Coronavírus

O mundo do trabalho mudou. A saúde é agora lei

Regresso ao trabalho - ilustração
Regresso ao trabalho. Ilustração: Vitor Higgs

Promotores e investidores imobiliários estão a preparar-se para ter um selo para distinguir edifícios saudáveis.

O mundo do trabalho mudou em poucas semanas. Habituados a deslocarem-se diariamente para os escritórios, grande parte dos funcionários viram-se, de um dia para o outro, confinados a casa. O trabalho remoto ganhou um dinamismo que ninguém antevia e as pessoas parecem genericamente satisfeitas com esta nova realidade.

Apesar da adaptação das empresas e colaboradores a este novo modo de viver, o futuro não deverá ser tão diferente da era pré-covid. Consultoras e promotores imobiliários reconhecem que o mercado de escritórios terá de espelhar uma nova forma de estar, onde a proteção da saúde é determinante.

A criação de um selo que assegure edifícios sustentáveis ao nível ambiental e humano é o próximo passo, adianta Hugo Santos Ferreira, vice-presidente da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII). Esta associação, em conjunto com outras empresas, está a ultimar uma “parceria com a Nova Medical School para criar um laboratório de certificação de edifícios saudáveis e fornecer orientações para os promotores mobiliários e gestores para promover a saúde”

Este poderá ser um passo essencial para o regresso ao trabalho. “O ambiente de escritório proporciona experiências, interações com os colegas, confronto de ideias, resolução de conflitos, aprendizagens que não são replicáveis digitalmente”, argumenta Amílcar Marques da Silva.

O responsável do departamento de escritórios da Cushman & Wakefield nota que só neste espaço é possível promover experiências pessoais e colaborativas que não são possíveis em casa. “Por muito que a tecnologia nos dê soluções que melhorem a nossa qualidade de vida, nunca deverá ser substituto para o que se consegue através da interação humana”, sublinha.

Mariana Rosa, responsável pelo departamento de escritórios da JLL Portugal, acredita que “no período pós-pandemia, o contacto presencial – o networking, as conversas cara-a-cara – permanecerão como essenciais e muito importantes para as empresas”. Agora, a tendência da última década de densificação do espaço de trabalho será invertida pelo foco na flexibilidade, bem-estar e eficiência, para aumentar a produtividade dos trabalhadores”.

Os projetos de escritórios vão ter de responder a novas exigências, ou seja, espaços de qualidade, arejados, amplos, com luz natural, bem servidos de transportes públicos, comércio e serviços, com características modernas, bons sistemas de ar condicionado e ventilação e disponibilidade de espaços exteriores privativos ou comuns.

Dessa nova realidade também fazem parte os coworks, espaços de trabalho partilhado que despertaram há 10 anos em Portugal e que foram uma “resposta eficaz à precariedade e fragilidade dos independentes”, recorda Fernando Mendes, líder do Now_Beato. Mais de uma década depois, os coworks estão “nas mesmas condições de reagir e ajudar a levantar uma nova onda de esperança na cidade e no país”.

Apesar de as receitas terem “simplesmente desaparecido” em dois meses, Fernando Mendes encontra alguns sinais de esperança, não só na maior procura por parte das empresas – em vez dos trabalhadores independentes – mas também no facto de “a maioria dos que ficaram confinados perceberem agora a real importância de poder usufruir de um espaço de coworking, uma casa fora de casa”.

No LACS, a maior preocupação é responder à falta de espaço, através de duas opções: foi criado um pacote de 10 horas de utilização de salas de reuniões de maior dimensão para garantir a segurança dos trabalhadores; as empresas que tenham desistido das suas instalações podem juntar, numa sala de reuniões, as equipas em trabalho remoto ou então realizar encontros externos com clientes ou fornecedores, assinala a diretora-geral do LACS, Dulce Martinho.

Os preços descem?

“A maior certeza hoje é a incerteza”, frisa Hugo Santos Ferreira. Embora admita uma descida temporária – algo “normal e esperado para este momento de paralisação” -, as previsões apontam para que esse fenómeno para uma retoma num prazo de 6 a 12 meses. Amílcar Marques da Silva considera “cedo para aferir o real impacto da Covid-19 no setor imobiliário que não seja conjetural”, ou seja, com “impacto residual nos ativos imobiliários”.

Para Mariana Rosa, as premissas que definem o valor das rendas nas grandes cidades portuguesas mantêm-se inalteradas: baixas taxas de disponibilidade, falta de produtos de escritório de qualidade, procura de empresas nacionais e internacionais para entrar e/ou expandir.

Jorge Valdeira, diretor da Regus, empresa especializada em centros de trabalho flexível, reconhece que poderá haver alguma retração nos preços do arrendamento de escritórios. No entanto, sublinha, ainda é cedo para ter certezas dado a inexistência no momento de informação estatística que aponte para onde vai o mercado. Certeza é que a pandemia não travou os planos de expansão.

Com 14 centros em Portugal, a Regus prepara-se para abrir em julho a 15ª unidade, na Quinta do Lago, no Algarve, num investimento de um milhão de euros. Jorge Valdeira acredita que este novo espaço será bem acolhido logo na estreia, quando muitos veraneantes poderão necessitar de “pôr um olho no negócio”.

Há ainda alguns contactos para franchisar a marca em cidades portuguesas fora das regiões de Lisboa e Porto. Continua a haver escassez de oferta no mercado e os escritórios privados dentro destes centros continuam com muita procura, entende Jorge Videira.

Apostar na segurança

Sem nunca terem suspendido atividade, os centros da Regus adaptaram-se às novas exigências de higiene e segurança. Maior distanciamento entre secretárias nas áreas de coworking, reforço das limpezas, colocação de desinfetantes e de material informativo, portas abertas para evitar a utilização de puxadores ou recomendações para o uso de máscaras são disso exemplo. Ao nível dos escritórios privados, cada empresa implementou as suas medidas.

Também a Ávila Spaces, que explora dois centros de negócio em Lisboa, avançou com um conjunto de regras para fazer face ao momento de desconfinamento. Segundo o líder desta empresa, Carlos Gonçalves, isto implicou “um investimento de vários milhares de euros” para disponibilizar materiais de proteção base e dos espaços, como divisões em acrílico. A limpeza de todas as superfícies foi também reforçada.

A estas medidas, o LACS acrescentou um circuito de entrada e saída dentro dos edifícios e definiu uma taxa taxa máxima de ocupação das zonas comuns. O Now_Beato dispensou os separadores de acrílico “porque seria a forma mais dura de relembrar que não podemos sentar-nos perto uns dos outros”.

Apesar de todas as medidas de segurança, o regresso ao escritório será feito com turnos e com muitos dos colegas ainda à distância do ecrã. Exemplo disso é a Critical Software, que mantém a recomendação para “trabalhar a partir de casa sempre que possível”, adianta o responsável pela gestão de infraestruturas da tecnológica portuguesa, Miguel Valério.

Na DefinedCrowd, o regresso aos escritórios de Lisboa e do Porto apenas está marcado para “a segunda metade de junho, com muitas restrições, e será voluntário”, adianta a administradora de recursos humanos, Teresa Nascimento. Se os trabalhadores quiserem voltar ao trabalhar, apenas um terço dos funcionários poderão estar nas instalações e por quatro dias por semana, “sendo que depois deverão regressar ao modo trabalho remoto durante 14 dias, e assim sucessivamente”, acrescenta.

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