ajudando-nos a focar naqueles que vão ter resultados mais positivos. Mais especificamente a pesquisa levada a cabo pelo professor Roy Baumeister da Universidade do Estado da Florida e de outros, que sugere que a tomada de decisão está ligada a nossa habilidade em antecipar futuros estados emocionais. Tal como Baumeister, C. Nathan DeWall e Liqing Zhang escreveram no livro Do Emotions Help or Hurt Decision Making?, “Não é o que uma pessoa sente agora mesmo, mas aquilo que ele ou ela antecipa vir a sentir como resultado de um comportamento em particular que pode ser um guia poderoso e efetivo em decidir bem.”

Quando uma decisão nos paralisa precisamos mais do que uma análise racional. Precisamos de nos imaginar vividamente num cenário futuro, entrar em contado com as emoções que daí decorrem e avaliar como esses sentimentos influenciam o nosso nível de empenho com essa escolha particular. Nem sempre podemos tomar a decisão certa, mas podemos fazer cada decisão certa.

(Ed Bastista é um executivo na Stanford Graduate School of Business. Escreve com regularidade sobre assuntos relacionados com coaching e desenvolvimento pessoal em edbatista.com)

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