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Estudantes de MBA? Parem de procurar emprego

Jovens que não trabalham nem estudam podem aceder ao programa Empreende Já e criar o próprio negócio.
Foto: REUTERS/Alexander Demianchuk
Jovens que não trabalham nem estudam podem aceder ao programa Empreende Já e criar o próprio negócio. Foto: REUTERS/Alexander Demianchuk

O número de postos de trabalho está a estagnar e empregos a tempo inteiro são incertos. O conselho que dou é procurem trabalho, não empregos

Quando os estudantes do meu curso de MBA sobre economia gig me perguntam qual a melhor coisa que podem fazer para se prepararem para as suas futuras carreiras, respondo-lhes: “Parem de andar à procura de um emprego.”

Pode parecer um conselho estranho para estudantes de um MBA (Master of Business Administration). Afinal, os seus graus académicos destinam-se a catapultá-los diretamente para os níveis superiores da América empresarial e a maioria dos estudantes inicia os seus estudos com o objetivo de conseguir um emprego. O problema é que os empregos já não são o que eram. O crescimento do número de postos de trabalho está a estagnar e os empregos a tempo inteiro são incertos e arriscados. As empresas já não fazem promessas de segurança profissional nem financeira à força de trabalho atual.

Cada vez mais, tanto as empresas como os trabalhadores preferem e optam pelos acordos de trabalho mais flexíveis e independentes que são proporcionados pela economia gig e, ao fazê-lo, estão a transformar o como, onde e quando trabalhamos. Vinte a 30 por cento da população em idade laboral desempenha algum tipo de trabalho independente, de acordo com o McKinsey’s Global Institute, e esta percentagem está a aumentar rapidamente.

A melhor preparação que posso oferecer aos estudantes é ajudá-los a desenvolver a mentalidade, as aptidões e as ferramentas para serem bem-sucedidos neste novo mundo do trabalho independente. Na aula do MBA que leciono, existem três razões específicas pelas quais digo aos meus estudantes que deixem de procurar um emprego.

Vinte a 30 por cento da população em idade laboral desempenha algum tipo de trabalho independente, de acordo com o McKinsey’s Global Institute, e esta percentagem está a aumentar rapidamente.

A primeira é que os empregos a tempo inteiro estão a desaparecer. O setor privado costumava criar e acrescentar à economia empregos a tempo inteiro a uma taxa de 2 a 3 por cento ao ano. Em 2000, durante o crash das empresas dot-com, essa percentagem caiu para menos de 2 por cento. Em 2008, a taxa de criação de empregos caiu ainda mais – para menos de 1 por cento – e manteve-se a este nível historicamente baixo ao longo de 2015. Os economistas Larry Katz e Alan Krueger chegaram à conclusão de que todo o crescimento líquido de emprego nos EUA ao longo da última década provinha de acordos de trabalho alternativos, não de empregos a tempo inteiro.

Outra causa do declínio nos empregos é a estagnação do nosso motor do crescimento do emprego. São as empresas jovens, não as pequenas empresas, como se geralmente se crê, que criam a maior parte dos novos postos de trabalho. O crescimento de novas empresas jovens situa-se a níveis historicamente baixos e as empresas que efetivamente nascem estão a criar menos postos de trabalho. As empresas startup costumavam criar cerca de 3 milhões de postos de trabalho por ano nos EUA, mas isso desceu para pouco mais de 2 milhões por ano.

Em vez de criarem empregos, as empresas estão cada vez mais a separar trabalho e emprego. Por exemplo, cada vez menos existem empregos de jornalista a tempo inteiro, mas existe bastante trabalho de reportagem de freelancers. Da mesma maneira, aquele antigo emprego de diretor comercial transformou-se agora no trabalho produzido por um adjudicatário de redes sociais, uma agência de relações públicas em outsourcing e um consultor de estratégia de marketing. Onde antigamente existiam empregos, na economia gig existe hoje em dia apenas trabalho.

As empresas startup costumavam criar cerca de 3 milhões de postos de trabalho por ano nos EUA, mas isso desceu para pouco mais de 2 milhões por ano.

O conselho que dou aos meus estudantes é que procurem bastante trabalho, não empregos cada vez mais escassos.

A segunda razão por que aconselho os meus estudantes a deixarem de procurar um emprego é o facto de os empregados a tempo inteiro estarem a tornar-se o trabalhador de último recurso. Em vez de preferirem empregados a tempo completo, muitas empresas empenham-se hoje em dia em evitá-los e procuram maneiras de construir os seus modelos de empresa e gerir as sociedades com o menor número possível de empregados a tempo inteiro.

