Harvard Business Review

O que fazer quando o seu CV fica manchado por um escândalo?

Fotografia: EPA/JULIAN STRATENSCHULTE
Fotografia: EPA/JULIAN STRATENSCHULTE

Tem-se sentido insatisfeito com o seu emprego e quer mudar. A sua antiga associação a uma empresa-escândalo não constituirá problema — certo?

Cerca de 11 milhões de carros por todo o mundo tinham esse programa instalado. Esta descoberta conduziu a uma queda imediata do preço das ações da Volkswagen, a investigações governamentais na América do Norte, Europa e Ásia, à demissão do seu CEO e à suspensão de outros executivos, a um recorde de prejuízos da empresa em 2015 e a uma fatura estimada em mais de 19 mil milhões de dólares para remediar o assunto.

Imagine que trabalhava para a Volkswagen antes de serem instalados os novos controlos de emissões, e que nunca trabalhou nos departamentos que criaram os programas enganosos. Ultimamente, tem-se sentido insatisfeito com o seu emprego e quer mudar. A sua antiga associação à VW não constituirá problema — certo?

Fotografia: REUTERS/Fabian Bimmer

Fotografia: REUTERS/Fabian Bimmer

Não seria maravilhoso ser a pessoa que salvou o Lehman Brothers?”

Errado. A nossa pesquisa demonstra que os executivos que têm no currículo empresas manchadas por escândalos pagam um preço alto no mercado de trabalho, mesmo que não estivessem envolvidos no problema.

Como o efeito do escândalo é duradouro, mesmo uma empresa para a qual já deixou de trabalhar há muito tempo pode ter impacto na sua mobilidade profissional, atual e futura.

Em termos gerais, estes executivos são pagos cerca de 4% menos que os seus congéneres. Dado que essa compensação inicial influencia fortemente a compensação futura, a diferença pode tornar-se significativa ao longo de uma carreira.

Como o efeito do escândalo é duradouro, mesmo uma empresa para a qual já deixou de trabalhar há muito tempo pode ter impacto na sua mobilidade profissional, atual e futura. Não é possível controlar esse risco, mas é possível fazer planos para ultrapassar as consequências.

ESTIGMA ORGANIZACIONAL

As empresas manchadas pelo escândalo sofrem de estigma como se fossem pessoas. As outras organizações podem cortar relações com elas ou tentar aproveitar-se financeiramente da situação. E o estigma organizacional é contagioso, não apenas para os empregados mas por vezes também para outras empresas do mesmo sector.

Por que razão o estigma é tão difícil de combater e tão fácil de transferir? Há três razões.

— O ESTIGMA NEM SEMPRE É RACIONAL. A psicologia experimental oferece bastantes evidências de que os nossos juízos de valor relativamente a outras pessoas são muitas vezes baseados, não tanto numa avaliação racional, mas numa espécie de pensamento mágico que procura evitar o contágio moral ou físico.

— É DIFÍCIL JULGAR COM EXATIDÃO AS OUTRAS PESSOAS. Os responsáveis pelas contratações usam muitas vezes atalhos cognitivos, heurística e estereótipos — consciente ou inconscientemente — para avaliar candidatos. A informação negativa e os estereótipos têm uma influência desproporcional.

EXISTEM MOTIVOS PARA SE SER CONSERVADOR. O estigma organizacional resulta de juízos de valor de múltiplos grupos, a quem os investigadores chamam “árbitros”. Estes incluem agências reguladoras, tribunais, jornalistas e a comunidade empresarial, incluindo empresas de colocação de executivos e empresas que estão a contratar.

Os árbitros são responsáveis por investigar os escândalos corporativos e lidar com as suas consequências. E, como a sua própria credibilidade está em jogo, os árbitros tendem a ser conservadores.

Então, o que pode ajudar os executivos das empresas envolvidas em escândalos a recuperar?

FATORES DIFERENTES, EFEITOS DIFERENTES

Várias considerações determinam se, e quanto, um escândalo empresarial vai afetar a carreira de um empregado inocente ou anterior ao escândalo.

— CULTURA NACIONAL. As consequências negativas de um escândalo são mais pronunciadas em países com sistemas reguladores e de governo mais fortes, como os Estados Unidos e a Dinamarca, onde os executivos das firmas envolvidas em escândalos chegam a receber uma compensação inferior em 6% aos outros executivos. Em países com leis mais fracas, como a Rússia, a Espanha, a Colômbia e o Bahrain, as diferenças de remuneração não são estatisticamente significativas.

