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Este pode ser o pior emprego do mundo

Boss_ignora empregados

Antigo moderador do The Guardian explica como é complicado transformar as caixas de comentários dos jornais em locais de discussão inteligente.

Mais de 70 mil comentários por dia, entre os quais imensos de “trolls”, loucos ou maliciosos a soldo de empresas ou partidos. Marc Burrows fez parte da equipa que gere os comentários do The Guardian online, o jornal britânico que está determinado a educar o seu público na internet, e escreveu sobre aquele que lhe disseram ser “o pior emprego do mundo”.

“Abaixo da linha dos artigos no site do The Guardian encontram-se queixas, azedumes, insultos e muita gente a desestabilizar («trolling»). Mas também se encontra sabedoria, esclarecimento e piadas brilhantes, ainda que não seja o que o público em geral nota mais. Reparam, antes, no que é negativo, nas palavras que fazem sangue”, explica Marc Burrows, recordando os cinco anos em que teve de ler “milhões de comentários” e bloqueou “centenas de milhares”.

Além de ser responsável pelo cumprimento das regras do periódico, o moderador explica que lhe cabia orientar os comentários de forma a não divergirem do assunto da notícia ou não permitir que “alguém com uma agenda própria” controlasse os assuntos. “Não deixar que um artigo sobre chapéus acabasse arruinado por alguém que detesta moda, impedir que um artigo emocional sobre dar de comer a refugiados em Calais seja dominado por alguém que protesta contra o abuso de crianças em Roterdão…”, exemplifica.

Moderar é mais complicado do que “eliminar frases legalmente duvidosas, spam e linguagem desapropriada”. O que é “difícil”, segundo Marc, é “entender as agendas e como podem estragar uma conversa – como um comentário lançado como uma pedra num lago calmo pode causar pequenas ondas que vão alterar o rumo do tópico”. Não se trata de “trolling” – o termo inglês, nascido com a internet, difícil de traduzir numa só palavra, mas que traduz todos aqueles seres inconvenientes que desatam a disparatar nos fóruns online, nas redes sociais ou nos comentários dos jornais e que, muitas vezes, chegam ao “cyber bullying”.

“O mais recente problema das caixas de comentários está nos “agenda trolls”: pessoas que estão tão convencidas que têm razão que, quando entram nas conversas, não é para fazerem parte mas para arruiná-las. São fáceis de detetar: são os utilizadores que gritam “MENTIROSO!” quando querem dizer “acho que estás enganado”; são aqueles cujos argumentos nunca combina exatamente com o comentário a que se dirigem; os que recorrem a insultos e FALAM EM MAIÚSCULAS. Não é possível vencer esta gente, porque nunca acreditam que perderam”, resume. E o pior é quando “se encontram em bando” e organizam “ataques em larga escala, quer através da convergência natural de pessoas com pensamento semelhante, quer porque se organizaram” para tal.

“Piores são os “trolls da propaganda” pagos por alguns países, verdadeiros inimigos do teclado que entregam mensagens aprovadas pelo Estado”, refere Marc, apontando a Coreia do Norte e a Rússia como alguns dos países de origem desse tipo de “troll”. O resultado disso é que “chega-se a um momento em que todos desconfiam uns dos outros e acusam qualquer um de quem discordem de ser um figurante pago”, portanto “todas as opiniões estão inquinadas e o debate com significado acaba, o que é, no fundo, o objetivo”.

A crise dos refugiados foi, para o moderador, o assunto mais difícil de gerir online. “Nunca vi um tema revelar tanta falta de compaixão e tantas respostas violentas, emotivas e zangadas”. Muitos comentadores são “simplesmente incapazes de dizer «é uma pena, mas não podemos dar-nos ao luxo de ajudá-los» ou «a emigração precisa de controlo», simplesmente diziam «deixem-nos afogar-se», «é bem feito» e pior”.

Com 100 milhões de utilizadores mensais e mais de 70 mil comentários diários, o The Guardian podia optar, como outros jornais, por fechar simplesmente as caixas de comentários. Mas o diário acredita que é possível transformar a internet num ambiente produtivo e saudável, por isso tem publicado uma série de artigos que enaltecem os “comentadores de topo“, sobre o problema do “cyber bullying” que afeta os jornalistas (especialmente quando são mulheres) e sobre a missão que assumiu de educar o público online.

Marc Burrows recorda que “milhares de pessoas passam pelo The Guardian diariamente para discutir as notícias do dia e a larga maioria das conversas vale a pena”. Dessas conversas nascem micro-comunidades, seja de receitas de culinária, de jogos de computador ou de palavras cruzadas. “Não podemos desistir disso. É isso que faz a internet funcionar”, remata, acrescentando que, afinal, aquele “não foi o pior emprego do mundo, foi o melhor”.

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