Os empregados a tempo inteiro são a fonte de trabalho mais dispendiosa e menos flexível, qualidades que os tornam pouco atraentes para a América empresarial e para as startups do Silicon Valley. Os nossos políticos têm perpetuado uma estrutura obsoleta do mercado de trabalho, em que as empresas pagam impostos elevadíssimos pelos empregados a tempo inteiro e são obrigadas a proporcionar determinados benefícios e proteções unicamente aos empregados a tempo inteiro, o que significa que contratar um empregado custa significativamente mais (3 a 40 por cento) do que um trabalhador independente com competências semelhantes.

Além disso, tanto os mercados de capital público como privado têm um forte historial de recompensarem as empresas com avaliações mais altas quando elas limitam ou reduzem o número dos seus empregados. Não é por isso de surpreender que a tendência para contratar trabalhadores a tempo parcial e adjudicatários independentes, para a automatização e para o outsourcings e tenha tornado constante, generalizada e crescente.

Onde antigamente existiam empregos, na economia gig existe hoje em dia apenas trabalho.

Isto não significa que os empregados a tempo inteiro desapareçam completamente – não vão desaparecer. Haverá sempre necessidade de um pequeno núcleo duro de trabalhadores essenciais, talentos com grande procura e lugares de administração sénior, que as empresas pretenderão preencher com empregados a tempo inteiro, por motivos de qualidade, consistência e continuidade. Porém, fora desse núcleo duro, as empresas deparam-se com poderosos incentivos económicos e de mercado para manter baixo o número dos seus empregados a tempo inteiro.

A melhor estratégia que os meus estudantes podem seguir é prepararem-se para serem trabalhadores independentes, não empregados a tempo inteiro.

A terceira razão é a evidência de que o trabalho tradicional não está a funcionar bem para a maioria dos norte-americanos. A segurança de emprego já não existe e os bons salários, os benefícios generosos e a reforma certa que costumavam estar garantidos por um emprego a tempo inteiro estão em declínio ou já desapareceram mesmo. Quase 70 por cento dos norte-americanos não se sentem empenhados nos seus empregos, de acordo com a Gallup.

Pelo contrário, uma sondagem recente da McKinsey feita entre mais de 8000 trabalhadores chegou à conclusão de os trabalhadores independentes estão mais satisfeitos com quase todos os aspetos da sua vida laboral do que os empregados. Uma sondagem da Future Workplace/Field Nation entre 959 freelancers determinou que 74 por cento preferem ser trabalhadores independentes e não têm nenhuma intenção de regressar a um emprego a tempo inteiro. Inerente à economia gig é a escolha, a autonomia, a flexibilidade e o controlo que incrementam a satisfação do trabalhador, mas que falta muitas vezes aos empregados a tempo inteiro.

Os meus estudantes têm melhores hipóteses de criarem uma vida laboral motivante e satisfatória se se concentrarem em conseguir um trabalho verdadeiro em vez de um bom emprego.

Apesar do aparecimento e rápido crescimento da Economia Gig, os programas de MBA têm sido lentos na sua adaptação. As próprias escolas empresariais estão cada vez mais equipadas com professores adjuntos a tempo parcial e, no entanto, os seus cursos continuam a ser concebidos para preparar os estudantes para serem empregados a tempo inteiro em empregos a tempo inteiro. Em vez de gastarem verões a ajudar os estudantes a elaborar um currículo diversificado de gigs, proporcionam estágios a tempo inteiro e empregos tradicionais com um único empregador.

Os parceiros de recrutamento da universidade oferecem empregos a tempo inteiro para empregados a tempo inteiro. Os licenciados interessados em desenvolverem um trabalho mediante contrato, projetos de consultadoria e tarefas em sistema freelance ficam entregues a si próprios para encontrar ou criar oportunidades. Isto precisa de mudar. Os programas de MBA têm para com os seus estudantes o dever de os preparar para serem bem-sucedidos na economia gig do futuro, não na economia de empregos que pertence ao passado.

Diane Mulcahy é autora de The Gig Economy: The Complete Guide to Getting Better Work, Taking More Time Off, and Financing the Life you Want. É professora assistente no BabsonCollege, onde criou e administra um curso de MBA sobre a Economia Gig, e membro sénior da Fundação EwingMarionKauffman.

 

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