— POSTO DE TRABALHO. Os prejuízos causados pelos escândalos financeiros são mais pronunciados entre os profissionais das carreiras financeiras. Executivos que trabalharam anteriormente nestas empresas recebem uma compensação inicial quase 10% inferior à de outros executivos financeiros, e a diferença acentua-se ao longo do tempo.

SENIORIDADE. O fardo de uma anterior associação a uma empresa envolvida num escândalo pode ser mais pesado para quem se encontrava em posições seniores, cuja compensação é mais de 6,5 % inferior à dos executivos sem essa associação. Para os executivos juniores, os efeitos são variados.

— GÉNERO. As mulheres são mais prejudicadas do que os homens pelo efeito do escândalo: recebem 7% menos, ao passo que os homens recebem apenas 3% menos. A maior visibilidade das mulheres líderes pode ser uma justificação. As mulheres de empresas associadas a escândalos também podem sentir que abordam a mesa das negociações em posição desvantajosa e não negoceiam a compensação com o mesmo vigor com que o fariam noutras condições.

— EDUCAÇÃO. Elementos das empresas envolvidas em escândalos que foram alunos das universidades da Ivy League receberam ofertas moderadamente inferiores (2%) às dos seus pares sem empresas problemáticas no currículo, enquanto os licenciados por outras universidades tinham ofertas quase 4% inferiores.

Os consultores de contratação de executivos sugerem que os seguintes fatores também podem ter influência:

— CULTURA DO SECTOR. Alguns sectores são mais tolerantes acerca do que merece estigma organizacional. A bancarrota pode destruir a reputação de uma instituição financeira mas não de uma empresa de software, pelo menos no século XXI. Quando um sector completo foi atingido por múltiplos escândalos ou falências, como aconteceu com a Banca, a reação das empresas que sobrevivem pode ser diversificada.

— SUBGRUPOS NO INTERIOR DA EMPRESA ESTIGMATIZADA. Se um escândalo for claramente produto de uma pessoa, grupo ou divisão da empresa, pode ser mais fácil para os empregados de outras partes da organização escaparem ao estigma.

— CAPACIDADES DE NICHO. Os especialistas de nicho têm duas vantagens fundamentais: não são facilmente substituíveis e — mais importante — têm mais probabilidade de serem conhecidos pessoais dos responsáveis pelas contratações.

RECUPERAÇÃO

Como se pode sobreviver a um escândalo corporativo? As conclusões da nossa pesquisa sugerem três passos:

— FRONTALIDADE. A transparência é fundamental. Os recrutadores afirmaram-nos que os empregados de uma empresa envolvida em escândalo têm de ser os primeiros a levantar o assunto.

— REPUTAÇÃO. A melhor coisa a fazer é “tomar de empréstimo” a reputação e legitimidade de outra pessoa. Os gestores que têm amplas redes de conhecimentos externas, ou que estão em campos que enfatizam as reputações individuais, podem conseguir essa cobertura através de relações existentes.

Para muitos outros, as empresas de colocação de executivos podem ser ao mesmo tempo a referência e o patrocinador. São contratadas por outras empresas e não investirão numa grande análise de currículo a não ser que já acreditem na inocência e no valor do candidato no mercado de trabalho.

— REABILITAÇÃO. Depois de provar a sua inocência e estabelecer relações com pessoas que possam atestar o seu caráter, o passo final poderá ser aceitar um “emprego de reabilitação”. O objetivo deste, represente ou não um passo atrás em termos de compensação ou responsabilidade, é criar uma história persuasiva que possa competir com a narrativa do escândalo. O objetivo é que este emprego de reabilitação seja a primeira informação que as pessoas associam ao profissional.

As táticas para sobreviver a um escândalo organizacional dependem de múltiplos fatores, mas a estratégia básica é a mesma: colocar os factos em cima da mesa, tomar de empréstimo o bom nome de outra pessoa e aceitar um emprego que lhe permita voltar a dar provas. O efeito do escândalo nem sempre pode ser previsto ou controlado, mas é possível sobreviver-lhe.

Resumo da Ideia

A CONCLUSÃO

Executivos com empresas manchadas por escândalos nos seus currículos pagam uma fatura maior no mercado de trabalho — mesmo que não tenham tido nada a ver com o comportamento incorreto.

