Recursos Humanos

Mercado digital crescente exige aposta nas qualificações

Conferência 65 anos CCILA – “Empregos qualificados exigem qualificações adequadas: Estamos preparados?”, no Europarque.
Silke Griemert
(Tony Dias/Global Imagens)
Conferência 65 anos CCILA – “Empregos qualificados exigem qualificações adequadas: Estamos preparados?”, no Europarque. Silke Griemert (Tony Dias/Global Imagens)

Conferência que assinalou 65 anos da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã juntou setores do ensino, emprego e empresas para debater desafios da digitalização para o mundo do trabalho.

Se, por um lado, a “escassez de colaboradores com as qualificações desejadas pode ser, em muitos casos, visto como um travão ao crescimento económico”, por outro, “temos a automatização e a digitalização que, como muitos receiam, poderá vir a custar postos de trabalho”. São “dois lados da mesma moeda” numa economia que muda de forma veloz e que Miguel Leichsenring, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã, colocou, há dias, em cima da mesa, durante a conferência Empregos Qualificados Exigem Qualificações Adequadas: Estamos Preparados? O evento assinalou os 65 anos daquele organismo, em Santa Maria da Feira.

O momento que atravessamos é decisivo e as empresas e o sistema de ensino terão de trabalhar em conjunto para responderem às novas necessidades da economia. Em caso de sucesso, teremos “prosperidade”. Se não, “declínio económico”, antevê.

Em Portugal, segundo Paulo Feliciano, vice-presidente do Instituto de Emprego e Formação Profissional, o desemprego recuou em “todos os níveis de qualificação e segmentos etários”, mas “cada vez mais haverá menos espaço para os menos qualificados”. Desde o início do milénio, foram requalificados “1,5 milhões de pessoas na vida ativa com ensino secundário” e estamos “à beira de atingir a meta de ter 50% das pessoas com ensino secundário”. Contudo, não é suficiente e é preciso não deixar ninguém para trás. Daí que sublinhe com especial preocupação a “coligação negativa perfeitamente dramática entre as baixas qualificações e a idade”, que dificulta a entrada no mercado de trabalho: 50% das pessoas inscritas no instituto de emprego têm menos do 9.oº ano de escolaridade e 60% têm mais de 50 anos.

Preparar talentos
É urgente que se faça o “encontro” entre as necessidades das empresas e as competências e conhecimento dos centros de saber para responder à mudança, diz Silke Griemert, da Universidade de Koblenz, na Alemanha. No ensino dual naquele país, explica Reiner Valier, representante do Ministério Federal da Educação e Investigação da Alemanha, “são as empresas que enviam os funcionários para formação”, sendo que 70% do ensino é dentro das companhias e 30% nas escolas.

No INESC TEC, refere o seu presidente José Manuel Mendonça, o corpo docente, investigadores e bolseiros mantêm uma boa relação com as empresas e daquele instituto saem tecnologia e profissionais qualificados que causam “impacto económico e social”. Nos politécnicos, adianta o vice-presidente do Instituto Politécnico do Porto, Rui Ferreira, “há uma forte componente em contexto de trabalho”.
Mas para além de formar talentos, é preciso retê-los. Diogo Pimenta, ex-presidente da Associação de Estudantes da FEUP, admite que os salários no estrangeiro são mais “aliciantes”. Daí que, explica Daniel Traça, diretor em Portugal da Nova School of Business and Economics, as empresas que quiserem reter talentos têm de ser competitivas e ter “salários igualmente competitivos”.

Automação é oportunidade
A automação e a digitalização estão a provocar “transformações nas empresas” a grande velocidade, alertou António Bob Santos, administrador da Agência Nacional de Inovação. Alexandra Godinho, da Corticeira Amorim, estima mesmo que, “em três ou quatro anos”, a realidade industrial vai “transfigurar-se” e acontecerão coisas que hoje “nem imaginamos”. É, pois, natural que “as qualificações tenham de mudar também”. E encontrar as soluções, frisa, depende não só das empresas mas também do sistema de ensino e da sociedade em geral.

Jurgen Haase, da Volkswagen Autoeuropa, está confiante que a automação irá trazer “ganhos de eficácia brutais”. Também Rita Cadillon, da Primavera Business Software Solutions, olha para as questões da digitalização não apenas como uma diminuição dos postos de trabalho, mas como “um mundo de oportunidades” para se “reinventarem”. Não há, sublinha Ana Branco da Cunha, da The Fladgate Partnership, “como parar este processo” de um mundo mais tecnológico, digital e robotizado.
Mas não é só de conhecimento técnico que vivem as empresas. No caso da Kirchhoff Automative, “um terço do dinheiro que gastamos na formação é em cultura e valores”, pois é essencial que haja “cidadania profissional e o respeito pela profissão”, diz António Rosas.

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