Harvard Business Review

E se os empregos socialmente úteis pagassem menos impostos que os outros?

investigadores

O mercado de trabalho não contempla, em geral, o valor social das profissões.

Este outono, os universitários finalistas dos EUA estão a fazer uma escolha que dará forma ao resto das suas vidas: que carreira seguir depois da licenciatura. É uma decisão extremamente complexa, envolvendo negociações entre prestígio, segurança do emprego, qualidade da vida profissional e salário.

Estas escolhas de carreira, contudo, não afetam só os próprios estudantes, mas também o resto da sociedade. A investigação económica indica cada vez mais que alguns profissionais têm spillovers, ou impacto social, o que significa que o valor social do trabalho de um indivíduo pode ser muito inferior ou muito superior à sua compensação. O mercado de trabalho não contempla, em geral, o valor social das profissões.

Alguns spillovers são de extrema importância. Considerando o quanto os bons professores melhoram os resultados finais dos seus alunos, calculamos que os seus spillovers sejam duas vezes maiores do que os salários que recebem. Os benefícios da investigação médica são ainda mais importantes, montando a mais de um quinto do rendimento total nos Estados Unidos. Por outro lado, alguns sectores envolvem esforços de «soma zero», em que os lucros surgem à custa de outros participantes no mercado. Exemplos são a litigação excessiva ou agentes financeiros que tentam bater os índices de mercado.

Os spillovers interferem com os sinais da economia, orientando erroneamente os estudantes talentosos. Isto pode conduzir os talentos — indiscutivelmente o ativo mais valioso de uma nação — a escolher mal a carreira. Obras recentes sobre macroeconomia indicam que, quando as economias não conseguem atribuir os ativos à sua melhor utilização, o crescimento abranda e os rendimentos estagnam. Embora os economistas se tenham concentrado desde há muito em políticas que promovem a aquisição de capital humano através da educação, a colocação eficiente do talento que daí resulta também é importante.

Que políticas podem incentivar os profissionais talentosos a escolher carreiras socialmente benéficas? O nosso artigo recente, «Taxationand the Allocation of Talent», estuda esta questão. Recuando ao trabalho do notável economista britânico Arthur Pigou, os especialistas em economia defenderam a subsidiação de atividades com spillovers positivos e a taxação das que têm spillovers negativos. O nosso artigo aplica esta ideia à distribuição dos talentos pelas profissões. Para calcular os spillovers de diferentes carreiras, baseámo-nos em vários estudos que estimam os efeitos do trabalho de várias ocupações na economia em geral.

Consideramos dois tipos diferentes de políticas fiscais. No primeiro, o governo corrige escalões de impostos sobre rendimentos federais em geral, de maneira a que os empregos com spillovers mais positivos mas com menores salários pareçam mais apelativos depois dos impostos. No segundo, o governo taxa (ou subsidia) mais algumas profissões do que outras. Por exemplo, os professores podem ter um nível de impostos diferente dos advogados. Embora alguns sectores recebam hoje em dia subsídios, a ideia da generalização de uma taxação específica à profissão representa um ponto de partida muito mais radical do que a reforma fiscal dos rendimentos de trabalho.

Para avaliar estas políticas, usámos dados sobre as escolhas ocupacionais e os rendimentos dos trabalhadores americanos. Os nossos dados mostram, por exemplo, que 18% dos multimilionários trabalham na finança, enquanto apenas 1% são professores ou cientistas. Além disso, as escolhas de carreira são altamente sensíveis a alterações de salário; visto que os salários nas profissões financeiras aumentaram muito entre 1980 e 2005, a quota de trabalhadores nos bancos de investimento, hedge funds, e estabelecimentos financeiros similares mais do que duplicou. Aplicámos um modelo económico a estes dados, o que nos permite estimar o impacto provável destas políticas na economia.

Concluímos que a primeira (e mais modesta) política de ajustamento dos escalões de impostos sobre o rendimento pouco faria para promover o crescimento económico. A ideia aqui é que aumentar os impostos no topo incentivaria os trabalhadores a escolher empregos com menor salário e, em alguns casos, até poderia traduzir-se em mais trabalhadores a escolherem profissões socialmente mais valiosas. Porém, pelas nossas estimativas, poucos desses trabalhadores escolheriam empregos com spillovers altos, como a investigação médica. Em vez disso, muitos tornar-se-iam entertainers ou comerciais — carreiras que podem ser mais flexíveis e agradáveis, mas para as quais poucas pesquisas económicas sugerem grandes spillovers sociais. Além disso, aumentar os impostos no topo podia incentivar os cientistas multimilionários a trabalhar menos. Embora poucos em número, estes cientistas são extremamente produtivos, gerando uma grande parte dos spillovers sociais totais da investigação.

Em contraste, a segunda política, mais radical — imposição de impostos específicos à profissão — pode fazer crescer dramaticamente a economia. Essas taxas incentivam diretamente os trabalhadores a enveredar por profissões com os spillovers sociais mais altos.

Quer isto dizer que o governo devia reformular os códigos fiscais atuais e introduzir taxas diferentes em diferentes empregos? Vemos duas razões pelas quais fazê-lo funciona melhor na teoria do que na prática. Em primeiro lugar, seria muito difícil definir rigorosamente as ocupações, especialmente com biliões de dólares de impostos em jogo. É fácil imaginar um novo sector de contabilistas e advogados devotados a explorar as ambiguidades dessas definições. Em segundo lugar, escalões de impostos específicos para as profissões criam oportunidades para lóbis específicos às profissões. Os escalões de impostos resultantes podem favorecer os sectores com mais impacto político do que os que têm maiores spillovers.

Em vez disso, defendemos que se tratem os spillovers numa base caso a caso, impostos sobre rendimentos à parte. Os spillovers mais positivos vêm de duas profissões, o ensino e a investigação, que já recebem muito do seu financiamento dos governos. Nos Estados Unidos, por exemplo, um maior financiamento para os Institutos Nacionais de Saúde e para a Fundação Nacional de Ciência podia aumentar os salários de investigadores científicos, enquanto a compensação de mérito para os professores podia chamar mais dos melhores e mais brilhantes profissionais a devotar os seus talentos à educação da geração seguinte. Estas políticas podiam promover o crescimento, muito mais do que muitas das propostas atuais de reforma fiscal.

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