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Justiça digital e o sonho do Facebook de dominar o mundo

Fotografia: REUTERS/Adnan Abidi
Fotografia: REUTERS/Adnan Abidi

Um mundo digitalmente “justo” pode assumir muitas formas diferentes e fornecer serviços através de alguns agentes inesperados

Como fundador do país do “Facebuquistão”, Mark Zuckerberg tem as mãos cheias com mais de mil milhões de utilizadores em todo o mundo. Porém, como muitos já sabem, ele tem um sonho ainda maior — chegar aos quatro mil milhões e meio de pessoas por todo o mundo que não têm acesso à Internet.

A iniciativa de um ano conduzida pelo Facebook, chamada Internet.org, tem por fim oferecer acesso livre a um conjunto selecionado de websites, como uma versão “light” do Facebook, Wikipedia e outros, assim como um número limitado de serviços de conteúdos em telefones móveis. O Facebook e o consumidor fazem um bom negócio: o consumidor tem acesso gratuito a uma forma limitada de Internet e é uma boa aposta porque, se mais pessoas tiverem este acesso, o próprio Facebook será um dos maiores beneficiários.

Um acordo que suscita polémicas, sobretudo por parte dos ativistas que fazem campanha pela neutralidade da Net. Negócios como o Facebook estão a preencher uma lacuna no acesso à Internet em mercados emergentes que outros, incluindo o setor público, poderão nunca ser capazes de alcançar.

Além disso, a empresa tem interesse em dar mais acesso às pessoas: um estudo de 2015 da Mobile Africa relativo a cinco dos maiores mercados africanos concluiu que o Facebook é, em média, a atividade mais popular no telemóvel, mais do que enviar mensagens de texto ou ouvir rádio.

Acreditamos que está aqui em jogo uma questão ainda mais fundamental: quais são as implicações de um mundo digitalmente “justo”? É melhor para uma sociedade ser mais inclusiva digitalmente, mesmo com a ajuda de corporações (ainda que perseguindo também os seus interesses de negócio), ou em primeiro lugar deve estar uma garantia absoluta de neutralidade na Net — embora isso possa impedir esta iniciativa privada?

A Índia é o exemplo principal. Apenas 19.2% da sua população tem acesso à Internet (em casa ou através de um aparelho wireless); outras estimativas, como as do Banco Mundial, sugerem que esse número pode ser ainda inferior, 15.1% em 2013. Na Índia, de acordo com um estudo da McKinsey & Co., as maiores barreiras à adoção da Internet são sobretudo na área das capacidades de acesso e do conhecimento da própria Internet.

Embora o governo do primeiro-ministro Narendra Modi tenha anunciado as suas intenções de ajudar a preencher a lacuna, incluindo o recente lançamento de uma campanha muito divulgada, “Digital India”, a vastidão do país, a grande população e a falta de infraestruturas levarão a que os progressos demorem.

O setor privado demonstrou vontade de entrar em jogo. Apesar de ter 200 milhões de utilizadores de Internet no final de 2014, a Índia não está sequer entre os dez maiores mercados de comércio eletrónico do mundo, de acordo com um relatório recente da eMarketer. Entretanto, o mercado de comércio eletrónico chinês é 80 vezes maior. Dado o contexto, não é de surpreender que as empresas — Facebook, Google e operadoras de telecomunicações — tenham motivação para melhorar o conhecimento e o acesso à Internet.

Isto ajuda-as, assim como a outros agentes da economia digital, a expandirem os seus mercados onde os governos continuam a falhar. É um investimento para o futuro. E elas estão ansiosas por lutar por ele — o Facebook acabou de lançar uma campanha na Índia para defender a sua iniciativa Internet.org enquanto um painel governamental prepara um relatório sobe a neutralidade na Net.

No nosso estudo Digital Planet na Universidade Tufts classificámos por ordem 50 países quanto à sua prontidão digital e identificámos, como áreas críticas a melhorar, as infraestruturas de fornecimento, incluindo largura de banda de telecomunicações, e as subscrições de serviços que oferecem acesso à Internet.

Como parte do estudo, comparámos as taxas de evolução digital com o uso da Internet móvel. Usámos uma medida a que chamamos “mobile Internet gap” e que é a diferença entre o número total de utilizadores num país com assinaturas de telemóvel e utilizadores cujas assinaturas de telemóvel também fornecem acesso à Internet.

A Índia pode ter grande potencial para o crescimento económico se os obstáculos críticos ao acesso à Internet diminuírem. Encontra-se entre os países com as taxas mais baixas de penetração de Internet, tem uma das maiores faltas de Internet móvel e é um dos países de ritmo mais rápido em termos da sua evolução digital. Para um investidor, esta combinação de fatores pode fazer da Índia um dos mercados mais atractivos — não só para o Facebook, mas também para os investidores de capital de risco e de capital privado.

Nos últimos anos, houve uma corrida à economia da Internet que começou a surgir na Índia. A Amazon.com dedicou 2 mil milhões de dólares para aumentar a sua presença no país durante o ano passado e o agente local online, Flipkart, atraiu 550 milhões de dólares na sua última campanha de financiamento. O Flipkart está em terceiro lugar entre as start-ups mundiais mais valiosas detidas por privados, ao lado de estrelas como a Palantir Technologies e a Snapchat Inc., de acordo com uma análise Wall Street Journal/VentureSource.

Entretanto, a Uber está, agressivamente, a enfrentar o concorrente doméstico, Ola Cab, e o patrocinador japonês deste, o SoftBank, prometeu investir até 10 mil milhões de dólares nos negócios de Internet da Índia durante a próxima década. Assim, os esforços do governo já estão a atrasar os lucros do setor privado.

Noutros mercados emergentes, a China ainda é um dos melhores lugares para verificar o impacto económico de facilitar o acesso à Internet. Apesar da sua lacuna ainda considerável em termos de Internet, a China, de acordo com um relatório da Morgan Stanley, representou 35% do comércio eletrónico global em 2013 (314 mil milhões de dólares, face aos 255 mil milhões dos Estados Unidos). Na primeira metade de 2014, 26% de todas as compras online na China foram feitas através de um telemóvel. Pode esperar-se que este número cresça à medida que o número de utilizadores de Internet móvel aumente.

Na América Latina, o Brasil apresenta a mesma combinação de fatores que a Índia — uma grande população e taxas baixas de penetração de Internet, que têm atraído o interesse de empresas como a Xiaomi, a fabricante de auriculares chinesa, que está a considerar o Brasil para o seu primeiro lançamento de smartphones fora da Ásia, e investidores em mercados online desejosos de obter uma fatia do maior mercado do mundo para produtos de beleza, a seguir aos Estados Unidos e à China.

Se as economias digitais mais atrasadas alguma vez chegarem ao nível das outras, há necessidade de uma maior colaboração público-privada em torno do acesso à Internet. E enquanto o setor público não tiver um plano — e orçamento — para estimular o acesso, rejeitar as ideias do setor privado pode abrandar ainda mais o ritmo do desenvolvimento.

Isto significa aceitar uma negociação no papel do setor privado, mas até uma forma limitada de acesso através de iniciativas como a Internet.org é uma alternativa melhor a não ter qualquer acesso, especialmente se tivermos em conta a dimensão da população excluída mundialmente e do quanto são privados aqueles que estão do lado errado da barreira digital. Um mundo digitalmente “justo” pode, de facto, assumir muitas formas diferentes e fornecer serviços através de alguns agentes inesperados.

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