O seu chefe será psicopata? Tome nota dos sintomas

Aprenda a falar com o seu chefe
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O filme de Martin Scorsese, “O Lobo de Wall Street”, representa bem a devassidão que pode existir em termos de corrupção financeira, vida de excessos e ambição corporativa. É a história real, de “mendigo a milionário e novamente a mendigo”, de um corretor de Nova Iorque, Jordan Belfort, que forjou o seu caminho desonesto pela vida, começando pelos lugares mais baixos da hierarquia de Wall Street, e que, nos anos 90, fazia milhões a vender ações sem valor.

A história de Belfort é também uma história de total desrespeito pelos outros, de gastos descuidados e de um devastador vício de drogas e prostitutas. O seu enorme sucesso e fortuna valeram-lhe o título de “O Lobo de Wall Street.” Porém, em 1994, o conto de fadas acabou, e Belfort foi banido do negócio dos títulos financeiros para toda a vida e preso por fraude e lavagem de dinheiro.

Em casos como o de Belfort, nem sempre é fácil distinguir entre génio corporativo e psicopatia. Na verdade, muitas vezes é uma linha ténue que divide ambos. Algumas destas pessoas sobem a alturas assombrosas mas, no processo, causam enormes danos. Podem envenenar o local de trabalho e pôr em risco a saúde, tanto das suas empresas quanto dos seus empregados.

As pessoas que se comportam assim são aquelas a que chamo “Seductive Operational Bullies” (SOB) [Bullies operacionalmente sedutores]. Não chegam ao ponto de cometer homicídio ou fogo-posto mas, não sendo atormentados pelo peso da consciência que modera as interacções da maioria das pessoas, estes indivíduos são “psicopatas light.”

Podem ser encontrados onde quer que esteja em jogo poder, estatuto ou dinheiro. Aparentemente normais, bem-sucedidos e encantadores, a sua falta de empatia, vergonha, culpa ou remorsos pode ter sérias repercussões interpessoais e destruir organizações. As suas capacidades de camaleão significam que, muitas vezes, atingem posições executivas de topo, especialmente em organizações que apreciam uma gestão de impacto, práticas corporativas pouco ortodoxas, risco, domínio, competitividade e assertividade.

Claro que os psicopatas sempre estiveram entre nós. Muitas figuras históricas que cometeram crimes contra a humanidade integram-se nesta categoria. Mas apenas um pequeno subconjunto de psicopatas se transformam em criminosos violentos. O que temos de compreender é que existem muitas formas menos extremas de psicopatia.

Os SOB não são violentos ou anti-sociais de maneira óbvia; o seu comportamento perturbado não nos salta à vista. Podem ser difíceis de detetar, devido às suas personalidades manipuladoras; estão muitas vezes “escondidos à vista de todos.” Na verdade, muitos dos comportamentos e qualidades que exibem e que, noutros contextos, indiciam problemas mentais, parecem bastante apropriados nas posições de executivo sénior.

Ao contrário dos psicopatas extremos, nascidos sem a capacidade de constituir laços emocionais (devido, possivelmente, a anomalias genéticas), estes psicopatas “light” são normalmente produto da sua infância. A sua capacidade para uma resposta empática pode ter ficado deficiente devido a desilusões repetidas na infância, causadas por maus-tratos físicos, sexuais ou outros. Ao longo do tempo, essas experiências ambientais negativas podem ter conduzido a uma desativação ou má manutenção das respostas emocionais e neurológicas humanas, resultando em padrões de comportamento psicopata.

As estimativas variam, mas talvez 3,9% dos profissionais corporativos possam ser descritos como tendo tendências psicopatas, um número consideravelmente mais elevado do que aquele que se encontra na população em geral. A partir dessas observações, podemos deduzir que muitas pessoas a trabalhar em organizações têm boas probabilidades de ter uma experiência com um chefe patológico.

Infelizmente, a maior parte das pessoas que trabalha para os SOB, não dispõe de conhecimentos nem capacidade para lhes reagir e lidar eficazmente com eles. Ou não compreendem a causa dos seus problemas, ou não sabem como defender-se. Para piorar as coisas, estes executivos psicopatas possuem normalmente a dedicação, concentração e perspicácia empresarial para criarem, pelo menos, uma aparência de sucesso.

São altamente manipuladores, desacreditando quem os rodeia e desviando o assunto quando são confrontados. Poderão ameaçar e distorcer os factos, continuando a apresentar-se como pessoas prestáveis, que “trabalham para o bem da empresa”. Escondem com grande talento os seus verdadeiros motivos, fazendo os outros parecerem incompetentes, pouco cooperativos ou em busca de proveito próprio. A única coisa que conta para eles é vencer. Aproveitam-se das vulnerabilidades emocionais dos outros.

Então, que fazer para impedir que estas pessoas causem estragos? O ideal seria que as organizações refinassem os seus processos de recrutamento para nem sequer os contratarem. Analisar bem os currículos em busca de anomalias e sujeitar os candidatos a múltiplas entrevistas. Os SOB têm tendência a dizer aos entrevistadores o que julgam que estes querem ouvir e, fazendo várias entrevistas, é possível detectar respostas diferentes e até mesmo contraditórias.

E que fazer quando o psicopata já faz parte do seu staff? Se perceber que há pessoas talentosas a abandonar um projeto ou a própria empresa, isso pode ser um sinal. Também pode levantar a bandeira vermelha se houver discrepâncias gritantes entre a forma como as pessoas que lhe reportam diretamente e os empregados juniores percebem um executivo, e a maneira como os seus pares ou o seu chefe o percebem. Os empregados de categoria mais baixa são normalmente as vítimas principais do comportamento psicopata do chefe, e quase sempre detetam um problema muito mais cedo que a gestão sénior. Também é importante incentivar o trabalho de equipa, pois é algo com que os psicopatas não se sentem confortáveis e será mais fácil que se vão embora. E tome medidas para desenvolver uma cultura corporativa em que os empregados mais jovens possam exprimir preocupações acerca dos seus colegas e superiores sem medo de represálias.

Finalmente, se for tão azarado que tenha um psicopata como chefe ou mesmo como CEO da empresa, reconheça que não tem grande probabilidade de o mudar. Tentar uma destituição será difícil e porá em risco a sua própria carreira. Neste caso, o melhor caminho para si é a porta de saída.

Manfred F.R. Kets de Vries é professor de desenvolvimento de liderança e mudança organizacional no INSEAD em França, Singapura e Abu Dhabi. O seu livro mais recente, The Hedgehog Effect: The Secrets of Building High Performance Teams, foi publicado em 2011 (Wiley)

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