Recursos Humanos

De pés na areia e cabeça no trabalho: aprenda a desligar nas férias

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Telefonemas, e-mails e preocupações laborais não devem ser levados para férias. Saúde e vida pessoal podem estar em risco.

A resposta automática do e-mail já se encontra pronta a avisar todos de que está out off the office. As malas estão feitas e pela frente há uma agenda cheia de sol e água do mar. Contudo, na prática, nem sempre é possível o usufruto de umas férias descansadas completamente alienado das preocupações laborais. Chamadas urgentes, e-mails que precisam mesmo de ser respondidos ou uma ajuda “rápida” a um colega em aflição são cenários comuns em dias de descanso.

O equilíbrio entre a vida pessoal e profissional continua a ser um dilema no mundo do trabalho, principalmente para “funções de middle and top management, com gestão de equipas de média e grande dimensão, em setores complexos e de amplitude maioritariamente internacional, como consultoria, financeiras, marketing e comunicação, retalho ou FMCG (fast-moving consumer goods)”, enumera a gestora de talentos Susana Miranda. A linha entre o direito a descansar e o compromisso com o trabalho é cada vez mais ténue. “Tornou-se uma “obrigação” óbvia uma disponibilidade a 360 graus: telemóvel para chamadas urgentes (que na maioria não o são), prestar atenção aos sms, Skype ligado para reuniões internacionais inesperadas, WhatsApp disponível para troca de impressões. Em suma, não são férias. É uma nova tendência de recursos humanos apelidada de “períodos controlados de descanso pontual do colaborador”, adianta.

O excesso de trabalho, as horas extraordinárias e os períodos de repouso em que o trabalhador acaba por estar sempre disponível podem trazer consequências graves a médio e longo prazo.A saúde física e psíquica ficam ameaçadas. “Perturbações de ansiedade, alterações do sono, depressão, abusos e dependência de álcool, drogas, mas também de psicofármacos. Em situações mais graves podem surgir ideias de suicídio.” Estas são algumas das patologias, descritas pelo médico psiquiatra Pedro Afonso, que podem resultar da privação de um descanso pleno.

“O estatuto social, o prestígio e os benefícios económicos obtidos pelo trabalho deixam de ser fatores suficientemente fortes para motivar a pessoa e há um colapso interior. É preciso dizê-lo porque há muitas pessoas que se tornam autênticos workaholics e acabam por ficar alienadas com o trabalho excessivo, caindo num estilo de vida doentio e autodestruidor”, prossegue.

Para além dos problemas de saúde, também a esfera pessoal e social são afetadas. “Muitas vezes os casamentos não aguentam esta pressão, surgem os divórcios, e os próprios amigos acabam por se afastar. Se for um comportamento continuado, ao fim de algum tempo, pode conduzir a um enorme isolamento social”, alerta o psiquiatra.

Segundo o especialista e também professor de psiquiatra na Faculdade de Medicina de Lisboa, é imperativo estar atento aos sinais e perceber quando o corpo e a mente precisam de parar. “Ao longo do ano, o nosso cérebro encontra-se submetido a um esforço e a uma sobrecarga constante. A pressão profissional, associada à necessidade de cumprir objetivos de produtividade, horários e agendas cada vez mais preenchidas, levam inevitavelmente a um desgaste que tem um efeito cumulativo. Ou seja, ao fim de algum tempo, a pausa habitual do fim de semana já não é suficiente para que o indivíduo possa recuperar”, elucida.
Aprender a desligar

Vários fatores podem estar na origem de uma sobrecarga de trabalho que, inevitavelmente, acaba por interferir com os períodos de descanso. Por um lado, podem ser as próprias chefias a exigir demasiado dos trabalhadores e a não reconhecer que, fora do horário laboral, os empregados têm uma vida privada. “As empresas deveriam ter um sentido de responsabilidade ética e imporem limites, respeitando o horário de trabalho e os períodos de descanso”, explica Pedro Afonso.

Por outro lado, são também as próprias chefias e gestores que, muitas vezes, se veem assoberbados de trabalho e, pressionados pelos objetivos e pela responsabilidade, mergulham num estilo de vida dominado pelo trabalho, conforme explicou anteriormente Susana Miranda.

Contudo, é também habitual existir uma desorganização generalizada, comum a muitas pessoas antes de irem de férias e que, na impossibilidade de conseguirem gerir os assuntos da forma mais eficaz no período pré-férias, acabam por levar questões pendentes para os dias de pausa.

Sofia Calheiros, especialista em coaching, explica a importância do planeamento e organização para que seja possível usufruir de umas férias livre de preocupações.

A coach sugere o método “2+2+2”, ou seja, planear com duas semanas de antecedência as duas semanas de férias e organizar os assuntos para as duas semanas posteriores. “Se deixarmos tudo para a última acabamos por ir de férias estafados. E leva-se uma sensação de preocupação, remorso e culpa”, atesta.

Desta forma, nas semanas anteriores à ausência do trabalho, é importante tratar dos assuntos pendentes e organizar a secretária e os documentos. Delegar algum assunto mais urgente a um colega, é também um bom método para ir tranquilo de férias. Isto, claro, sem deixar os os outros trabalhadores carregados de trabalho, explica Sofia Calheiros.

“Planear as semanas seguintes ajuda a ter a certeza de que no regresso não se leva com um tsunami em cima e que os assuntos estão devidamente organizados”, refere.

Depois de deixar todas as questões pendentes devidamente resolvidas, é imperativo desligar e limpar a mente de preocupações laborais no período de descanso. “A férias são também uma importante forma de estabelecer e fortalecer as relações sociais que durante o ano, devido ao trabalho, ficam muitas vezes para segundo plano. O trabalho não deve impossibilitar esta legítima aspiração humana, porque ela também é uma necessidade para o nosso bem-estar e para a nossa saúde psíquica”, esclarece o médico psiquiatra Pedro Afonso.

A gestora de talentos Susana Miranda sublinha a importância de não mostrar disponibilidade para evitar abusos por parte de chefias. Desligar o telemóvel do trabalho, utilizar o computador em modo offline, de forma a evitar o contacto de colegas ou clientes ou deixar um e-mail automático esclarecedor quanto à sua ausência são outros dos conselhos da especialista.

“Todos somos substituíveis no trabalho, mas ninguém pode tomar o nosso lugar na vida familiar e social”, conclui o psiquiatra Pedro Afonso.

 

Veja na fotogaleria os conselhos da gestora de talentos Susana Miranda para desligar do trabalho e aproveitar as férias em pleno.

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