A RAZÃO

O estigma causado pelo escândalo tem grande influência nas decisões de contratação porque é difícil julgar os outros com exatidão e porque os responsáveis pelas contratações tendem a ser conservadores.

A RESPOSTA

Se tiver uma empresa manchada pelo escândalo no seu currículo, deve lidar com o assunto com frontalidade, estabelecer relações com pessoas que possam atestar o seu caráter e considerar a hipótese de aceitar um “emprego de reabilitação”.

Começar a trabalhar numa “empresa-escândalo”

Quando as empresas estigmatizadas contratam gestores, o equilíbrio de poder inclina-se para o lado do indivíduo. Aqueles que pretendam juntar-se a uma empresa envolvida num escândalo, podem receber um bónus por o fazerem.

“Quando as empresas-escândalo sobrevivem”, diz-nos um headhunter, “as pessoas que entram para os seus quadros são compensadas mais positivamente do que as que estavam lá antes”. Contudo, a compensação é uma solução rápida e os consultores procurarão, provavelmente, candidatos cujas capacidades ou experiência os tornem adequados a estas circunstâncias particulares.

Aceitar um emprego numa empresa-escândalo pode ser uma atitude proveitosa num estágio inicial ou final da carreira de líder.

“As empresas que passaram por algum género de publicidade negativa têm de, sem dúvida, realizar um pouco de remuneração de risco”, reconheceu um recrutador, “embora não se trate apenas de “olhem, vocês têm de pagar 40% mais. Digamos que eu conheço alguém que já viveu na Europa e sua família quer muito voltar para lá; isso pode ser usado a nosso favor”.

Um recrutador salientou que aceitar um emprego numa empresa-escândalo pode ser uma atitude proveitosa num estágio inicial ou final da carreira de líder — ou seja, alguém que funciona a curto prazo e tem um alto nível de tolerância ao risco.

“Alguns jovens talentosos e muito agressivos podem aceitar um emprego destes por quererem uma oportunidade de ser CEO — se correr bem, parecerão fantásticos. Se correr mal, a culpa não é deles, pelo que poderão recuperar — ou, mais provavelmente, alguém numa fase final de carreira ou cuja empresa tenha sido vendida, não havendo portanto grande risco pessoal.

Alguns candidatos podem sentir-se atraídos pelo desafio de gerirem uma reviravolta. Um recrutador falou da “mistura de ego e humildade” que leva um executivo a entrar para uma firma envolvida em escândalo: “É um reconhecimento da extensão do problema e da necessidade de auditoria muito superior ao habitual. E é o desejo, por parte da empresa que contrata, de ter abertura para resolver a totalidade do problema. A pessoa que o fizer, será marcada como especial. Não seria maravilhoso ser a pessoa que salvou o Lehman Brothers?”

Sobre a pesquisa

Usando dados de uma empresa global de colocação de executivos, juntamente com historiais de carreira pormenorizados, analisámos 2034 mudanças de emprego de executivos através de múltiplas funções, sectores, níveis de senioridade e geografias, entre 2004 e 2011.

Para cada uma das mudanças, registámos a geografia, o título profissional, o sector, os nomes das empresas, os atributos individuais, como o género e a instrução, e os níveis de compensação das posições anteriores e da colocação. Cerca de metade das colocações foram em posições diferentes de executivos de alto nível, presidentes ou vice-presidentes.

Os empregos prévios e as colocações posteriores tinham uma compensação média total de 294 mil e 331 mil dólares, respetivamente. Em média, os executivos tinham quase 19 anos de experiência profissional. Dos executivos colocados, 18% eram mulheres (uma proporção notavelmente superior à de conjuntos de dados apenas para executivos de alto nível).

Dos executivos estudados, 18% tinham trabalhado numa empresa marcada por declarações de rendimentos enganosas, descobertas quer pelo órgão de auditoria do governo americano (GAO) quer pelos Accounting and Auditing Enforcement Releases (AAER) da Comissão de Valores Mobiliários (SEC). A base de dados do GAO regista apenas revisões de declarações enquanto a dos AAER regista ações executórias da SEC que foram identificadas com uma designação AAER. O emprego destes executivos, claramente, é anterior às condutas fraudulentas e eles nunca estiveram legalmente implicados num escândalo.

Medimos o impacto da compensação total do primeiro ano quando um executivo com uma empresa-escândalo no seu currículo era colocado por uma empresa de colocação de executivos. Cada executivo foi comparado com a compensação do ano anterior na empresa anterior.

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