Emprego

Gig economy. A nova moda do mercado laboral não serve a Portugal

arranjar emprego

Trabalhos temporários, qualificados e bem pagos estão a conquistar os norte-americanos. Mas por cá, dominam os indiferenciados

6,9 milhões de empregos. Esta é a destruição de postos de trabalho que a crise do subprime provocou nas empresas norte-americanas entre 2007 e 2010. O rasto de destruição fez a taxa de desemprego subir de 4,6% em 2007 para 9,3% em 2010. Nove anos depois, ainda não foi possível à maior economia do mundo regressar a valores pré-crise – a taxa de desemprego foi de 5,3% no final do ano passado – e talvez nunca seja, dizem os especialistas em recursos humanos contactados pelo Dinheiro Vivo.

É que depois de um período muito difícil para o mercado de trabalho, os norte-americanos encontraram uma nova forma de trabalhar: procuram cada vez mais empregos de curta ou muito curta duração que lhes permitem conciliar a vida privada e profissional, através de uma gestão pessoal do tempo do salário.

A este fenómeno chama-se gig Economy, um movimento que foi buscar o termo “gig” que se atribuía aos músicos de Jazz que nos anos 20 saltavam de bar em bar nas ruas de Chicago à procura de trabalho.

Nos dias de hoje, ser gig é fazer um trabalho especializado e bem pago. Os profissionais liberais são os que mais facilmente se adaptam a este fenómeno, mas em tese, desde que haja abertura por parte das empresas, qualquer função se pode adaptar.

“Trata-se de pessoas altamente qualificadas que saíram das empresas onde trabalharam durante anos e agora estão a regressar para objetivos muito concretos e projetos de curta ou muito curta duração”, detalha Amândio da Fonseca, presidente da agência de recrutamento Egor, lembrando que este fenómeno é consequência das várias alterações que o emprego foi sofrendo nos EUA desde os anos 80 e que culminou com a saída de tantos quadros qualificados de bancos, consultoras, agências financeiras e empresas de imobiliário, arquitetura ou engenharia no subprime. “É um fenómeno de dimensões muito grandes que só uma economia que floresce permite”, acrescenta o presidente da Egor, assumindo que “para haver criação de emprego é preciso ter um PIB a crescer, pelo menos, 2%” e que sem isso “é muito complicado arriscar”.

Fotografia: D.R.

Fotografia: D.R.

Um estudo da Michael Page realizado em 15 países percebeu que o regime de trabalho temporário é adotado por praticamente todas as áreas de atividade do mercado global. Porém, a maioria encontra-se inserida nas áreas de Banking & Financial Services (13%), Industrial Manufacturing (11%), e Business Services e Tecnologia (9%), em ambos os casos). São também relevantes o setor público e as áreas da Saúde, Property & Construction e Bens de Consumo e Retalho.

Em Portugal, “ainda prevalece a lógica dos contratos permanentes e olha-se para o trabalho temporário como sinónimo de alguma precariedade”, assume Mário Rocha da Hays, lembrando que é difícil adaptar esta realidade ao nosso País. De facto, o trabalho temporário, em Portugal, ainda prevalece na área dos serviços e dá resposta, principalmente, “a empresas que precisem de fazer a substituição temporária de um funcionários, dar resposta a picos sazonais ou, em caso de multinacionais, que tenham admissões congeladas”, acrescenta Mário Rocha.

São as empresas de recursos humanos que alimentam em Portugal este fenómeno mas as posições indiferenciadas ainda não as que predominam. À Adecco, por exemplo, chegam por vezes pedidos mais qualificados para áreas de engenharia ou recursos humanos. Vânia Borges recorda uma das última solicitações: três contratos de engenharia por três semanas a um salário de 1300 euros base. “Portugal ainda está um pouco atrasado nesta matéria, mas as novas gerações vão ajudar a que haja uma mudança de paradigma”, assume a especialista.

Haverá, no entanto, sempre limitações. “Ainda há muito a ambição de se conseguir um contrato mais estável, ainda que algumas pessoas com uma escolaridade mais elevada já optem por trabalhos temporários para projetos de IT (Tecnologias da Informação), ou investigação – especialmente quando já trabalharam no estrangeiro”, detalha.

A expectativa de entrar para uma empresa a tempo completo e alcançar um contrato sem termo é para Amândio da Fonseca, uma das razões para que a Eu Sa, empresa criada pela Egor para ajudar profissionais liberais em situação de trabalho temporário não tenha descolado. Admite que os inscritos “não chegam a meia dúzia” e que a cultura portuguesa é o principal bloqueio a este crescimento. Quem poderia estar mais disponível para este tipo de emprego, os técnicos mais qualificados do que chama a geração grisalha, “emigraram para Angola ou Moçambique”. Quanto aos jovens, “a motivação é encontrar um emprego estável e, entre três e cinco anos, fundarem a sua própria empresa”, realça.

Há ainda um novo entrave. Se nos Estados Unidos, se estima que em 2020, 40% da população possa estar na gig economy, incluindo pessoas com mais de 65 anos que estão a aproveitar plataformas eletrónicas e digitais para trabalharem por pequenos períodos, em Portugal, o tecido empresarial composto 99% por micro e pequenas empresas trava a evolução. “Os países desenvolvidos gerem os seus quadros de uma forma flexível, mas grande parte das nossas empresas ainda não está preparada para este fenómeno”, justifica Carla Marques da Randstad.

Leia mais: 10 maneiras de se tornar rico aos 20 anos

“Os grandes utilizadores da gig economy são as grandes multinacionais, mas temos vindo a incentivar as PME porque um emprego para a vida é cada vez menos promissor”. A especialista tem, por isso, esperança nas novas gerações, que “exigem um equilíbrio diferente para a vida pessoal”. Mário Rocha completa: “estamos a conduzir processos para perfis mais qualificados mesmo havendo resistência” em Portugal.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. (Fotografia: Mário Cruz/ Lusa)

Carlos Costa: “Não participei nos 25 grandes créditos que geraram perdas” à CGD

Pedro Granadeiro / Global Imagens

Reclamações. Anacom acusa CTT de divulgar informação enganosa

Paulo Macedo, presidente da CGD

CGD cumpre “com margem significativa” requisitos de capital do BCE

Outros conteúdos GMG
Conteúdo TUI
Gig economy. A nova moda do mercado laboral não serve a Portugal