Emprego

Inteligência artificial vai roubar ou criar empregos?

artificial-intelligence-2167835_1920

Um novo relatório dá pistas sobre o impacto que a inteligência artificial terá sobre os empregos. E não é tão a longo prazo como se possa pensar

Os chatbots que falam com os clientes no Messenger do Facebook, os robôs que ajudam passageiros nos aeroportos, as máquinas que permitem encomendar e receber comida sem interagir com humanos, os carros que se vão conduzir sozinhos. Quantos empregos vão desaparecer por causa das novas tecnologias de inteligência artificial?

No ano passado, o Fórum Económico Mundial deixou toda a gente de queixo caído quando previu que esta quarta revolução industrial iria acabar com cinco milhões de postos de trabalho até 2020, só num grupo de 15 países desenvolvidos e emergentes. Os alarmes têm soado um pouco por todo o lado, com pesquisas a indicar que boa parte da população acredita na extinção em massa de postos de trabalho devido a estas novas tecnologias – inteligência artificial e aprendizagem de máquina, robótica, nanotecnologia, impressão 3D e biotecnologia. Mas a Gartner tem agora um novo relatório com uma visão diferente do que se irá passar a médio prazo.

O estudo da consultora, “Predicts 2018: AI and the Future of Work”, conclui que a inteligência artificial irá criar mais empregos do que aqueles que destruirá no médio prazo. Prevê a criação de 2,3 milhões de postos de trabalho a partir de 2020, mais que os 1,8 milhões que irá eliminar.

A Gartner refere que 2020 será um ano crucial para as dinâmicas provocadas pela inteligência artificial e que esta terá um impulso positivo no mercado de emprego, uma perspetiva diferente em relação ao que se tem discutido.

“Muitas inovações significativas no passado foram associadas a um período transitório de perda de empregos, seguido de recuperação e depois de transformação de negócios, e a inteligência artificial irá provavelmente seguir esta rota”, assinala Svetlana Sicular, vice presidente de pesquisa da Gartner. O relatório mostra que o número de empregos afetados pelas novas tecnologias IA vai variar conforme a indústria: em 2019, a manufatura sofrerá as maiores consequências negativas, enquanto a saúde, sector público e educação assistirão a um aumento das ofertas de trabalho. O segmento do outsourcing vai sofrer mudanças fundamentais no modelo de negócio, obrigando ao reinvestimento das poupanças geradas pela IA em novas oportunidades.

Inteligência aumentada

O que vai acontecer, diz a consultora, é que a IA irá melhorar a produtividade de muitos tipos de emprego, eliminando nesse processo milhões de posições de baixo ou médio nível. Ao mesmo tempo, todavia, irá criar milhões de novas posições para as quais são precisas outras capacidades – mas não necessariamente de alto nível.

“Infelizmente, os avisos mais calamitosos da perda de empregos confundem inteligência artificial com automação, o que ofusca o maior beneficio da IA: inteligência aumentada, uma combinação de inteligência humana e artificial, em que uma complementa a outra”, refere a analista. Em 2021, diz o relatório, esta inteligência aumentada irá gerar 2,9 biliões de dólares em valor de negócio e recuperar 6,2 mil milhões de horas de produtividade.

Outra previsão espantosa do relatório é que, em 2022, um em cada cinco trabalhadores vai depender de inteligência artificial para completar o seu trabalho, em tarefas que não são de rotina. A IA já está a ser aplicada a tarefas altamente repetitivas, mas é das outras que se extrairá maiores ganhos. “É mais provável que a IA aplicada a tarefas não repetitivas vá assistir os humanos em vez de os substituir, à medida que combinações de humanos e máquinas trabalharem mais eficazmente que especialistas humanos ou máquinas inteligentes de forma isolada.”

Haverá tentativas mal sucedidas de substituir humanos por máquinas, prevê o relatório. Por exemplo, os retalhistas que quiserem pôr robôs em vez de humanos a vender roupa vão falhar, porque as pesquisas demonstram que muitos consumidores ainda preferem interagir com alguém que sabe o que está a fazer. Isto será muito vincado em lojas de especialidade, como bricolage, cosmética ou drogarias. Os empregos em risco serão os de caixa e operacionais, em que a componente humana não acrescenta muito valor.

“Os retalhistas vão conseguir reduzir custos eliminando empregos muito repetitivos e transacionais, mas precisam de reinvestir essas poupanças na formação de vendedores que possam melhorar a experiência do cliente”, explica o analista da Gartner Robert Hetu. Isto é, os retalhistas vão encarar a inteligência artificial “como uma forma de aumentar as experiências dos clientes e não de remover humanos de todos os processos.”

Simplesmente automatizar processos não irá resultar, avisa o analista Mike Rollings. “Em vez de ter uma máquina a replicar os passos que um humano executa para chegar a um resultado, todo o processo de decisão pode ser repensado para usar as forças e fraquezas de máquinas e humanos na maximização da geração de valor e redistribuição da tomada de decisões”, conclui.

A Gartner considera que este é o momento certo para as empresas definirem as suas estratégias de IA e ajudarem os seus trabalhadores a estarem preparados para a mudança que aí vem. Não será uma tarefa fácil: de acordo com uma pesquisa de 2016 do Pew Research Center, dois terços dos americanos preveem que a maioria dos empregos atuais serão feitos por robôs no próximo meio século. No entanto, 80% dizem que isso vai acontecer aos outros e que os seus empregos estarão a salvo. Resultados similares foram obtidos numa pesquisa feita pela Quartz este verão, em que 90% dos inquiridos disseram que metade dos empregos serão perdidos para máquinas dentro de cinco anos, mas 91% afirmaram que os seus postos de trabalho não estão vulneráveis.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Fotografia: REUTERS/Mike Segar

Moody’s mantém rating de Portugal em lixo

Ricardo Salgado, presidente do BES

Ricardo Salgado constituído arguido no caso EDP

No calçado, fecharam três fábricas emblemáticas. Fotografia: Pedro Correia/Global Imagens

Têxtil e calçado. 122 na falência em três meses

Outros conteúdos GMG
Inteligência artificial vai roubar ou criar empregos?